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Geraldo Henriques

Orçamento de Estado de 2021 é um orçamento de continuidade?

Conta o Leitor

2020-07-04 às 06h00

Escritor Escritor

Por José Cruz


Mais nome que cabeça, mais empáfia que carteira, mais manias que modos, mais doutrina de aviário que cultura – eis um retracto do G. H. Sortido a despeito do qual dele se pode dizer que é uma boa alma.
Geraldo Henriques não atirava raízes para o tempo dos fundadores, mas queria acreditar que sim – melhor, pretendia que terceiros o cressem –, e não lhe faltavam episódios na história pátria para imaginar um avô caído em desgraça, banido do solo natal, confiscado de honrarias e haveres, de tudo, menos de um orgulho ancestral legado por morgadio, como meia dúzia de arengas de cripto-judeus.
Em momentos de exaltação, dava-se G. H. a imaginar em que instante abortivo da História o timão da Fortuna houvesse desandado em desfavor dos seus: logo no evento primeiro, por partido que avoengo tivesse feito com Teresa, contra o Filho? Possivelmente mais tarde, porque houvesse ficado com Afonso IV contra Pedro e Inês? Ou com os de Castela contra o Mestre de Aviz? Quiçá com os Távoras ou os Jesuítas, contra o Marquês e o Senhor Dom José I? História que conhecia em detalhe, como se a tivesse vivido, como se de berço lha contassem à deita, por gesta familiar, ou entre colheres de sopa de urtigas lha impingissem, por encantamento, e esta lhe dizia só para o picar.

Dou de barato que o G. H. acredite que seja português num sentido genuíno, perene, anterior a formalismos de registo civil, tanto que a cartolina oficial com número, careta e gatafunho, se lhe afigure uma imposição espúria, um cilício confrangedor, mais do que legítima coroa nobilitadora. Tão patriota é, que não há ano em que eu não lhe ofereça um estandarte nacional por prenda. E que apertado lhe sai o abraço!
Por surpresa, tinha pensado, a malta, fazer uma quete com o fito de se comprar um anel com o escudo nacional, um de oiro de lei andando encalhado no OLX, por valor inferior à amizade que lhe tínhamos. Em resumo: boa compra, excelente lembrança. Enfim, era um presente com rasteira, já que questão fazia, o Geraldo, de se apresentar como monárquico, essencialmente da boca para fora, porque nunca o triangulamos com ninguém que o fosse, podendo dar-se o caso que na nossa urbe e termo nenhum haja. Salvo o Geraldo.

Jóia comprada e há meses que não lhe pomos olho em cima! Quem o estranha, em estação de confinamentos, de precárias retraídas, e logo ele que foge para o mágico. Assinalo que somos amigos de tertúlia espontânea, não de quem se visite, e deveras reservado é o G. H. quanto a contactos, reserva extensiva a plena dissociação das redes sociais. Amigos somos, por conseguinte, de um copo na Tasca do Zé da Esquina, embrulhado com amendoins salgados, uma patanisca ou outra tapa do dia, e portuguesices exaradas em papel azul de vinte e cinco linhas.

Aqui chegados, nenhum de nós quer pensar o pior. Dele esperamos saber, para afastar sentimento malsão, para que a festa lhe façamos, e porque pendurados ficamos de um mistério.
Com tanta glorificação do sangue, natural era que o G. H. fosse um bocadinho racista. Lá está, nunca ao ponto de deixar passar uma esfregadela com uma preta, se mais pujante fosse a moça do que branca com ela alinhada, como aqueles reconhecimentos das séries policiais. Façanha jamais relatada, mas bem que lhe tomamos o pulso a olho pinchão, à passagem de chocolatinho bamboleante, e um suspiro esmaecente de vergonhas. O que quero dizer é que o racismo do G. H. será mais para encher paredes. Exagera, o homem, cai no grotesco com assiduidade, mas isso a propósito de tudo.

Pois contava, no aludido dia, que uma transformação nele se operava, a ponto de, ao deitar, não saber com que cara acordaria. Simplificando, que tanto lhe acontecia saudar o novo dia com as feições que deus lhe deu, como com fuças de negro ou de asiático, do mais retinto em cada um dos casos, de lábios bojudos e narinas dilatadas, ou tão redondinho, de olhos tão em bico, que o mundo lhe parecia oblíquo no seu todo.
Galga fora das marcas ou metamorfose kafkiana, e nós sem vontade para «sim senhores». Maluco contrariado tem genica para tarde e serão. Ainda bem que vivo sozinho, diz, dirigindo-se a mim, estás a ver o susto que não seria, deitar-se uma mulher com um branco e acordar com o piçudo de um inharro? Ou de um alloz flito, comentei, tirando e mantendo seriedade.

E ele que se desfaz em gesta de que nem metade alembro. Que lhe parecia ter a ver, o fenómeno, com as críticas e acusações justíssimas que fazia a quem nos tomava de assalto, tendo encontrado boa mamadeira num Portugal pedinchão, numa república sem rei nem roque, numa pátria a saque, de pernas abertas. E os brasileiros!? E os indianos, ou paquistaneses, ou lá que raio são! Não tarda, estamos nem apaches, trancados em reservas, num cu de judas.

Será a consciência a vir-te em socorro, mas tu dá-lhes, Jerónimo, pontuei. Mas diz-me, e também funciona com árabes e mouraria? Com russos e comunaria? É que te oiço a achincalhar uns e outros, com a cerimónia pautada de um croupier de blackjack. Olha que não sei, responde-me, não tem calhado. E depois, como é que a coisa se desenreda, questionei-o. Ai, bota para horas, às vezes, é uma aflição que nem contada.
Ó Geraldo, sabes que há quem diga que nos puxa para criticarmos nos outros, aquilo que em nós não queremos ver? Escuso de assinalar que o homem quase sufocou de quantos palavrões me atirou às ventas. «Ora se tu não estás a chamar-me, a chamar-me…». Tão indignado estava que nem a frase conseguia terminar. Para cúmulo, com tantos ajudantes à missa, não faltava quem lhe recordasse a homofobia, as facas afiadas que atirava a mulheres muito amigas, fressureiras, no seu impressivo vocabulário. Já te vejo de cabacinhas abaixo do pescoço, dizia um, para mim és a estriar, acrescia outro. E o homem fulo de todo.

E é neste pé que estamos: ninguém acredita que força malévola tenha operado uma transformação estética no nosso G. H. O que, a ser verdade, só nos engrandeceria, que não haveria canal de escândalos que não nos acampasse à porta. Era a fama! Em resumo: ou covidou, ou desgraçou-se. Mal por mal, que seja o bicho.

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