Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Homem-Estátua

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2013-05-28 às 06h00

Jorge Cruz

“No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise.”
(Alighieri Dante)

A votação ocorrida na reunião ordinária da Câmara Municipal de Braga da passada semana veio demonstrar, uma vez mais, que em momentos cruciais, em circunstâncias decisivas, o líder da oposição municipal denota pouca coragem política, preferindo não se comprometer publicamente.

Percebe-se que ao optar por se abster de tomar posição na questão da colocação da estátua de monsenhor Melo Peixoto, Ricardo Rio somente tentou não se envolver politicamente numa decisão polémica. Intui-se que este curioso procedimento, que aliás não é inédito, terá sido ditado por razões de calculismo político, ou seja, tratou-se de uma opção que visa tentar salvaguardar eventuais perdas eleitorais nas próximas autárquicas.

Mas a questão central não é essa. A pergunta que deve ser colocada é se nos tempos que correm faz algum sentido insistir nesta forma de fazer política e até, em última análise, se esta postura do líder da oposição o resguarda de quaisquer efeitos colaterais na contabilidade eleitoral. Sinceramente, creio que não.

O filósofo chinês Confúcio terá dito que “o silêncio é um amigo que nunca trai” mas essa asserção não pode ser levada à letra, e muito menos ao extremo, quando falamos de intervenção política, como é o caso. Nesta área de actuação, tão vilipendiada, embora as mais das vezes por exclusiva responsabilidade dos próprios actores políticos, exige-se uma postura de clareza, de frontalidade, enfim, de honestidade intelectual, atributos que infelizmente nem sempre fazem parte do ADN dos protagonistas. “O homem superior compreende o que é certo; o homem inferior só compreende o que pretende impingir” é também um pensamento do mesmo autor que terá plena aplicabilidade na situação em apreço.

Felizmente que hoje em dia, quase quatro décadas após a corajosa atitude libertadora de um punhado de jovens militares, a esmagadora maioria do eleitorado sabe distinguir com clareza todas as formas de oportunismo político. É, pois, minha convicção que, no momento próprio, saberá valorizar aqueles que denotam coragem de assumir decisões na hora certa, mesmo que erradas, penalizando os que, por calculismo ou covardia, hesitam na assunção das suas responsabilidades políticas.

Percebo a permanente preocupação dos políticos na gestão cuidada da sua visibilidade. E aqueles que seguem à risca os cânones do marketing político, que respeitam os conselhos dos especialistas em Ciência Política, conhecem a importância de, em função dos seus interesses ou conveniências, gerir adequadamente quer a sua visibilidade quer a invisibilidade.

Sob este ponto de vista, o líder da coligação de direita ‘Juntos por Braga’ sempre demonstrou aptidões para a política: aparece quando lhe dá jeito, pronunciando-se sobre tudo e sobre nada, e procura desaparecer, umas vezes fazendo-se de morto outras experimentando a fórmula de homem-estátua, quando tal é mais conveniente para os seus objectivos.

O problema, como disse, é que o eleitorado já dificilmente aceita as receitas de marketing político, frequentemente preparadas e clonadas a muitos quilómetros de distância e que em regra pouco ou nada têm a ver com as realidades locais. Não se identifica com contorcionistas políticos que votam num sentido e no exterior criticam a decisão colectiva, como sucedeu aquando da entrega da exploração comercial de um quiosque ao Sporting Clube de Braga.

Não creio, finalmente, que aprove a falta de coragem política da coligação PSD/CDS ao abster-se, “por uma questão de princípio”, na votação sobre a estátua. Ao declarar tratar-se de “uma homenagem que não promoveríamos, mas à qual não nos opomos”, Ricardo Rio tentou passar entre os pingos da chuva sem se molhar, isto é, tentou não se comprometer com matéria tão polémica. Por estas e por outras é que alguns movimentos de cidadania ganham força…

Melhor andou, estritamente sob o ponto de vista da coragem política, a maioria socialista ao não se furtar a pronunciar-se com frontalidade sobre o assunto, tanto mais que não ignora que esta é uma matéria controversa no próprio partido e politicamente muito sensível entre o seu eleitorado tradicional. Assim sendo, ninguém ficará surpreendido se o tema ensombrar a próxima campanha eleitoral e se, eventualmente, vier a criar dificuldades acrescidas à candidatura socialista.

Convirá recordar, a propósito, que não são poucas as vozes que lembram que, com a excepção de um pequeno busto ao Dr. Ferreira Salgado, a estatuária em Braga tem-se olvidado de figuras comprometidas com a liberdade e a democracia, como será o caso exemplar do Dr. Francisco Salgado Zenha, insigne democrata bracarense que os socialistas, e não só, recordam com respeito e saudade.

Por outro lado, e no caso concreto da homenagem ao antigo Deão da Sé, a rotunda onde a estátua será implantada foi popularmente baptizada com o nome de Pachancho, como forma de imortalizar a enorme obra do empresário António Peixoto, esse sim merecedor de ser homenageado naquele local.

Entendimento diverso teve a Câmara Municipal de Braga, pelo que a estátua vai mesmo ser implantada num local que nem por isso deixará de ser conhecido por rotunda do Pachancho. Já o poeta e pensador francês Paul Valéry dizia que “a política foi primeiro a arte de impedir as pessoas de se intrometerem naquilo que lhes diz respeito. Em época posterior, acrescentaram-lhe a arte de forçar as pessoas a decidir sobre o que não entendem.” Pelos vistos os seus “olhares sobre o mundo moderno” mantêm plena actualidade.

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