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Hiperobjetos, Supersujeitos e Mega-epistemologia

Beco sem saída

Ideias

2017-06-23 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Timothy Morton vem argumentando, desde o início da década em curso, que o moderno conceito de “objeto” (e o seu eterno par: “sujeito”) não possui densidade epistémica suficiente para nos permitir a compreensão de fenómenos tão complexos quando desafiantes para o nosso modo de existir, como os de Capitalismo (qua sistema de produção e consumo), aquecimento global ou Antropoceno (a espécie humana a atuar como uma força geológica).

Segundo o filósofo britânico, que tem vindo a tornar-se cada vez mais influente no “mercado de ideias” global, em especial depois de ter publicado Ecology without Nature (2007), considerada já uma obra de referência da chamada “ecologia sombria” (dark ecology), seria melhor designá-los “hiperobjetos”, na medida em que, apesar de nós podermos ter deles experiência (sempre apenas de partes suas, claro), tipicamente com o auxílio de representações (dados científicos), nunca seremos capazes de os conhecer in toto, seja por causa da sua massiva dimensão espacial e temporal (ou, se se preferir, por transcenderem essas coordenadas de um modo específico), seja também por causa de, num sentido não metafórico, estarmos presos dentro deles ou, como prefere o próprio autor, por eles nos trespassarem, metendo-se nas nossas mentes, corpos e conversas.

Ontologicamente, tais objetos não estão na categoria dos de trazer por casa, debaixo do nosso inteiro olhar e à mão, os “meso-objetos” sobre os quais a reflexão filosófica tradicional- mente tem incidido, nem dos “hipo-objetos”, como leptões e hadrões, cuja infimidade e efemeridade, a custo detetadas em sofisticadas aparelhagens tecnológicas operadas por talentosos experimentalistas, nos fazem duvidar da sua existência. E, no entanto, ainda que pela sua escala, porque feitos de relações entre um sem número de coisas distintas, não os vejamos, os hiperobjetos parecem ser bem reais, autónomos e com poderes para retroagirem causalmente sobre os componentes que os fizeram emergir.

Nos ensaios The Ecological Thought (2010) e Hyperobjects: Philosophy and Ecology after the End of the World (2013) Morton analisou detidamente esses cinco traços distintivos dos hiperobjetos: “viscosidade” (colam-se a tudo o que atingem), “liquidez” (pouca consistência espácio-temporal), “não-localidade” (independentes de realizações particulares), “multidimensionalidade” (não confinados às três dimensões que balizam a nossa perceção comum) e “complexidade” (formados por objetos heterogéneos interrelacionados).

Falta, todavia, uma epistemologia adequada para essa ontologia ampliada. Ela terá de ser desenvolvida repensando, pelo menos, três questões. Desde logo, a do sujeito cognitivo. Hiperobjetos necessitarão, porventura, de “supersujeitos” - entidades coletivas plurais, como equipas de investigação, comunidades epistémicas ou colégios (multigeracionais) invisíveis - para serem conhecidos. Isso implica desconstruir essa invenção moderna que é o “sujeito individual” e reinstaurar a primazia do coletivo, conservando, no entanto, as conquistas reflexivas daquele.
Depois, a do acesso a tais hiperobjetos, ou seja, como é que, dada a sua dimensão e escala, podem ser realisticamente representados e eficazmente manipulados.

Por fim, e estreitamente ligada às anteriores, a da própria relação supersujeitos-hiperobjetos que, em termos epistemológicos não pode mais fundar-se sobre os princípios de separação e de funcionamento independente de um e outro. Aguardemos, pois, por essa hipertrófica epistemologia a fazer futuramente.

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