Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Fique em casa. Por si. Pelos outros.

Quem me dera voltar a ser Criança

Fique em casa. Por si. Pelos outros.

Ideias

2020-03-23 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Antes de escrever esta crónica, percorro as redes sociais. E, de repente, sou surpreendida por um conjunto de fotografias captadas na manhã deste domingo que mostram pessoas a correr, andar a pé ou de bicicleta. Uma multidão! Como é isto possível, quando o país está em estado de emergência nacional? Fique em casa: esta tem sido a frase mais repetida por estes dias. Muitos políticos lembram que estamos em guerra. Que deve ser tomada a sério. Por todos.

Estou em casa há 10 dias. E ficarei aí o tempo que as autoridades nacionais fixarem. Há uma pandemia que é preciso combater e cada um de nós tem um papel fundamental nesta duríssima luta. A batalha faz-se à escala global. E todos somos chamados para o ataque. A primeira tarefa até nem é muito difícil: quem teve contacto com infetados deve isolar-se, os outros devem ficar o mais possível em casa e criar distanciamento social. É necessário que todos aceitem que a vida mudou radicalmente e isto vai durar, pelo menos, três meses. Só lá para o verão começaremos a regressar à normalidade (possível).

Numa altura em que a maior parte de nós foi puxada para casa para diminuir o número de infetados, há uns quantos que têm de continuar a trabalhar. No setor da saúde, ninguém foi dispensado e aí sente-se em permanência o peso da pressão. Políticos e entidades de saúde; administradores e diretores hospitalares; médicos, enfermeiros, técnicos e pessoal auxiliar: eis todos à procura de assegurar as condições possíveis para salvar vidas. Eis todos conscientes de que, a todo o momento, podem ser infetados. Pelo trabalho que desenvolvo na comunicação da saúde e por integrar a Liga de Amigos do Hospital de Braga, tenho falado bastante com estes diferentes atores nos últimos dias. Para lá das conversas que procuram solucionar problemas, há uma nota impressiva que tenho guardado como uma lição de vida: ninguém imagina quantos profissionais da saúde já levaram os filhos para casa de familiares com medo de chegarem a casa contagiados pelo covid-19 e serem transmissores do vírus para as crianças. Para trabalharem em prol de todos nós, muitas destas pessoas vão ficar sem ver os filhos mais de dois meses!

Por isso, fiquei chocada com aqueles que aproveitaram o dia de ontem para andar a pé ou de bicicleta como se nada estivesse a acontecer. O país está em estado de emergência nacional, a economia fez uma travagem a fundo de que não há memória. Como é possível pôr óculos de sol, vestir um fato de treino e ir praticar desporto para espaços comuns? É inexplicável. Mesmo.

Neste tempo em que procuro construir alguma normalidade dentro de casa, continuo ligada ao exterior de diversas formas. Também através da leitura de vários meios de comunicação social. Leio devagar o belíssimo texto que José Tolentino Mendonça escreveu no Expresso, intitulado “redescobrir o poder da esperança”, procurando agarrar referências para a aquilo que diz ser “as entranhas confusas de uma distopia”. E também lá vou percorrendo os media internacionais, lendo com atenção a edição especial que a revista Time preparou sobre o covid 19 com relatos impressivos de doentes de diferentes países. Os media franceses citam abundantemente A peste, de Albert Camus. Li o romance há uns bons 20 anos e dele guardo uma frase de que me lembrei bastante ontem. Dizia o narrador da obra, o médico Bernard Rieux, que “nos homens há mais coisas para admirar do que para criticar”.
Aqueles que este domingo saíram à rua para andar a pé serão certamente um grão de areia no meio de tanta gente que, nesta altura, está a ajudar, de diferentes formas, a combater esta pandemia, acreditando que todos juntos em prol do mesmo desígnio seremos capazes de vencer tudo.

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