Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Finalmente chegou o dia!

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2016-03-08 às 06h00

Jorge Cruz

Finalmente, 36 anos após ter ascendido pela primeira vez ao poder, Aníbal Cavaco Silva termina a sua longa carreira política. Retira-se amanhã do Palácio de Belém, sem honra nem glória e sem deixar saudades, precisamente numa altura em que a sua popularidade se encontra nos índices mais baixos, como consequência directa, designadamente, da postura política que adoptou nos últimos anos.

Claro que o desagrado pelo personagem que, enfim, vai deixar de ser o primeiro magistrado da nação se intensificou e se generalizou nos derradeiros anos em função de atitudes que assumiu e das polémicas em que se deixou envolver. Mas não tenhamos quaisquer dúvidas, o seu percurso político desde que em 1980 se estreou como governante, quando assumiu a pasta das Finanças de um Executivo de Sá Carneiro, foi frequentemente controverso ajudando a alimentar uma onda de contestação que foi aumentando até se transformar num autêntico tsnunami.

Logo na primeira incursão pelos corredores do poder, e não obstante ter sido uma experiência curta, como o foi a existência desse sexto governo constitucional, Cavaco deixou uma marca bastante negativa: em apoio a uma estratégia eleitoral, subiu os gastos orçamentais, valorizou o escudo e desequilibrou a balança de transacções. Depois, bem, depois veio a sua recusa em integrar o governo que se lhe seguiu, liderado por Pinto Balsemão, e a renúncia ao cargo de deputado para que tinha sido eleito.

Ignoro se esta auto-marginalização aconteceu por mero calculismo político, no âmbito de uma estratégia de preparar o regresso com mais força política, ou se correspondeu à postura consciente de quem sabe a dimensão do vendaval que se aproximava: o défice das transacções correntes subiu de 5% do PIB em 1980 para 11,5% em 1981 e 13,2% em 1982; a dívida externa aumentou de 467 milhões de contos em 1980 para 1199 milhões em 1982, descalabro que obrigou o novo governo da AD, em 1983, a subir em 4 pontos as taxas de juro e a vender 50 toneladas de ouro para financiar as contas externas.

Foi, de facto, o total descontrolo da despesa pública dos governos de direita, entre 1980 e 1983, que conduziu a uma gravíssima situação económica das contas públicas e ao consequente pedido de ajuda ao FMI, com as consequências nefastas que essa intervenção ocasionou.
É então, em Novembro de 1985, que Cavaco Silva, então já reforçado politicamente como novo líder do PSD, regressa ao governo, mas como Primeiro-ministro, cargo para o qual foi reeleito nas duas eleições seguintes, o que lhe garantiu a manutenção durante uma década.

Convirá lembrar que a adesão de Portugal à CEE (actual União Europeia), no primeiro dia de 1986, marcou um ponto de viragem no país, designadamente ao nível da abertura ao exterior mas também no que toca às extraordinárias ajudas económicas para a modernização de Portugal.
Foi, pois, sob a tutela do então líder do PSD que se iniciou um vasto programa de construção de infraestruturas, predominantemente vias de comunicação, ao mesmo tempo que se apostava na mão-de-obra barata como factor competitivo para atracção de investimento estrangeiro.

Por outro lado, Cavaco deu início ao processo de privatização das empresas públicas, que passaram a ser controladas por grupos financeiros internacionais e acabando, muitas delas, por serem desmanteladas, o que contribuiu para a desindustrialização do país. Do mesmo modo, foi determinada a morte da reforma agrária no Alentejo, com a entrega de terras e chorudas indemnizações aos antigos latifundiários.

Quer isto significar que não obstante o enorme desafogo financeiro decorrente da colossal entrada de verbas da Europa, Cavaco desbaratou a possibilidade de fazer a reforma do Estado que se impunha, optando por políticas de cariz ideológico e outras, frequentemente, mais ou menos eleitoralistas. Foi assim, por exemplo, que aumentou exponencialmente o número de funcionários públicos, e se criaram inúmeros corpos privilegiados com estatutos especiais, o que teve como consequência a absorção de enormes recursos do país, sem que a tal correspondessem ganhos de eficiência da administração pública.

Claro que um quadro como este só poderia conduzir, como conduziu em 1993, à recessão. Daí à saída de Cavaco, em 1995, foi um pequeno salto, mas que correspondeu a um processo penoso porquanto os números do desemprego começaram a subir ao mesmo tempo que se faziam sentir com maior intensidade as deficiências estruturais de um estado perdulário que se envaidecia com obras emblemáticas como o Centro Cultural de Belém.

É verdade: os governos de Cavaco Silva receberam oceanos de dinheiro que, para desgraça dos portugueses, foram esbanjados em banalidades, em obras de regime que servem principalmente para encher o olho dos papalvos. Cavaco preferiu o cimento à verdadeira e necessária reforma do Estado, as obras megalómanas ao investimento no desenvolvimento harmonioso do país e, como se não bastasse, alimentou a crispação na sociedade portuguesa.

Estes são alguns dos factos, indesmentíveis, que marcam os primeiros anos da carreira política de Cavaco Silva. Muito mais se poderia dizer a partir de fontes credíveis, designadamente entrevistas e declarações públicas do próprio, e que são reveladoras da sua personalidade e das contradições em que se envolveu desde a sua filiação no então PPD, actual PSD. Mas, como diz o povo, para quê gastar cera com tão fraco defunto? Resta-nos a alegria de o ver partir.

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