Correio do Minho

Braga, quarta-feira

História de Amor..., de Ana Maria Monteiro

‘Tu decides’ e o AE Maximinos move-se pela cidadania

Conta o Leitor

2010-07-25 às 06h00

Escritor

Daniel era um rapaz em torno de quem as raparigas volteavam como borboletas entontecidas. O caso não era para menos, nem de admirar: filho do homem mais rico lá da terra (embora esse pai tivesse um passado algo obscuro que ninguém questionava por razões óbvias), ele era o “homem perfeito”. Logo a começar, pela vasta herança que lhe calharia, mas como se tal não fosse suficiente, ele era alto, bonito e galante como os actores dos filmes Americanos por quem todas as raparigas lá da terra suspiravam.

Mas Daniel só tinha olhos para Isabel. Aquela menina, a quem todos apontavam a dedo devido à sua forma intempestiva de ser e de estar, fascinava-o e a sua ideia, fixa nela, não o deixava dormir em sossego noite após noite. Mas Daniel tinha por essa altura 28 anos e Isabel apenas 13, e, embora talvez a família dela (pobres, trabalhadores e ignorantes) não se tivesse esquivado a uma aproximação sua, Daniel achava que tinha por obrigação esperá-la e ter esperança em que o seu coração voluntarioso o escolhesse.

Talvez por isso, ou pela sua própria natureza de rapaz sem necessidades nem obrigações, numa terra em que todos o reverenciavam devido à sua posição económica privilegiada, Daniel habituou-se a sair de casa todas as noites procurando nos braços de outras mulheres uma sensação semelhante à que sonhava encontrar se fosse ela a sua companhia. O facto de a realidade ficar sempre muito aquém das suas expectativas não o levava a desistir dessa busca, mas desviava-o para outras actividades igualmente lúdicas que lhe proporcionavam excelentes descargas de adrenalina. E foi assim que se tornou jogador.

Isabel continuava a crescer e mantinha aquele seu jeito selvagem, os ares fogosos e um génio tal que ninguém se atrevia a desafiá-la.

O crescimento, a evolução da adolescência para a juventude e para a idade adulta, são processos extremamente rápidos, de que os próprios raramente se dão conta. Mas, neste caso, ao coração apaixonado de Daniel o tempo parecia desenrolar-se com uma lentidão devastadora.

Contactou então o irmão mais velho que vivia em Lisboa e que nem conhecia, no sentido de saber se o receberia em sua casa. Como a resposta foi positiva e até animada, foi para Lisboa e passou os cinco anos seguintes com aquele homem taciturno que vivia sozinho num ascetismo peculiar que assentava que nem uma luva na sua figura miúda e frágil. O irmão, apesar das grandes diferenças entre ambos, recebeu-o bem, interessou-se por ele e conseguiram viver em bastante harmonia debaixo do mesmo tecto. Criou-se até entre ambos uma aproximação que anteriormente nenhum deles acreditava possível. O irmão, bancário, trabalhador minucioso e homem de convicções católicas e morais bastante arreigadas, cortara muito anos antes com todos os laços que o uniam à família do pai, quando este abandonara a sua mãe para vir a casar-se com uma mulher muito mais nova e de quem viria a ter este outro filho, Daniel, quase vinte anos mais novo do que ele.

Mas as diferenças entre ambos, em lugar de os afastar, aproximaram-nos. Daniel bebeu algum do bom senso do irmão, chegando a abandonar por longos períodos, mas nunca em definitivo, os seus hábitos nocturnos com o jogo e as mulheres fáceis que povoavam as noites e as ruas da capital, e o irmão, que se dedicara a tratar e a sustentar a mãe até à recente morte desta, sentia o vazio deixado pela sua ausência ligeiramente atenuado pela companhia deste irmão mais novo, tão diferente de si e tão apaixonado por essa rapariga de que ele apenas conhecia o nome e a descrição dada por Daniel, cujos olhos apaixonados, descobriam nela beleza e qualidades que nunca lá tinham estado.

Por fim, Daniel decidiu que era tempo de voltar. Isabel já teria então os seus vinte anos e convinha que se despachasse, não fosse outro avançar em seu lugar e ficar-lhe com a mulher dos seus sonhos.

Teve sorte. Muita sorte. Foi tiro e queda.

