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Globalização e coronavírus

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Globalização e coronavírus

Ideias

2020-03-13 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Há quinze dias, escrevia aqui neste Jornal que o coronavírus podia ser descrito usando a alegoria de Nassim Taleb (2007) sobre os cisnes negros : acontecimentos improváveis, imprevisíveis, com um impacto enorme, e para o quais se procuram, e oferecem, explicações alternativas no sentido de os tornar menos aleatórios.
A evolução da recente crise continua a manifestar um sério agravamento. 118 países, com cerca de 125.000 casos, e conforme sublinha a Organização Mundial de Saúde quando declarou a pandemia, o número de países afetados quase triplicou, e o número de doentes fora da China aumentou quase 13 vezes.

O mundo é certamente uma aldeia global. Em 2004, 1.994 milhões de pessoas voavam por ano. Esse número tem vindo a aumentar de forma clara até mais de 4.500 de pessoas em 2019. Estimava-se que em 2020 o número de passageiros transportados por avião fosse 137% mais elevado que em 2004. O número de cruzeiros tem vindo a crescer também de forma significativa, e se tivermos em conta a multiplicidade de blogues sobre viagens, por todo o mundo se multiplicam aventuras de jovens e menos jovens por regiões pouco exploradas e por ambientes exóticos. Um mundo em constante mudança, cada vez mais interligado, e por onde vírus novos vão descobrindo nichos e sendo transportados de forma global.

Tudo isto facilita obviamente a circulação de doenças infeciosas. Globalização é exatamente a crescente interdependência da economia mundial, das culturas, das populações, resultante de um crescente comércio internacional de bens e de serviços, de tecnologias, de informações e de investimento. Como tudo na vida, sempre, tem aspetos positivos e gera efeitos negativos também, tem ganhadores e tem perdedores. Mas é o mundo e que vivemos e pelo que conhecemos da história, o protecionismo exagerado cria outros problemas.
No que respeita ao coronavírus, o epicentro por estes dias já não é a China, mas a Europa.

As notícias que nos chegam da Itália, da zona mais rica do país, com um sistema de saúde excelente, de referência mesmo, são alarmantes. A Itália tem hoje já mais de 10.000 casos confirmados, com mais de 600 mortes, e estes dados refletem apenas os efeitos diretos do vírus. Na verdade, hospitais completamente tomados, digamos assim, por centenas de casos de Covid 19, pela exigência de colocar ventiladores a muitos doentes com pneumonias gravíssimas, obrigam constantemente a tomadas de decisão difíceis: quem vai deixar de ser tratado, seja qual for a doença. Porque não tenhamos dúvidas algumas: nunca vai existir equipamento suficiente para fazer face a uma situação imprevisível e improvável. Sejam ventiladores, quartos absolutamente preparados para isolamento total individual, ou outros quaisquer que sejam. Porque todos os meios seguramente existem para fazer face às necessidades expectáveis, e só isso faz sentido e tem racionalidade do ponto de vista económico.

Reconhecendo a gravidade da situação, em Itália, 62 milhões de pessoas devem ficar agora em casa, só podendo sair por razões de necessidade maior, medidas de contenção drásticas para evitar que a situação que se vive em Milão se generalize no resto do país.
Em Portugal, oscilamos sempre entre um otimismo descuidado e a discussão exagerada sobre medidas a tomar. Todos temos opiniões sobre tudo, o que acaba por dificultar a tomada de decisões porque quem as toma procura obter o máximo de apoios. Assim sendo, vamos com dificuldade reconhecendo um crescimento exponencial no número de pessoas infetadas com o Covid 19, e portanto temendo tomar decisões draconianas para conter o alastramento. Nestes casos de guerra – porque na verdade é disso que se trata – é necessário que haja uma chefia, e que as ordens sejam seguidas e cumpridas. Ora também não gostamos muito de seguir ordens: que é necessário evitar o distanciamento, cumprir normas de cuidados óbvios para evitar a contaminação, etc. Qual! As praias, ontem, estavam cheias de pessoas, alegres e felizes no sol inesperado.

O Covid 19 trouxe uma crise. Não vale a pena fingir ou olhar para o lado. Uma crise que terá impactos sérios a nível pessoal e económico global. O impacto financeiro é já claro nas quedas contínuas nas bolsas mundiais. A disrupção económica confirma-se nas cadeias de valor mundiais.
É necessário que cada um de nós contribua para a diminuição da taxa de crescimento da doença. Não é apenas necessário – é obrigatório.
Neste mundo globalizado em que vivemos, somos por definição, interdependentes.

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