Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Gostos não se discutem

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Conta o Leitor

2018-07-01 às 06h00

Escritor

Autor: Ana Maria Monteiro

Abre a porta do roupeiro pela enésima vez. E volta a fechar. Está nisto há bem uns dez minutos.
Miguel, normalmente, não sente a menor hesitação quanto ao que vestir. Abre o armário e tira a primeira coisa que lhe vem à mão. Até porque tudo fica bem com tudo, só veste azul, cinzento e preto, nunca há problema.
Mas hoje não é um dia normal. E hoje há problema.
Ele e Marisa vão finalmente dar o grande passo.
“Que grande passo?”, interrogar-se-ão vocês.
Algo que deseja ardentemente – deseja e teme.
Andam nisto há três meses. Começou online, com interesses comuns, vieram as conversas, descobriram-se as afinidades e o “namoro” pegou.
E tem sido intenso. Horas e horas a fio em frente ao ecrã e a trocar mensagens.
Ele no Porto e ela em Braga.
Parece que se conhecem desde sempre.
Pois. Parece. Parece mas não é. Só hoje que irão enfim encontrar-se frente a frente e olhar-se olhos nos olhos.
Finalmente decide-se por um polo azul-escuro, calças de ganga e ténis, claro.
Sai de casa nervoso, ansioso, expectante e, até, um pouco receoso.
Nem lhe ocorre que ela também se deve sentir mais ou menos como ele. Afinal ambos vão sujeitar-se ao escrutínio do outro.
Antes de sair ainda olha para o espelho. Sente-se sem graça, mas acredita que nada poderá fazer para ficar mais atraente, por isso, respira fundo e sai.
Que fome!
Claro que é dos nervos, mas não deixa de ser fome.
Acabou de almoçar mas sente-se como se não comesse há três dias.
O encontro vai ser às 7h, ela não pode mais cedo por causa dum trabalho da faculdade.
Vão encontrar-se num sítio chamado “Ervas Mágicas”.
- “Fica mesmo junto à estação.”, disse-lhe ela, “basta perguntares que dizem-te logo”.
E a barriga a dar horas.
“Ainda há tempo”, pensa, e entra num snack-bar.
Tinha pensado comer qualquer coisa, mas a visão de um bife com batatas fritas deixa-o ainda mais esfaimado e pede um para si também, com ovo estrelado e salada. E pão, claro. E uma cerveja.
A comida está deliciosa. Nunca um bife lhe soube tão bem.
Sai e dirige-se à estação.
O comboio sai daqui a pouco mais de trinta minutos.
E na estação abriu um café novo, com bom aspecto.
“Até comia mais qualquer coisita.”
Pensou comer um pastel de nata e um café, mas os olhos caem-lhe numa sandes de presunto na vitrina e não resiste.
No comboio pensa em Marisa e no local em que vão encontrar-se. “Ervas mágicas”, pensa, “o nome é sugestivo. Será?”
Ele gosta de fumar um charro de vez em quando e, na circunstância, acredita que pode ser uma excelente ajuda – para ambos.
“Se calhar ela pensou nisso. Embora em Braga… enfim, há-de haver lá mais que padres e igrejas.”
A distância é curta mas a viagem parece eternizar-se. Quando após dezenas de estações o comboio chega a Braga, Miguel até já está calmo, de tanto que desesperou.
Na estação escolhe cuidadosamente a quem indagar sobre o local. “Ervas mágicas”, não dá para perguntar a qualquer um. Acaba por decidir-se por um jovem de aspecto normalíssimo como o seu, que lhe indica o caminho. É realmente próximo.
Está de novo numa pilha de nervos.
Ao aproximar-se apercebe-se com surpresa de que se trata de um restaurante.
“Bem, sem problema. A fome não passa mesmo e uma francesinha vem mesmo a calhar”.
Já dentro do restaurante e ainda antes de ver Marisa, que já lá está, apercebe-se do cheiro, um cheiro estranho a que não está habituado. Depois repara nos pratos, toda a comida tem um aspecto indefinível e multicolor.
“Que raio!”
Marisa. Finalmente.
Ele aproxima-se. Ela levanta-se.
Cumprimentam-se com dois beijos e começam a rir nervosamente.
Ela explica-lhe que estão num restaurante vegan, que não come carne. Perante o espanto dele, desfia toda a sua imensa teoria sobre o assunto: saúde alimentar, a questão moral e ambiental.
O empregado trás a lista.
A conversa continua. Não é bem uma conversa, antes um monólogo, Marisa apercebeu-se da sua relutância quanto a este assunto e está decidida a “evangelizá-lo.
Miguel escuta-a, o encanto anterior definitivamente morto.
O empregado regressa.
-“Querem pedir?”
Marisa pede várias coisas de que nunca ouviu falar.
- “E o senhor?
- “É uma sopa e a conta por favor.”

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