Casaram menos de seis meses depois do seu regresso, numa união abençoada pela família dela e tolerada com alguma dificuldade pela dele, mas muito mal vista por quase toda a aldeia. Daniel era um partido cobiçado por todas as famílias com filhas casadoiras e Isabel mantinha o seu trato desabrido; e a aparência, antes selvagem, dera lugar a uma voluptuosidade que causava um mal-estar indefinido às mulheres e um bem-estar muito definido aos homens.

Contrariamente ao que diziam as más-línguas, apenas partilharam a mesma cama na noite do casamento. Nunca saberemos se Isabel teria recebido favoravelmente as investidas de Daniel, porque em plena década de quarenta, ele nem ousou tentá-las sobre a sua amada. O que sabemos é que aquela foi uma noite gloriosa para ambos. A vasta experiência que Daniel adquirira com prostitutas, levada à prática com o imenso carinho e devoção que sentia por ela, permitiram-lhe levá-la às alturas; por seu lado, Isabel, embora virgem, não era parva, nem cega, e tinha um talento e uma apetência especiais para toda a espécie de acasalamento.

A vida decorria sem sobressaltos. Daniel não fazia absolutamente nada, era supostamente um proprietário (na prática vivia à custa do pai) e Isabel preguiçava languidamente, de manhã na cama, e à tarde pela casa (o pai de Daniel também sustentava o lar e as criadas que o mantinham limpo e organizado). Adoravam dormir a “sesta”. Aquelas sestas deixavam-nos sempre exaustos mas felizes, e, com o tempo, o intenso rubor que provocavam às criadas, deu lugar a uma série de casamentos mais produtivos lá na terra e a uma nova prole de bebés que trouxe uma esperança renovada àquela aldeia antes bastante envelhecida.

Ao fim de dois anos ainda não tinham filhos e não havia maneira de Isabel engravidar. Claro está que o assunto era comentado à boca pequena um pouco por todo o lado e com o misto de censura, comiseração e satisfação que sempre acompanham as conversas dos invejosos.

Isabel tinha um imenso desgosto superficial por esta ausência de filhos, superficial, porque o seu íntimo adivinhava que a vida após eles, teria talvez outras recompensas, mas certamente não lhe permitiria continuar a ser a 100% aquilo para que sabia que nascera: ser amante. Daniel, esse sim, tinha um desgosto verdadeiramente sincero. Não nos iludamos: se Daniel olhasse para dentro de si, também encontraria essa pequena angústia do pós-filhos, mas ele não o fazia. O subconsciente masculino está bem mais protegido que o feminino e por isso o seu carácter tem normalmente menos cambiantes. Assim, Daniel era infeliz e Isabel apenas se sentia infeliz.

Esta pequena sombra, no entanto, em nada alterava a sua relação ou o amor que os unia; apenas levou a que Daniel procurasse de novo algum conforto diverso, não nos braços de outras mulheres, que isso não queria nem desejava, mas antes de novo na companhia dos antigos amigos para uns serões de jogo com muito álcool à mistura.

As sestas, essas mantinham-se. E as noites de amor, embora começando mais tarde, só raras vezes se viam inviabilizadas pelo excesso de álcool.

Por isso, muitas histórias se contaram, mas nunca se apurou a causa nem a forma da sua morte.

Certo é que, um dia à tarde, depois de pela primeira vez Daniel não ter dormido em casa e de Isabel quase ter enlouquecido a procurá-lo, foi encontrado morto na margem do rio que atravessava a aldeia. As marcas de violência eram tantas e tais que a polícia e o médico da aldeia tiveram grande dificuldade em fazer a vontade do pai e arquivar o processo atribuindo a sua morte a causas naturais. Mas os tempos eram outros e foi o que aconteceu.

É mais fácil imaginar a vida de Isabel a partir desse momento, do que tentar descrever o seu sofrimento. Fiquemo-nos pois pelos factos: a família de Daniel virou-lhe as costas, a sua recebeu-a de novo em casa, mas de muito má vontade. Isabel, claro está, não recebeu qualquer herança, porque o seu abastado marido era apenas um futuro herdeiro e nada tinha de seu a não ser o amor da mulher e um mar de dívidas contraídas ao jogo e que mantivera em segredo até que a morte o calou, mas que logo os seus credores deram a conhecer. Aqui, um pequeno parêntesis: o pai pagou-as todas e embora depois disso tenha deixado se ser um homem rico, conseguiu viver consideravelmente bem o resto dos seus dias. As pessoas da aldeia atribuíram tudo a Isabel, culpando-a por ter arrastado o marido por uma vida de luxúria e devassidão de que qualquer outra mulher teria sabido manter o seu homem afastado. Isabel provavelmente nem se deu conta de nada disto. Tinha passado a viver uma vida de clausura e abandono e entregara-se totalmente ao sofrimento pela perda de Daniel. Esta era a única forma como sabia viver: entregando-se. Primeiro fizera-o à vida e tivera uma infância e uma juventude solitárias mas felizes, depois entregara-se àquele marido que amava desesperadamente e continuara a ser feliz e agora entregava-se à dor de o ter perdido com a mesma plenitude das anteriores entregas mas sem qualquer felicidade.

