Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Haverá esperança?

O valor das pessoas (2.ª parte)

Ideias

2011-09-25 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

É difícil passar ao lado do assunto do momento: a crise. Os media agendam este tema a todo o momento. Despedimentos, economia em queda, políticos com falta de ética e de discurso despudorado… Quem tem cargos de gestão debate-se com um problema dedálico: a escassez de recursos, por um lado; a falta de motivação, por outro. Pois bem: mais do que enveredar por registos de queixume, seria necessário redobrar o empenho. Porque tem de haver uma forma de dar a volta a isto.
Por estes dias, a comunidade académica dá as boas-vindas aos novos alunos da Universidade do Minho. São muitos aqueles que chegam. Olhados de longe, poder-se-á dizer que são muito barulhentos, quando enquadrados por exageradas praxes. Pelo meu lado, olhando-os, procuro perscrutar o empenho que arrastam consigo. Esta gente terá garra suficiente para mudar o país que somos? Que marca deixarão nestes anos que vão passar nesta Universidade? Nas minhas aulas digo frequentemente aos meus alunos que, quando saem a porta, têm obrigatoriamente de saber mais do que aquilo que sabiam quando entraram naquela sala. De outro modo, não vale a pena o tempo que aí dispensam. Hoje, como todos percebem, uma licenciatura não significa uma entrada automática no mercado de trabalho. Agora são necessárias competências. Diversificadas. É preciso conhecimento, mas exige-se também motivação, vontade de aprender, disponibilidade para fazer melhor. Mais do que um emprego, seria mais acertado procurar trabalho. Não há muita gente disponível para isso. Para trabalhar.
Nos jornais de ontem, leio manchetes como esta: “Governo vai eliminar 50 mil funcionários” (“Diário de Notícias”). Esta gente que ficará sem emprego terá de reciclar as suas habilitações. Aquilo que sabem não chegará para encontrarem outro modo de sustento. A assimilação desta realidade é dura, mas não há outra forma de encarar a crua realidade. Estamos numa época de mudança de estilos de vida. Não do estilo de vida dos outros. É o nosso estilo de vida que tem de mudar. Temos trabalhar mais por menos dinheiro: esta é uma premissa difícil de aceitar, reconheço. Principalmente se não encontrarmos à nossa volta bons exemplos.
Esta semana, a noticiabilidade da Madeira contribuiu ainda mais para o descrédito da classe política e para o nosso desânimo colectivo. Num país em crise, as dívidas do arquipélago surgem como algo do domínio do inverosímil, mas real. As declarações de Alberto João Jardim acentuam a gravidade de um estado de coisas que deveria ter sido travado há muito tempo. Hoje percebemos que a Madeira não será uma coisa que não nos assiste. Pelo contrário, todo aquele buraco implicará custos que todos os contribuintes portugueses vão pagar.
Olho a Madeira e sinto que urge pôr, de vez, um ponto final aos políticos profissionais. É preciso mandar embora toda esta gente que encontra na política não um trabalho, mas um emprego que não consegue conquistar em mais lado nenhum. É chegado o tempo de eleger pessoas competentes, que tenham uma noção verdadeira do serviço público; que cheguem aos cargos políticos, depois de percorrido um caminho reconhecido noutros campos. As jotas partidárias, se bem que sejam estruturas que contribuam para uma importante formação cívica dos mais jovens, têm este lado perverso: o de criar caciques que apenas reproduzem pessoas peritas em esquemas e incompetentes naquilo que gerem.
Neste contexto, a pergunta irrompe obrigatoriamente: haverá esperança? Seremos capazes de recriar uma economia forte? Encontraremos nos jovens gente empreendedora e com criatividade? Conseguiremos transformar os mais velhos em combatentes invencíveis? Haveremos de atrair para a política os mais competentes? Talvez isso pudesse acontecer num país ideal, diríamos. Acontece que este caminho não é uma opção. É uma via de sentido obrigatório, se não quisermos afundar-nos numa crise mortífera.

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