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Há uma vida para viver

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Há uma vida para viver

Ideias

2020-04-27 às 06h00

Carlos Pires Carlos Pires

Esta é a minha 150ª crónica, neste espaço de reflexão do Correio do Minho, colaboração que há já alguns anos iniciei, pela mão da melhor mestre – a Professora Doutora Felisbela Lopes. Um bem-haja pois para esta minha boa amiga, extensivo a toda a equipa do jornal, incluindo direção e redação. Se há coisa que os tempos que vivemos nos ensinam, diariamente, é que sem órgãos de informação tudo seria bastante pior. Sem notícias, sem a coragem de muitos jornalistas, responsáveis por relatarem o que se passa noutras regiões do mundo, por alertarem para as situações que se vivem nos hospitais, nos lares, etc, acreditem que estaríamos muito pior. Enquanto houver uma voz que ecoe, de forma independente, certamente teremos a materialização da democracia naquilo que é a sua base: a atuação e responsabilização do poder político em prol do bem comum. Para a comunicação social, que, fruto da estagnação económica e consequente perda de receitas com publicidade, vive um dos seus piores momentos, aqui fica este singelo reconhecimento. Porque precisamos dela.

Escrevo esta crónica na tarde do domingo pós comemoração do 25 de Abril, e em “countdown” para a data prevista para o termo do estado de emergência – o próximo dia 2 de maio. Relativamente àquela primeira efeméride, julgo que mais importante do que todos os discursos, incluindo o de Marcelo, foi o exemplo que nos foi dado: as coisas têm que continuar, há datas que devem continuar a ser comemoradas pelo significado que encerram, mas de forma diferente, adaptadas às circunstâncias dos tempos que vivemos. De resto, os novos capitais de abril são os profissionais de saúde, que diariamente lutam pela vida de todos nós.

Infelizmente não sabemos para quando uma vacina ou um fármaco totalmente eficaz. Então, que fazer? Continuarmos em isolamento “sine die”? Sabendo que, com o continuar do tempo, ou acabaremos por endoudecer - porque, tal como já ensinava Aristóteles, o homem é um ser eminentemente social, sendo esse convívio social indispensável ao seu equilíbrio e saúde mental – ou a sociedade civilizacional, tal como a conhecemos hoje, colapsa, porque sem economia não existe nem consegue cumprir os seus fins mais básicos, como a saúde, a justiça ou a educação.
A esta hora estará o caro leitor a questionar-se: estará este individuo louco? A dar-nos “trampa”, como o outro que fez a apologia à ingestão de desinfetantes? Não, estimado leitor, acredite que eu tento manter alguma sanidade mental e por isso aquilo que estou a dizer-lhe não é que saia de casa, sem regras ou limitações. Não!

Senão vejamos: este mês e meio de isolamento foi absolutamente necessário, desde logo porque permitiu ao sistema nacional de saúde ajustar-se às solicitações, evitando um número de mortes catastrófico. Durante esse tempo a comunidade científica obteve avanços no tortuoso caminho do conhecimento do vírus. E para nós todos constituiu tempo de “retiro para formação”: estamos todos mais esclarecidos, quer quanto às (novas) regras elementares de convivência social (v.g. já ninguém estranha formar fila para entrar num determinado estabelecimento comercial, para que um número limitado de pessoas possa circular no seu interior; há cada vez mais pessoas que usam máscara, etc), quer quanto ao que nos espera o futuro próximo.

Sim, no futuro verificar-se-ão surtos de infeções sazonais, algumas das pessoas infetadas terão de ser hospitalizadas e poderão precisar de cuidados intensivos. Haverá uma maioria que recuperará no domicílio e, infelizmente, haverá uma pequena percentagem que não sobreviverá à gravidade dos sintomas do novo coronavírus. Esta é a realidade que veio para ficar e por um bom número de meses.
O vírus entrou na nossa vida e com o tempo vamos deixar de pensar nele, vai adaptar-se a nós e nós a ele, asseguram os investigadores. Com a simples gripe aconteceu o mesmo: não foi derrotada, tomaram-se medidas para se ir vivendo com a pandemia. E o vírus foi perdendo força.

Estejamos atentos às recomendações que as autoridades nos dão: o que hoje se estranha, amanhã entranha-se. É preciso pensar positivamente. Abrir-se-á em breve uma nova fase, uma forma diferente de viver a vida, nas relações pessoais e profissionais. Não tenho dúvidas que o Homem, e a sua capacidade de facilmente se adaptar às circunstâncias, sairá vencedor. Afinal há uma vida para viver e eu continuo, tal como ensinou o poeta, “a ter em mim todos os sonhos do mundo”.


(P.S. Há algo em particular que urge alterar: o direito de nos despedirmos condignamente dos nossos mortos. Só assim seguirá sem trauma a vida dos que permanecem).

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