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Criado... não aceita mau destino

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Ideias

2020-03-30 às 06h00

Carlos Pires Carlos Pires

Dias difíceis estes que estamos a passar. Dias que representam algo que nunca pensamos viver; algo que em tudo se assemelha a uma guerra: reclusão, doença, morte, medos e anseios.
Confesso-vos que, desde finais de Dezembro do ano transato, há precisamente 3 meses, a altura em que tudo iniciou, na província de Whuan - China, receei seriamente que aquele cenário se replicasse por todo o mundo. Aqueles que comigo privam podem testemunha-lo. Não me considero especial mago, mas as imagens e reportagens que passavam nos meios de comunicação social revelavam algo verdadeiramente assustador, diferente de outras epidemias deste século XXI (SARS, em 2002-2003, gripe A em 2009, etc).
Contudo, o mundo ocidental, cego, continuava a proclamar:
- Não há problema, está na China, é longe, não é connosco…
A era atual, de crescente globalização, com contínuas deslocações de pessoas em todo o mundo, incluindo o facto de cidadãos chineses poderem ter continuado a viajar por todo o mundo, sem restrições, só poderia prever o pior. Por isso não me admirei que, passado pouco mais de 1 mês e meio, a Itália detetasse o primeiro paciente infetado com Covid-19, um turista oriundo da China.
Admirei-me sim com a inação que, não obstante, todos os Estados votaram ao tema. Admirei-me sim com o facto de, perante um alastramento dos casos de infeção no norte de Itália e da clara impossibilidade demonstrada pelas autoridades italianas em conter o vírus, quase todos os países, incluindo Portugal, tivessem mantido as pontes aéreas para aquele território, durante pelo menos mais duas semanas. E pronto. Aqui está o resultado: Espanha, França, Inglaterra, EUA, entre outros, com recordes de números de pessoas infetadas. Os sistemas de saúde a demonstrarem não saberem lidar com este problema, por ser desconhecido e para o qual não existem terapêuticas especificas, e também pelo elevado numero de doentes que faz colapsar hospitais, sem meios físicos e humanos suficientes. Um número de mortes que não para de crescer, com imagens que nos comovem. As empresas sem atividade. A economia em derrocada.
Não, nem nos meus pensamentos mais pessimistas eu imaginei algo assim.
Hoje, o meu país – que já conta, nesta tarde de domingo em que escrevo a presente crónica, com 120 morte e 6.000 infetados - vive aquilo a que os técnicos chamam a fase de mitigação do vírus, a fase mais perigosa, em que se prevê a multiplicação dos infetados. Sim, não vou dizer que a maioria das pessoas não tenha acatado as instruções de distanciamento social. Mas ainda me admiro por ver uns quantos (muitos!) que teimam em rumar para o Algarve ou que se aglomeram nos parques e passadiços das praias, para gozar dos dias de sol. Tenho pouca paciência para incautos pelo que, perante a gravidade da crise, e o risco que a irresponsabilidade comporta para todos nós, sou da opinião que mais medidas restritivas se impõem. Mais vale pecar por excesso do que lamentar, mais tarde, o que devíamos ter feito.
Hoje, o meu país luta só, com os meios que possui. Esta foi outra das coisas que eu nunca poderia prever: a tal da União Europeia parece não existir. Ou antes: parece ter sido consumida pelo vírus, e definha. Não houve nem há articulação dos Estados no combate à pandemia. Não há entendimento quanto às ajudas financeiras; países como a Holanda e a Alemanha parecem só olhar para o seu “umbigo”. Não há solidariedade. Veja-se a (enorme) Itália, moribunda e abandonada à sua sorte. Não tenhamos ilusões: se nós, cidadãos portugueses e Estado, não nos unirmos na luta contra este ser minúsculo que nos imobiliza e destrói, não teremos futuro, porque ninguém se preocupará connosco.
Hoje vivo ansioso, rodeado de múltiplos cuidados, como se estivesse a “lutar pela sobrevivência”. No meio de muito trabalho, que diariamente produzo, mas sem quaisquer contactos físicos próximos, vivo ainda tempos de angústia e preocupação pelos meus entes próximos mais idosos, os mais frágeis. Hoje desejo como nunca abraçar os meus amigos. Hoje tenho esperança e confio. Confio na perseverança e dedicação dos profissionais de saúde do meu país, no sentido de Estado e de bem comum dos decisores políticos, na responsabilidade cívica dos meus concidadãos. Hoje vivo o presente, em dias que correm velozes. Hoje “vou onde o vento me leva e não me sinto pensar” (Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”). Hoje, você aí, meu leitor, está a viver como eu. Hoje somos todos iguais. Hoje.

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