Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +

Fragmentos de leituras que vão ficando…

“Marca própria” em tempos de pandemia

Fragmentos de leituras que vão ficando…

Ideias

2021-03-08 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

É comumente repetido que este tempo de confinamento permite usufruir do tempo lento da leitura, proporcionando disponibilidade e interesse que, porventura, outros contextos não geram em nós.
Sem certeza de que seja real e visível, não se deixa constatar que tal é uma possibilidade e, para quem experimenta, é inultrapassável o confronto com uma inevitabilidade: a nossa incapacidade de absorver e reflectir sobre todas as notícias geradas, a nossa incapacidade de acompanhar o que se vai, literária e jornalisticamente, produzindo.
Ao autor deste texto, assistem (sempre) dois dilemas: existir (sempre e inevitavelmente) muitos mais livros que merecem e se desejam ler do que aqueles que, realmente, são lidos; existir (fatalmente) muitos mais escritos jornalísticos que merecem reflexão e ponderação do que aqueles que, realmente, são atendidos.

Seja como for, o esforço continua, na perseguição da utopia, acreditando que, não sendo possível chegar à meta, quanto mais próximo da mesma ficarmos, melhor será.
Vem “isto a propósito” do hábito que este tempo foi consolidando no autor destas palavras de, regularmente, fazer sínteses do que lê e ouve, de eleger uma notícia ou excerto de textos, de se fixar numa entrevista ou crónica, e proceder a uma, chamar-se-á livremente, revisão crítica, emprestando a sua visão e pensamento para, no final, melhor potenciar e rentabilizar a leitura.
Dos últimos dias, fixa-se uma importante entrevista do arquitecto Gonçalo Byrne, hoje presidente da ordem dos arquitectos, dada ao jornal Expresso. Importante não só pelo profissional relevante que é, como também pelo cargo institucional que ocupa e, sobretudo, pelo pensamento crítico e denso – independentemente do acordo ou desacordo com as suas posições e ideias – que revela.

Da mesma, ficam alguns apontamentos (da exclusiva responsabilidade de quem escreve, não do entrevistado):

1. A importância do erro como factor de desenvolvimento e aprendizagem, não sendo o mesmo erro um anátema, mas uma oportunidade de se fazer melhor e crescer. O erro deve ser valorizado no sentido perspéctico do futuro e da sua superação, não como herança inultrapassável e omnipresente. Por isso, é fundamental fazer perguntas. E, mais ainda, saber fazer perguntas. Porque, na verdade, são estas que nos levam à procura e à descoberta das respostas… Não por acaso que, com a leitura da entrevista se recordo a expressão mais repetida por Sobrinho Simões, ilustre cientista e cidadão português, a inúmeras perguntas: “não sei”…
Claro está que o erro marca e deixa rasto e, no caso, no território, é inevitável o seu carácter irreversível sem outra intervenção / acção, porventura, de maior dimensão e profundidade. Razão teria quem disse que o “arquitecto é um fazedor de problemas. E trabalha para resolver esses problemas…”

2. A distinção, e a importância de tal, de cultura, mercado, discussão pública e mercado. E, dentro desta realidade, importante diferenciar o que é encomenda e a definição do que se pretende do acto de projectar e, depois, de construir. Mais importante ainda, não confundir e sobrepor reflexão colectiva sobre uma determinada intervenção (em que se incorpora os contributos individuais para a construção de uma síntese comum) e “crítica gratuita e desgarrada” de sentido construtivo, gerando, muitas vezes, o chamado “ruído”. Polémica é, tantas vezes, a mistura destas duas realidades. Não é (como deveria ser) divergência de pensamento e dialéctica útil. É falta ou fraca comunicação e diálogo.

Tal acontece porque, muitas vezes, é convicção, tudo se mistura no mesmo objecto, tudo se dilui no chamado produto final que, regra geral, é “discutido” quando “pronto e acabado”. Perceber a importância de bem definir as premissas e o “porquê” da intervenção, o “para quê” e em função “de quê” é indispensável porque tal é que, verdadeiramente, merece e deve ser “discutido” colectivamente. Afinal, serão estas premissas que alimentarão o projecto feito resposta às perguntas emanadas pela “encomenda” (e quantas vezes culpabilizamos o projecto por “erros e omissões” que resultam muito mais de uma “encomenda incompleta e omissa” do que da sua incompetência e incapacidade.
Acresce que projecto é produção de cultura, mas só com a obra, com o usufruto e utilização, apropriação e sensorização é a que atingimos a arquitectura…

Por isso, há que distinguir cultura e mercado, possuindo ambos lugares neste “mundo por nós habitado”, mas seguramente lugares distintos e merecedores de leitura e atenção específicas.
Muitas mais questões e situações poderíamos transportar para reflexão desta entrevista. E de outros escritos encontrados e lidos. Mas falta espaço e tempo. Fica a certeza de que o tempo não acaba e de que a esperança inerente a utopia mencionada palavras atrás se confirma, na sua impossibilidade final, mas também na bondade do seu caminho. O próximo texto será oportunidade de continuar…

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

14 Abril 2021

Óleo +

13 Abril 2021

Kramer contra Kramer

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho