Correio do Minho

Braga, quinta-feira

- +

Ganhar pelos dois

Fernando Silva, o tocador de sinos de Tibães

Ideias

2017-05-30 às 06h00

João Marques João Marques

Começo já por avisar todos, de forma clara, que aqui não reside um braguista dos quatro costados. Apesar de nascido e criado em Braga, faço parte daquele grupo de adeptos fascinados pelos “3 grandes” que, nos últimos anos, tem sido estranhamente violentado por comentários e práticas menos dignas de alguns fanáticos de ocasião, que se dedicam a enxovalhar e a tentar impedir os festejos de adeptos de outros clubes nas ruas desta augusta cidade.

Percebo e compreendo a ânsia de demonstrar um apego ao clube da terra que limpe do cadastro, sem sombra de dúvida, afinidades clubísticas do passado, mais viradas para sul, mas perdoem-me a franqueza, sou benfiquista e, salvo ensandecimentos imponderáveis, assim continuarei até aos meus últimos dias. Isto não quer dizer que não goste do S.C.Braga, o clube da minha terra, que não respeite, e muito, o seu percurso e as conquistas que já alcançou, em especial na última década. Também vibro com os jogos do Braga, também festejo os seus golos, sem que tal signifique hipocrisia de circunstância ou falsidade de ocasião. Tal como na premiada canção da Eurovisão, consigo, felizmente, “amar pelos dois”.

Admito que o Benfica é o meu primeiro clube, o tal que quero ver vencer em todas as ocasiões, ainda que, por vezes, essas vitórias tenham um sabor agridoce, como acontece quando surgem à custa do S.C. Braga. Tudo isto para dizer que, como bracarense, olhei com interesse para o processo eleitoral do clube da cidade. Mesmo que não quisesse fazê-lo, a quantidade e dimensão dos outdoors, colocados por todo o lado, tornavam impossível passar ao lado destas eleições. E é como bracarense que me declaro muito agradado não só com o resultado, como com a “campanha” que o precedeu.

Não me recordo de ter assistido, em clubes desportivos, a uma divulgação de ideias e confronto de propostas tão francas e verdadeiramente alternativas. Foram semanas de intensa campanha, com pessoas de vários quadrantes políticos, sociais e desportivos a “atravessarem-se” por dois homens, dois projetos e duas visões distintas para o futuro do clube.

Como não sou associado, não me cabe pronunciar sobre a valia dessas propostas, mas sempre me considero suficientemente “braguista” para dar uma opinião minimamente consciente sobre os resultados. E, nessa matéria, julgo que os associados foram sábios na escolha feita. Não gosto da velha máxima que diz que não se deve “trocar o certo pelo incerto” e, apesar de ser certa a inexperiência do candidato da lista B, esse não terá sido o argumento decisivo para a vitória do atual presidente. Julgo que o fator crítico que pesou na vitória de António Salvador está relacionado com a combinação de dois fatores: gratidão e resultados.

A gratidão pelos resultados é de indesmentível justiça, sem descurar o facto de a última época não ter sido brilhante. Não preciso, sequer, de perder muito tempo a explicá-la: Taça de Portugal, Taça da Liga, Final da Liga Europa, vice-campeão nacional (só para falar no futebol profissional). O S.C. Braga foi elevado à condição indiscutível de quarto grande de Portugal e isso deve-se a António Salvador. No domínio da gestão, as contas da SAD mantêm-se equilibradas, as vendas de jogadores têm resultado, na maior parte das épocas, em superavit e o futuro do clube está a ser planeado com a grandeza que se espera de uma dos maiores instituições do desporto nacional. A academia será, certamente, mais do que um trunfo eleitoral, um marco histórico na capacidade de criação de talentos, captação de receitas e, acima de tudo, de gerar sucessos desportivos.

Já o resultado da gratidão foi justamente a expressiva vitória de Salvador. Eleitoralmente, o presidente do S.C. Braga sai muito reforçado deste pleito. Uma maioria absolutíssima garante-lhe a confiança dos braguistas para seguir o rumo traçado, legitima as opções tomadas e “desculpa” os erros de casting que se conhecem.

Esta vitória não foi, contudo, uma carta-branca para consagrar uma monarquia absolutista no clube da cidade. Há um terço de braguistas que defendem e seguramente continuarão a defender mudanças operacionais e estratégicas substantivas e esse contributo é igualmente importante na construção de uma associação democrática, viva e dinâmica. Sendo tempo da lista B assumir, como assumiu, por inteiro, a derrota eleitoral, fica, como legado, um trabalho empenhado de agitação cívica e mobilização dos associados.

Em jeito de balanço, sempre direi que, de um certo modo, o processo eleitoral permitiu a Salvador (o António, não o Sobral) “ganhar pelos dois”, por ele e por António Peixoto. Por ele, junto dos associados. Por Pli, junto dos bracarenses. Foi precisamente António Salvador quem gerou e consolidou esta difícil dualidade: democraticamente incontestado, mas incontestavelmente democrático - e, também por isso, está de parabéns.

Até por aqui se vê como os tempos de mudança chegaram a Braga. O clube e a SAD não são uma coutada deste ou daquele, nem marionetas de interesses políticos dinossáuricos. O S.C. Braga é, hoje, uma instituição livre e democrática. Se por mais não fosse, isso bastaria para merecer, de todos, braguistas e bracarenses, a mais sincera admiração!

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

27 Fevereiro 2020

Sete recados capitais

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.