Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Gabriela

O Estado da União

Conta o Leitor

2014-07-22 às 06h00

Escritor

Susana Miranda

Olá! Eu consigo ver-vos! Eu sei que estão aí, ansiosos para me ver, para me pegar ao colo, talvez até para me dar a mão, eu sei…
Mas, o que é certo, é que eu até gosto de estar aqui. Sinto-me segura, protegida e vivo sem sobressaltos, enquanto vou crescendo dia após dia…
Já olho para os meus deditos e rio-me, com estas unhas tão pequeninas, tão pequeninas que vocês nem imaginam…
Tenho mesmo, não estou a brincar! E consigo rir, chorar, dormir e dar uns chutos na barriga da minha mãe…

Ouço as vossas conversas e a maior parte das pessoas pergunta por mim! A minha mãe responde sempre dizendo que eu estou bem, que sou sossegada e que está ansiosa pelo momento da minha chegada.

Eu gosto da minha mãe! Ela não me conhece ainda, mas eu já a conheço bem… e sei que é linda! Também só podia ser, afinal, é a minha mãe! Durante os últimos tempos, quase duzentos e sessenta dias, ela olhou por mim. Deu-me de comer todos os dias, sentiu-me a crescer dentro dela, fez festinhas na barriga para me acalmar, enfim... esteve sempre comigo! A verdade é que me farto de rir quando a vejo olhar-se ao espelho, a pôr-se de lado, de frente, de costas, nua e feliz por estar barriguda e grande. Até fotografias ela tira, cheia de orgulho! Eu rio-me, porque sei que ela bem tenta mas não consegue ver-me, embora vá dizendo para dentro que eu devo ser tão bonita como ela! Treta! Eu sou bem mais bonita… mas isso, só eu é que sei! É surpresa!

E o meu pai? Oh, até tenho pena dele… Sempre atarantado, sem saber o que fazer, passa o tempo a olhar para a minha mãe, preocupado com ela e comigo, suspenso por um espirro que ela dê ou qualquer desejo que tenha, e com o ouvido colado à barriga dela. Tanto esforço para ver se me ouve…
Será que ninguém lhe disse que eu ainda não falo?
E os meus avós?
A minha madrinha?

Fartam-se, desesperam-se à minha espera! Eu consigo ver-vos a todos! E sei que em cada mulher grávida me vêm a mim, que param em cada lojinha de roupa de bebé a tentar perceber o que me fica bem, o que eu vou gostar de vestir, se é branco, amarelo ou rosa… fatinhos, camisolinhas, babetes, fraldas, chuchas, sapatinhos… sapatinhos?
Só de pensar nisso, já me dá vontade de rir! Quando vocês virem o tamanho do meu pezinho vão perceber porque me rio…

Eles não sabem mas eu já vi que tenho um quartinho lindo, todo cor-de-rosa e só para mim! O meu pai e o meu avô andam a preparar este espaço só para mim e a minha mãe até borboletas pendurou no candeeiro para eu ficar a admirar... Sim, porque eu nunca tinha visto borboletas! Mas gostei do carinho dela...e ao vê-la sorrir sozinha, com uma lagriminha teimosa no olho já a imaginar se eu vou gostar ou não, fico feliz! Ela não sabe, mas eu sei que vou ser tratada como uma princesa! Por ela, pelo papá, pelos avós, pela madrinha, por toda a gente! Afinal, sou a primeira filha, neta, afilhada da família... e assim, quem não seria tratada como uma princesa?

De qualquer forma, eu estou quase a chegar e vão ter todo o tempo do mundo para me conhecerem e para me apresentarem ao mundo. Com um bocado de azar vosso, até são capazes de se encherem de mim, de me acharem uma chata ou uma chorona, faminta ou mal disposta. Mas não sou! Também tenho o direito de fazer birras, ou não?
Também tenho o direito de não gostar de ter fome, frio ou o rabo sujo, não tenho?
Também tenho o direito de não querer dormir, enquanto vocês se divertem, riem, falam, comem e bebem e falam de mim, não tenho?

Ou quando se põem com chorinhos e lágrimas ao verem as minhas primeiras fotografias… Bah, daí eu dizer que tenham paciência, já falta pouco! E depois vou querer muito colinho, preparem-se!!
A médica disse à minha mamã que devo nascer lá para meados de Fevereiro. Já imaginaram se é do dia dos namorados? No dia 14? Só de pensar no que vai na cabeça da minha mamã, com aquelas histórias todas de ser namoradeira, com o meu papá a fazer aqueles filmes de rapazes malandros e atrevidos, ah, ah, ah... Imaginam?

De qualquer forma, eu ouço-os rezar baixinho para que eu seja boa menina, que me porte bem, que não lhes dê muitas preocupações... enfim! É óbvio que vou ser! Já sou! Até porque eu adoro a minha família! Eles tratam-me bem, mesmo sem me conhecerem, e eu sei que vão cuidar muito bem de mim...
E com esta conversa toda, não me apresentei…
Olá! Eu sou a Gabriela…

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