***

Quando, meses mais tarde, foi comunicado a Jaime que o irmão tinha morrido, Jaime foi ao Alentejo para confrontar o pai com o porquê de não ter sido levada a cabo qualquer diligência com vista a esclarecer as estranhas circunstâncias da morte do irmão.

Jaime tinha por esta altura 59 anos e continuava a viver sozinho na mesma casa antiga de Lisboa onde primeiro acompanhara a mãe e mais tarde partilhara quase cinco anos com aquele irmão que de alguma forma chegara a amar.

O reencontro com o pai foi perfeitamente inútil. Os médicos tinham-lhe diagnosticado uma doença degenerativa do sistema nervoso (hoje em dia chamar-lhe-iam Alzheimer, mas nessa época ainda estavam pouco familiarizados com ela) e que o levava progressivamente a um estado de letargia que o afastava da realidade e de quantos a habitavam. A verdade é que o pobre homem já na casa dos oitenta e também ele destroçado pela perca do filho que o deixara sem descendência e praticamente arruinado, tinha-se recolhido para dentro de si próprio esperando apenas que a morte viesse buscá-lo e deixando que o manto do esquecimento se abatesse sobre toda a sua vida, proporcionando-se dessa forma alguma paz.

Jaime decidiu então procurar a cunhada de quem tanto ouvira o irmão falar e era agora a sua viúva. O estado em que a encontrou não era muito melhor do que o do seu próprio pai. Isabel tinha agora vinte e cinco anos, não era particularmente bonita (e nunca o fora muito) e sofria duma profunda apatia. Além disso, o desprezo e a rejeição da família, em nada ajudavam a que saísse dessa situação.

Jaime condoeu-se da rapariga e com base na velha tradição de casar as viúvas com o irmão do seu defunto marido, propôs-se-lhe como tal. Isabel aceitou. Era-lhe indiferente, naquela altura, o que faria com a sua vida e, perante o entusiasmo com que os pais receberam aquela promessa de genro mais velho que eles próprios, achou que nada poderia ser pior do que continuar a viver com eles.

Tudo foi tratado num relâmpago e Jaime casou com Isabel numa tarde de Outono que não ficou para a história por nenhum outro facto que não esse mesmo. Nesse mesmo dia regressaram a Lisboa e nunca mais voltaram ao Alentejo.

No espaço de 2 anos, Isabel deu à luz dois belos rapazes, que vieram mais tarde a tornar-se tão bonitos quanto o fora o seu próprio tio. Ao mais velho deram o nome de José e ao mais novo, o de Pedro.

Isabel foi lentamente renascendo para a vida, mas nunca conseguiu chegar a ser mais do que amiga do seu segundo marido; talvez tenha sentido por ele algum amor, mas de outra espécie. Por algumas vezes cumpriu, fora de casa, a sua vocação de ser amante, mas, não encontrando nela as alegrias de outrora, fácil e rapidamente se conformou em viver apenas para o marido e os filhos.

Já de Jaime não se pode dizer o mesmo, a verdade é que encontrou desta forma uma felicidade que o arrebatava e que nunca tinha sequer pensado em procurar. Foi um marido dedicado e um pai extremoso que se orgulhava dos seus filhos e da mulher para além de qualquer limite.

Conseguiu morrer de amor aos 98 anos, poucos dias depois da morte de Isabel, vítima de cancro e que ele acompanhou em cada segundo na sua lenta agonia.

Não sabemos se terá ido para o Céu por ter levado uma vida sem mácula em que foi sempre e apenas uma boa pessoa ou se pelo contrário terá ido parar ao Inferno por durante quase quarenta anos incluir nas sua orações diárias um agradecimento sincero pela prematura morte do irmão mais novo, deixando-o como beneficiário de Isabel, a sua única riqueza.

José e Pedro, já adultos, choraram a morte de ambos os pais num tão curto espaço de tempo. Mas a história deles é outra.

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