Correio do Minho

Braga, quinta-feira

- +

Greta e o clima

Viagem a Viena

Greta e o clima

Ideias

2019-12-06 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Um dia destes, a minha neta, que tem 10 anos, discutia acaloradamente um dos temas em destaque atualmente. De forma viva, produzia e reproduzia argumentos, até que a dada altura, confrontada por alguém com a inadequação entre a sua idade e a complexidade do tema em causa, respondeu verdadeiramente escandalizada: ” Eu tenho direito a ter as minhas opiniões e a defendê-las!”, acrescentava” Estamos num país livre, e onde as crianças também podem ter as suas opiniões”.

Claro que sim, podem e devem ser agentes ativos dos processos de mudança, capazes de acumular conhecimento baseado em ciência, capazes de o disseminar e aplicar, alargando as fronteiras da inovação. No contexto atual tecnológico atual, com o rapidíssimo progresso tecnológico eventualmente redefinindo o futuro por formas que ainda não conseguimos prever, a capacidade analítica e crítica será cada vez mais fundamental, a par de uma maior facilidade para definir e implementar estratégias de intervenção liderando e motivando as pessoas. Confesso que me impressiona negativamente ver tanta vez jovens não procurando qualquer tipo de informação rigorosa, substituída pelo recurso fácil, rápido, a mensagens curtas ou opiniões meramente provocatórias nas redes sociais, sem envolvimento social ou cívico.

Por estas semanas, multiplicaram-se os ataques e as interpretações maldosas a uma jovem sueca, que aos 15 anos, conseguiu gerar à escala mundial um movimento de sensibilização para o potencial impacto das alterações climáticas. Greta, quase uma criança, aportou esta semana a Lisboa, e tinha à sua espera um batalhão internacional de jornalistas, muitos ativistas e uma representação oficial de autoridades portuguesas. Em Setembro deste ano interveio na Assembleia Geral das Nações Unidas, onde criticou de fora aguerrida os políticos mundiais por fazerem pouco para assegurar um futuro sustentável e, esta sexta feira, chegará a Madrid para participar na Conferência da ONU ; dizem que tem cerca de 14 milhões de seguidores on- line com contas no Instagram, no Facebook e no Twitter. Um pouco como na década de sessenta, em que os jovens se levantaram, em termos globais, contra a guerra, contra a violência, contra a ditadura, por mais e melhores condições de vida e de aprendizagem, os jovens ativistas atuais envolvem-se na discussão da qualidade do meio ambiente, das alterações climáticas e de temas relacionados.

Os ataques à jovem Greta dispararam dos mais diversos quadrantes. Que é doente, que é agressiva e mesmo malcriada, que anda a perder tempo formativo importante , que os pais a estão a explorar, que George Soros a está a explorar, que Bill Gates a está a explorar para conseguir a “redução populacional global”, que deveria calar-se e deixar que os cientistas tomassem a liderança do debate, enfim milhentos argumentos, na generalidade fácilmente desmontáveis. Contra uma jovem adolescente!

Não sou ativista do impacto das alterações climáticas; alguns dados são objetivos e inquestionáveis. O crescimento económico moderno, propiciado, em parte, pelo comércio internacional, tem tido consequências ambientais. Desde a Revolução Industrial que as temperaturas médias têm vindo a subir, em grande medida devido às emissões de dióxido de carbono e outros gases para a atmosfera, que alteraram a concentração de gases de estufa na atmosfera e as condições de cobertura de superfície. Vamo-nos habituando – se é que se pode dizer isto - a histórias cada vez mais frequentes de anomalias e cataclismos extremos, incêndios catastróficos, extensas inundações ou secas longas, tempestades e furações. A acidez das águas oceânicas superficiais aumentou em cerca de 30%, segundo dados da NASA (2019), colocando em perigo a vida marinha. As mudanças no clima contribuem para o acumular de doenças e para a alteração das condições de vida selvagem, para mudanças no uso dos solos e na produtividade das culturas, de forma mais genérica para o comprometimento de infraestruturas, migrações e problemas de segurança, entre outros problemas que eventualmente poderão afetar a vida económica, social, cultural e ambiental. Em 2015, um relatório publicado pela OCDE sobre a avaliação global quantitativa dos custos da inação na mudança climática, estima um impacto crescente no PIB mundial anual , que se poderão vir a traduzir em perdas na ordem dos 4,4% por 2060.

Em termos globais, a discussão sobre a “economia verde” no contexto global, tornou-se cada vez mais relevante. De acordo com o 2018 Global Green Economy Index, elaborado pela Knoema Corporation, as economias mundiais têm vindo a fazer progressos significativos apoiando investimentos e políticas capazes de sustentar a transição para a designada “economia verde”. Com base em quatro dimensões (liderança e mudança climática, eficiência, mercados e investimento e ambiente), a Alemanha apresenta a posição mais destacada no que se refere ao índice global, seguida pelo Japão, China, Estados Unidos e Índia. A relação entre mudanças climáticas e fenómenos de mau tempo extremo, em termos globais, e a repercussão na economia integram de modo crescente o debate sobre políticas nacionais e empresariais do ponto de vista estratégico, e faz sentido que assim seja.
Pode ser que estas questões ambientais não sejam tão relevantes como parecem, e que haja um certo alarmismo na sua discussão. Até pode ser que sim. Mas – e se não for esse o caso? Deveremos esperar, para ver e pagar o preço de nada se ter feito? Ou , em vez disso, discutir estratégias que não pondo em causa o mundo em que vivemos, possam ser relativamente eficazes na prepara na minimização dos riscos? A resposta é obvia, claro.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho