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Garantir a tolerância combatendo a intolerância

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Garantir a tolerância combatendo a intolerância

Ideias

2019-04-01 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

Chegámos ao século XXI cheios de expectativas na democracia liberal, um modelo político, económico e social que privilegia a liberdade de cada um na sua singularidade, assumindo com desassombro que o poder deliberatório das maiorias não pode ser utilizado para esmagar as minorias. Isto significa que, num país de maioria católica, a observação dos preceitos religiosos próprios do catolicismo não pode ser imposta aos demais dado que a liberdade das minorias religiosas está protegida pelo nosso modelo constitucional.
A crise dos mercados financeiros de 2008 mergulhou o mundo ocidental numa crise de dimensões até então desconhecidas para toda a gerção do pós-Segunda Guerra. Sem emprego, sem dinheiro ou sem vidas que sejam mais do que viagens intermináveis entre casa e trabalho, as classes médias operárias puseram em causa o liberalismo, depositando as suas esperanças nas falsas promessas do nacionalismo identitário. Em tempos de incerteza, estarmos juntos daqueles com quem nos identificamos funciona como um aparente antídoto para o medo.

Isso explica, em parte, a ascensão de Trump ou Bolsonaro e o equívoco do Brexit. O problema é que, como nos demonstrou com trágica clareza a história do século XX, o nacionalismo pode serenar os medos internos de cada um mas não produz qualquer resposta útil nem para os desafios da modernidade nem para os problemas quotidianos das pessoas. Pelo contrário, sob a égide da exaltação do que é identitariamente comum, destrói-se a liberdade e a singularidade de cada individíduo, esmaga-se a criatividade geradora de riqueza e fomenta-se a pobreza e a desigualdade social.
A crise económica, por um lado, e a facilidade de difundir mensagens falsas nas redes sociais, por outro, criaram condições para o ressurgimento de ideologias nacionalistas, moralistas e conservadoras baseadas no ódio. Tomemos como exemplo, as questões de género e orientação sexual.

Na mesma semana em que soubemos que o Brunei irá condenar os homossexuais à morte por apredejamento, há em Portugal quem não tenha vergonha de se indignar porque uma marca de roupa para crianças promoveu uma coleção unissexo. Partilhamos o nosso dia a dia com pessoas que acreditam que uma menina acaba homossexual se vestir um casaco azul e um rapaz se apaixona por outros rapazes quando veste uma camisola amarela. Percebem o absurdo disto?
Mas a surpresa não fica por aqui: há uns dias um deputado do PSD manifestou-se publicamente contra atividades de promoção da igualdade sexual e dos direitos humanos nas escolas. Entende o deputado que não se pode dizer às crianças e adolescentes que homens e mulheres são mais parecidos do que parece, que existem diferentes orientações sexuais e que esta diversidade é normal e deve ser respeitada. Saliente-se que a indignação não proveio de nenhum dos pais dos jovens que participaram nas atividades de promoção dos Direitos Humanos mas tão-somente de um deputado que tem uma agenda política que visa impor a sua própria perspetiva aos demais, promovendo uma cultura de intolerância e de não-aceitação do outro.

É absurdo, parece impossível de acreditar, mas estes movimentos de ódio nacionalista, moralista e conservador não manifestam qualquer empatia ou compaixão pelas pessoas que são diariamente assassinadas em todo o mundo por causa da sua orientação sexual. Não se importam com os jovens das nossas escolas que são diariamente vítimas de bullying por terem uma orientação sexual minoritária. Não querem saber da dor que sentem as suas famílias quando percebem a discriminação a que os seus filhos são sujeitos sem qualquer iniciativa das escolas para os proteger. Dizem-se cristãos, mas não conseguem sair da mundividência fútil de quem vê depravação num rapaz que se veste de amarelo ou numa menina que se veste de azul.

Ao mesmo tempo que promovem discursos de ódio e intolerância, dizem-se vítimas das terríveis consequências de uma sociedade que felizmente não se revê nesses preceitos. Inventaram a narrativa do “politicamente correto” para se vitimizarem e se sentirem ofendidos quando alguém denuncia a boçalidade do que escrevem. Ao contrário da intolerância das suas posições, quem acredita na democracia liberal lida muito bem com a diferença. É por isso que aceitamos sem qualquer problema que haja uma senhora do CDS que defenda publicamente o seu papel subalterno no casamento para dar espaço ao desenvolvimento da carreira do marido; ou que haja um deputado do PSD que questiona a existência de atividades de promoção da igualdade e dos direitos humanos nas escolas; ou que haja pessoas que não queiram as suas filhas vestidas de azul e os seus filhos vestidos de amarelo. Aceitamos tudo isso sem qualquer problema.

O que não aceitamos, porque não podemos aceitar, é que estes movimentos de ódio nacionalista, moralista e conservador queiram impor a sua perspetiva aos demais, queiram limitar a liberdade dos outros e queiram obrigar toda a sociedade a viver de acordo com os seus preceitos políticos, filosóficos e religiosos. O que não aceitamos é que limitem o nosso direito à indignação quando vemos um movimento do CDS promover a subalternização da mulher, um deputado do PSD combater a promoção da igualdade, do respeito e da tolerância ou um dirigente do CDS proferir insultos homofóbicos contra uma deputada.
O futuro é feito do respeito por todas/os. Por muito que lhes custe, a marcha do progresso e do humanismo é imparável. Mas não tenhamos ilusões: se não lutarmos quotidianamente por esse futuro de respeito e tolerância humanistas seremos engolidos pelo ódio nacionalista, moralista e conservador destes grupos. 

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