Correio do Minho

Braga,

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Gaspar e o Síndrome de Cassandra

O abandono e o adulto difícil

Ideias

2013-03-25 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Dois países que têm sido referenciados de forma persistente, nos últimos dois anos, são Portugal e a Grécia, fruto das semelhanças entre os dois. O motivo é óbvio: a crise económica e social que os assola.

Devido ao tema que nos têm marcado nos últimos dias, associado às constantes e quase permanentes previsões erradas que inundam o nosso país, vou recordar aqui um episódio grego, que atravessou várias gerações, e se mantém vivo na actualidade.

Cassandra era filha de Príamo, Rei de Tróia e de Hécuba. Era uma mulher cuja beleza impressionou o deus Apolo, que a pediu em casamento. Apaixonado por Cassandra, Apolo concedeu-lhe o dom de prever os acontecimentos que marcariam a civilização no futuro.

Apolo não imaginaria é que a bela Cassandra, na véspera, iria arrepender-se de casar, decisão que irritou o imponente deus Apolo. Sentindo-se humilhado, até porque considerava que aquilo que dizia não voltava atrás, e que também por isso o dom concedido a Cassandra já não poderia ser retirado, Apolo decidiu manter o dom de Cassandra prever os acontecimentos, mas colocou uma condição: a de que ninguém iria acreditar nas suas previsões. Dessa forma, tudo o que Cassandra previa, teria a desconfiança e o descrédito dos seus destinatários. Foi assim que Apolo se vingou!

Desde então, algumas áreas associam-se a estes acontecimentos que envolveram Cassandra, nomeadamente a Psicologia, que considera o “Síndrome de Cassandra” um distúrbio que leva a formular sistematicamente as previsões sobre o futuro, indicando uma “tendência psicológica que muitas vezes denota a depressão maníaca pelo paciente”.

Perante este episódio, “somos chamados” a associá-lo à situação que Portugal vive na actualidade, fruto das constantes previsões que o ministro VG tem professado. Esta figura, que apareceu publicamente aos portugueses há cerca de dois anos, e de quem foi criada uma imagem de pessoa ponderada, metódica, organizada, infalível, calmíssima, muito associada ao “salvador da pátria” que muitos pensavam que ainda existia, tem falhado redondamente em todas as previsões que efectuou, desde que assumiu o lugar que ocupa actualmente.

Não quero sequer perder tempo com os números errados apresentados pela figura referida e que afectam a nossa economia e a nossa sociedade. Interessa mais analisar as consequências que essas previsões sistematicamente falhadas têm causado no país. E são assustadoras:

- Das 2. 202.509 crianças (dos 0 aos 18 anos) que existem em Portugal, mais de meio milhão (577 865 - 28,6%) encontram-se em risco de pobreza ou exclusão social. A sucção económica/financeira, que VG efectua aos portugueses, nada tem a ver com isto?

- Em Portugal, existem 35 524 famílias numerosas (com três ou mais crianças) em risco de pobreza. São 19% de famílias que sofrem. A sucção económica/financeira que VG efectua aos portugueses, nada tem a ver com isto?

- No primeiro semestre de 2011 houve um aumento de 28,5% de roubos a ourivesarias em Portugal. A sucção económica/financeira, que VG efectua aos portugueses, nada tem a ver com isto?

- Nos últimos dois anos suicidam-se em Portugal cerca de 3 pessoas por dia. De igual forma, verificou-se um aumento de 27% no número de tentativas de suicídio em Portugal. A sucção económica/financeira, que VG efectua aos portugueses, nada tem a ver com isto?

- O número de casas que os portugueses entregaram aos bancos, em 2012, por recuperação de créditos, aumentou 67%. Não é difícil imaginar o trauma que causa nas famílias envolvidas! A sucção económica/financeira, que VG efectua aos portugueses, nada tem a ver com isto?

- Existem em Portugal, actualmente, 923 mil desempregados, (40 % dos nossos jovens não têm emprego). Segundo as previsões de VG, este ano surgirão mais cerca de 100 mil desempregados, número que continuará a crescer em 2014. A sucção económica/financeira, que VG efectua aos portugueses, nada tem a ver com isto?

- Em 2012 continuou a saga da emigração portuguesa. Só na Ilha de S. Bartolomeu (Caraíbas), dos 8 mil habitantes, mais de mil são jovens qualificados portugueses da nossa região (Barcelos, Braga e Famalicão). Da mesma forma aumentam os portugueses que decidem pedir a naturalização nos países que os acolhe. Estes portugueses, que trocam o seu país por outro, nada dizem a VG, porque a sucção económica/financeira que impôs aos portugueses é, segundo o próprio, infalível;

- Foram 23,2% os alunos que abandonaram em 2011 a escola em Portugal, sendo este o terceiro pior registo entre os Estados-membros da União Europeia. Mas que interessa este abandono para VG? Não se trata de uma pessoa infalível?

- Dois em cada três idosos que estão em lares não têm possibilidades financeiras para os pagar e recorrem à família para que os ajude nessas despesas. A sucção económica/financeira, que VG efectua aos portugueses, nada tem a ver com isto?

Tal como o episódio que envolveu Cassandra, VG aproveita o medo das pessoas e insiste, de forma bem serena, vincada e “infalível”, no drama apocalíptico das suas profecias económicas, desacreditando um país, destruindo uma sociedade e hipotecando uma geração.
Uma geração perdida, a troco de medidas… falíveis!

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