Correio do Minho

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Hasta la vista!

Tancos: falta saber quase tudo

Ideias

2016-12-05 às 06h00

Carlos Pires

Morreu Fidel Castro. Apesar de se ter afastado há cerca de dez anos da direção do Partido Comunista e do Estado Cubano, que dirigiu por mais de cinquenta anos, Fidel permaneceu como uma referência incontornável, não apenas para o povo de Cuba e da América Latina, mas para todo o mundo. Personagem fascinante, dotado de lucidez, bem como de uma impressionante capacidade de comunicação, construiu ao longo dos tempos um mito associado à sua figura.

Agora que faleceu, e que já podemos considerar como finitos os registos da sua vida, nada obsta a que façamos um breve julgamento da sua vida política, em sequência, de resto, da famosa frase - “a História me absolverá”, que o mesmo usou na sua defesa, depois do assalto ao quartel Moncada em 1952.

O balanço de quase 57 anos de castrismo é complexo. Fidel Castro foi o dirigente máximo da luta do povo cubano contra o regime corrupto de Fulgêncio Batista e pela libertação do seu país do domínio imperial dos EUA. O investimento na saúde e na educação que promoveu são inquestionáveis. Cuba não é um país rico, mas a miséria e a violência social que marcam o quotidiano de tantos países latino-americanos não são realidades com as quais os cubanos se confrontem.

Mas há o outro lado da governação de Fidel: inimigo das liberdades (aboliu os partidos políticos, limitou a liberdade de expressão e de imprensa), apenas ofereceu ao povo uma pobreza resignada. Cuba foi moldada à sua imagem e semelhança, subjugada à sua vontade.
E como conseguiu Fidel perpetuar este estado de coisas? Há nesse seu engenho muito carisma pessoal e uma dose considerável de cegueira de gerações de “sonhadores”, disponíveis para se deixarem seduzir por ditadores.

A História mostra-nos ainda que Fidel tudo fez para se livrar de todos quantos lhe pudessem fazer frente (Che Guevara vaguearia pelo mundo, embaixador da revolução, até ser morto na Bolívia). Se a tudo isto acrescentarmos a capitalização de marketing que resultou da cruzada que encetou contra os grandes e vizinhos EUA, então já poderemos explicar o fascínio que o castrismo teve.

Recordo a viagem que fiz a Cuba, em Março de 2012. Na altura, em crónica que subscrevi neste mesmo espaço de opinião, no “Correio do Minho”, relatei a minha experiência. Ao chegar à capital, Havana, pareceu-me recuar no tempo, mais precisamente até à década de 50. Património da Humanidade, ainda revela traços da cidade esplendorosa que outrora foi, com muitos dos seus edifícios de cores quentes ainda a conservarem a imponência arquitetónica. Contudo em deterioração visível, como se a cidade tivesse saído de uma guerra.

No interior dos edifícios, caindo aos pedaços, famílias inteiras, sobrevivem com escassez de comida, de vestuário, condições de higiene. E de esperança, pareceu-me. Uma situação de “pobreza digna”, ou seja, não chegam a passar fome, mas vivem com pouco mais do que o mínimo. Os baixos salários tornam-se fonte de insatisfação porque impedem um padrão de conforto adequado - o cubano vê o turista estrangeiro gastar cinquenta vezes, num só dia, o que ele, cubano, ganha num único mês. Ou ainda na assustadora realidade, consentida hipocritamente pelo regime, a do turismo sexual - prostitutas frequentam os hotéis a convite e pagas por estrangeiros.

Não tenho dúvidas de que a maioria do povo cubano reclama liberdade e o fim da repressão. É justamente porque o governo não consegue realizar o que dele se espera que reage de dois modos: primeiro, atribui ao inaceitável embargo norte-americano a culpa de todos os problemas internos; segundo, trata o dissidente como um traidor.  Reprimir quem discorda é inaceitável. O ambiente claustrofóbico que a ausência de liberdades criou em Cuba é visível.  A liberdade é um valor fundamental para o bom desempenho da economia e para a felicidade das pessoas. Por seu turno, a democracia representativa obriga ao respeito dos direitos humanos.

Fidel morreu. Mas não morreu um democrata, nem tão pouco um humanista. Morreu um ditador. E que deixou no poder, qual sucessão dinástica, o irmão, Raul. Em jeito de conclusão desta crónica, termino tal como como terminei a crónica que escrevi há 4 anos atrás: ninguém sabe o que pode acontecer após a morte de Fidel, só os anos o dirão... Mas há algo que tenho como certo: Cuba e o povo cubano merecem, certamente, melhor destino do que aquele que o castrismo lhes forneceu até hoje.

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