Correio do Minho

Braga, segunda-feira

História de um Governo desgovernado

Como sonhar um negócio

Ideias Políticas

2012-02-21 às 06h00

Pedro Sousa

Passaram-se oito meses desde a tomada de posse do actual Governo.
Sou daqueles que sempre que se inicia um novo ciclo de governação, acredita, genuinamente, que se abre uma nova oportunidade, um novo horizonte.
Confesso que com o actual Governo as coisas não aconteceram exactamente assim.

A matriz ideológica e sociológica de Passos Coelho é diametralmente oposta à minha. Passos Coelho acredita cegamente que o mercado se auto regula (é triste a incapacidade de não aprender com a lição da crise de 2008 que ainda hoje perdura), que as empresas são a única parte importante na criação e valorização do emprego, que o Estado não deve estar presente na economia, na saúde e em tantas outras áreas em que a acção do Estado é decisiva para a construção de um país assente num ideário de inclusão, justiça e coesão social.

Todos se lembram, certamente, das promessas de não cortar subsídios (ideia considerada um disparate por Pedro Passos Coelho), de ter uma agenda para o crescimento económico que acompanhasse as políticas de austeridade, de despartidarizar o aparelho do Estado (olhando, apenas, à competência como critério de escolha), introduzindo-lhe caracteres de transparência que tanta falta lhe fazem.
Estas eram boas ideias, sadias, inteligentes, necessárias mas, infelizmente, sempre me pareceram apenas medidas que pretenderam pintar Passos Coelho com uma dimensão humanista que manifestamente não tem.

Nestes oito meses, como se o me-morando da Troika não fosse, já de si, difícil para os portugueses, o Governo acrescentou cortes, tesoura-das e outros golpes em tudo o que podia. Cortou nos direitos dos trabalhadores, cortou nos subsídios, cortou nos feriados (aí cortou na nossa identidade, na nossa história, no nosso património cultural), cortou na saúde, quer cortar nas freguesias e tem cortado a torto e a direito, naquele que é, sem sombra de dúvidas, o grande motor de transformação de um país, a Educação.

Mais grave tem sido a vergonhosa insensibilidade e duplicidade de comportamento que, em tão curto período de tempo, tem revelado perante a situação de um país cada vez mais desigual e refém de um novo ciclo de clientelismo político, que desde a primeira hora procurou, apenas por conveniência, desmentir.

Partilho com Passos Coelho, a necessidade de mais transparência na vida pública e, por isso, hoje sinto-me defraudado por ter acreditado, ainda que por um tempo muito curto, que essa bandeira, tantas vezes agitada durante a campanha eleitoral, nunca foi um verdadeiro desiderato.

Nas palavras de alguns comentadores políticos, muitos deles da área política do Governo, é hoje assumido com muita frontalidade que o dito projecto de transparência foi sacrificado, sem vergonha, à conve-niência do clientelismo dos partidos que formam a actual maioria.
A este respeito citar um pequeno parágrafo de Vicente Jorge Silva: “Agora, o que prevalece é hipocrisia beatífica, falinhas mansas, camuflagem untuosa, desprezo pelos sacrifícios exigidos aos cidadãos sem meios para se defenderem da arbitrariedade do Estado”.
Não poderia estar mais de acordo.

Quando pretendem fazer crer que os chineses escolheram Catroga pelo seu valor de mercado (provavelmente um José Mourinho nas questões energéticas) e o restante cabaz pelas suas inatacáveis competências como consultores de Energia pensam que estão a enganar?

Triste, ainda, perceber que a nova lei orgânica do Ministério das Finanças foi cuidadosamente redigida de forma cuidadosa, no sentido de evitar eventuais cortes de salários no Banco de Portugal. Tais actos, vergonhosos, escabrosos até, constituem um verdadeiro desrespeito pelos milhões de portugueses que, todos os dias, enfrentam uma dura batalha para levarem em frente as suas vidas.

Oito meses depois, o País está, sem sombra de dúvidas, pior do que estava aquando do início da actual legislatura. Com mais desemprego, com mais recessão, com mais desigualdades, menos para aqueles, claro, que, entretanto, receberam o prémio da fidelidade política, viram crescer o seu pecúlio e são generosamente protegidos das agruras da crise.

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