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Água

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Água

Escreve quem sabe

2021-06-04 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Ainda bebo água da torneira. Um privilégio em terra de montanha, longe da nuvem da poeira. Olho para ela como sobrevivência. Não tem outra palavra. Em mim, é uma espécie de barómetro que faz questão de me lembrar que estou perante a mais primária de todas as necessidades.
A água não tem preço. Sem ela, não há ninguém que estenda o tempo. Remexo-me por dentro quando leio, com selo UNICEF, que morrem seis mil crianças por dia devido à falta de água potável ou a doenças relacionadas com a qualidade, como cólera, febre tifoide, hepatite A e disenteria. Três mil milhões de pessoas não têm sequer como lavar as mãos em casa. Em África são gastos 40 mil milhões de horas de trabalho em transporte de água. As Nações Unidas publicaram um relatório onde dá conta que a água foi causa determinante de conflitos violentos em pelo menos 45 países. Só na região do Mediterrâneo, a água vai faltar a 250 milhões de pessoas.
Num planeta coberto a 70% por água, há muito que o “ouro azul” revela manchas. Basta saber que o consumo está a crescer duas vezes mais depressa do que a população mundial e que só uma ínfima parte é potável. É só fazer contas.
António Guterres, atual secretário-geral da ONU, tem na agenda, até 2030, o acesso generalizado a água limpa e a saneamento básico. Todavia, as coisas não estão a correr bem. O antigo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) já confessou que este objetivo «está fora dos carris». O drama é de tal ordem que as Nações Unidas estimam que, durante esta década, 700 milhões de pessoas possam vir a ser obrigadas a migrar devi-do à falta de água. Os argumentos saem do recente relatório do Desenvolvimento Mundial da Água das Nações Unidas (WWDR). A dado momento pode ler-se que, em todo o mundo, 2,2 mil milhões de pessoas (29% da população mundial) não tem acesso a serviços de água potável segura, 3 mil milhões (40%) sem possibilidade para lavar as mãos com água e sabão e 4,2 mil milhões (55%) sem saneamento. Nesta linha dramática, estima-se que, em 2050, 5,7 mil milhões irão habitar em áreas com escassez de água pelo menos um mês por ano devido ao aumento da população, ao crescente consumo de água, ao aumento da produção e aos efeitos, cada vez mais extremos, das alterações climáticas. Segundo dados da ONU, o abastecimento de água e o saneamento resilientes às alterações climáticas podem salvar a vida a mais de 360 mil crianças todos os anos.
Portugal não escapa a este quadro negro que não consegue colocar garrote ao aumento do consumo da água em 1% por ano desde a década de 80. Fazemos parte dos países europeus que povoam a linha vermelha. Apresentamos carências em grande parte do território. Um estudo recente da Gulbenkian – “O uso da água em Portugal: olhar, compreender e atuar com os protagonistas-chave” – conclui que enfrentamos sérios riscos de escassez até 2040. O espelho está no setor agrícola, responsável por 75% do total de água utilizada, um número que contrasta com a média da União Europeia (24%) e chega a ser superior à média mundial (69%). A grande maioria dos agricultores ainda não mede a água que gasta (71% não tem sequer contador), na maioria retirada de furos, charcas, poços e outras estruturas privadas. Por outras palavras, o custo não arde no bolso, daí que 85% dos agricultores não tenham nenhuma exigência de poupança ou eficiência em relação à água que gastam. Na urbe, em média, 30% da água municipal perde-se devido a fugas nas canalizações. Em alguns municípios chega quase a 80%.
Aqui a estatística morde. Há muitos números que ferem. Deixo mais alguns: 1,5 milhões de crianças com menos de cinco anos morrem todos os anos de doenças relacionadas com a diarreia; a escassez de água já afeta quatro em cada 10 pessoas; 90% de todos os desastres naturais estão relacionados com a água e 1,8 mil milhões de pessoas em todo o planeta bebem água que não está protegida da contaminação das fezes.
A água é um direito humano que obriga a que, cada um, tenha deveres para com ela. Desde logo, o respeito. Este começa no berço. No que se ouve em casa com a palavra do pai e da mãe. O exemplo em fechar a torneira no momento certo. Até num simples lavar de dentes podemos mostrar como se faz. Custa pouco e faz toda a diferença. Podemos ser migalha, mas não podemos ser nada.

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