Correio do Minho

Braga, terça-feira

Há líderes assim

Dar banho às virgens

Ideias

2013-06-30 às 06h00

Carlos Pires

Na semana em que Portugal viveu mais uma grande manifestação do seu povo muitos foram, novamente, os gritos de desânimo que se fizeram ouvir, dos quais destaco o repto: “ não queremos substituir o Passos Coelho pelo Jerónimo de Sousa, não precisamos de líderes!”.
Ao mesmo tempo o mundo vivia, com comoção, as notícias que chegavam da África do Sul relativas ao estado de saúde, crítico, de Nelson Mandela. Prefiro acreditar que “Madiba” - assim é conhecido no seu país - festejará no próximo dia 18 de Julho o seu 95º aniversário, o dia que a ONU instituiu o Dia Internacional Nelson Mandela, como forma de apelar à transformação do mundo num lugar melhor, rejeitando assim qualquer discurso de despedida.

A história de Mandela é uma lição. Para a vida. Para a política. Para os homens. A sua contribuição para o mundo - 67 anos da sua vida, 27 deles passados na cadeia - radica na sua liderança conciliadora e pacificadora. Que devemos aprender com o seu legado?

1. AÇÃO - Ainda jovem estudante de Direito, Mandela envolveu-se na oposição ao regime do apartheid, que negava aos negros direitos políticos, sociais e económicos. O caminho percorrido foi doloroso. Nada lhe foi dado “de bandeja”. Sejam então os nossos políticos capazes de defender os princípios pelos quais deverão desejar viver, evitando construir “carreiras políticas” alicerçadas no facilitismo das “jotas” e dos compadrios.

2. INTERESSE COLETIVO - Clint Eastwood no filme “Invictus“ retrata o momento em que François Piennar, capitão da seleção sul africana de Rugby, na véspera da final do Campeonato do Mundo de 1995, questiona: “como é possível passar quase trinta anos numa prisão e sair pronto a perdoar aqueles o puseram lá dentro?”.
Mandela passou décadas preso e, quando um dia lhe devolveram a liberdade física, não se revelou um ressentido, um homem com vontade de ajustar contas com os seus inimigos; antes pelo contrário, perdoou décadas de humilhações e procurou a reconciliação, com os valores da igualdade, liberdade, justiça, mostrando que é mais o que nos une do que o que nos separa. E foi por isso que a paz foi possível na África do Sul.
É um exemplo político de prossecução do interesse da coletividade acima de qualquer interesse pessoal. Infelizmente uma atuação tão rara no seio da nossa classe política, tantas vezes responsável por delapidar o erário público ou por perpetuar falsas promessas eleitorais.

3. CREDIBILIDADE - Mandela foi eleito, em 1994, o primeiro presidente negro da África do sul. Renunciou ao poder após cinco anos de governação, passando a dedicar-se, de forma incansável, a desenvolver atividades que visam minimizar o sofrimento das vitimas de HIV/SIDA - uma atitude rara no contexto político atual, claramente contaminado pelo vírus da obsessão pelo poder. Veja-se o que se está a passar, no nosso país, com alguns dos dinossauros do poder autarca (vg. Fernando Seara, Luís Filipe Menezes), que insistem em recandidatar-se aos cargos, contra o espírito da lei, contra as decisões dos tribunais.

4. HUMILDADE - Mandela é provavelmente a pessoa mais consensual à face da Terra. Contudo é prova viva de grande humildade, que confirma a sua santidade no conceito por ele próprio teorizado: “um santo não passa de um pecador que simplesmente não desiste de tentar melhorar”. Ao invés, no meio da confusão em que se tornou o mundo nos dias de hoje, surpreende-me a arrogância dos políticos, que insistem em modelos (v.g. austeridade) que se revelam desajustados, tudo porque não têm a humildade de reconhecerem que erraram ou que as instituições que construímos (vg Estado Social) precisam de ser repensadas.

5. COERÊNCIA - A força de Mandela nasce justamente da coerência entre o seu discurso, os seus atos e os seus valores. Infelizmente, nestes tempos de crise em que vivemos, não abundam políticos com a grandeza moral e política de Mandela. Assim, quando os governantes exigem esforços financeiros aos cidadãos, não terão eles próprios que dar o exemplo? Não será mais eficaz que mil discursos?

6. ESPERANÇA - Mandela é um símbolo de luta e de esperança. Inspirou muitos a lutarem pelo que acreditavam, pela liberdade. E tudo isso com um sorriso estampado no rosto. Ele sabia que na vida das pessoas o sorriso do líder pode mudar tudo para sempre. 
Dirão, um dia, que morreu. Errado! O seu nome será imortal nas nossas memórias porque a sua obra atingiu dimensões que o tempo jamais apagará.
No momento em que Portugal vive momentos de grande crise - económica e de valores - o exemplo de Nelson Mandela faz-me pensar que não tivemos nem temos um grande 'Madiba' para nos guiar. Mas também me faz acreditar que é possível mudar.

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