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Braga, quarta-feira

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Homenagem sentida…

O primeiro Homem era português

Conta o Leitor

2021-08-22 às 06h00

Leitor Leitor

Texto Carlos Azevedo

Abro os olhos, ainda meio sonolento olho para a janela e penso:
Ui, isto hoje está mau.
Olho para o relógio para confirmar as horas, e lá estava 7:15h. O tempo lá fora está nublado, cinzento, com algum chuvisco, mais parecia um dia de outono e não um agosto calorento como tem estado. Levanto-me, sentado à beira da cama sinto no meu interior uma angustia e tristeza que me faz refletir o porquê desta sensação. Então veio-me à memória. Faz este mês, neste dia, três anos que o meu irmão partiu, deixando uma saudade eterna. Uma lágrima corre pelo meu rosto, sinto nos lábios o gosto salgado desta amargura.
Meu irmão foi um grande amigo e camarada, nunca nos demos mal. A vida para ele era uma alegria constante, essa alegria era contagiante e vivia-a intensa- mente. Andava sempre bem-disposto, com um sorriso no rosto, mesmo nos momentos mais difíceis da sua doença prolongada.

Foram mais de vinte anos de altos e baixos. Dias de sofrimento que o levaram ao final esperado, mas cedo de mais. Era uma pessoa ativa e dinâmica quando a doença o permitia. Mesmo nos momentos (por vezes prolongados), em que esta o flagelava, mostrava sempre uma disposição de despreocupação.
Após ter cumprido o dever militar na Trafaria, foi-lhe diagnosticado meses depois a doença de Crohn. A doença de Crohn (síndrome ou “mal de Crohn”) é uma doença auto-imune que provoca inflamação do trato digestivo que condiciona o surgimento de úlceras e sangramento. Afeta principalmente o cólon e a última porção do intestino delgado (íleo), mas pode atingir todo o tubo digestivo, desde a boca até ao ânus.
Cedo começou a trabalhar. Já com tenra idade gostava de automóveis, a profissão que escolheu para a vida foi a de chapeiro. Com quinze anos começou a sua vida profissional, além de chapeiro (a sua área de eleição), aprendeu mecânica, e o automóvel deixou de ter segredos para ele. Tinha uma capacidade de aprendizagem fantástica e uma curiosidade que fez dele um profissional no ramo. Durante o cumprimento do serviço militar, esteve nas oficinas do quartel.
O aparecimento da doença, veio-lhe tirar a continuidade da atividade profissional, reformando-se muito jovem.

Durante anos (sete), em que alternava com dias bons e maus, sempre que podia, íamos passear principalmente aos domingos. Gostava de conduzir, era um dos poucos prazeres que o fazia sentir-se livre e feliz. Devo-lhe a ele o conhecimento que tenho do norte e centro e parte do sul do país. Ao fim de sete longos anos de sofrimento e incertezas, o médico aconselhou uma operação de risco.
A operação correu bem, permitiu que o meu irmão nos anos seguintes tivesse uma vida mais ativa, mais autónoma, apesar dos cuidados necessários que a doença o levava a ter. O tempo foi passando, a hiperatividade dele não permitia o ócio. Começou por fazer alguns “biscates” na área automóvel, mas sentia-se muito limitado. Acabou por dedicar-se à manutenção de apartamentos (pequenos arranjos), através de uma empresa imobiliária com gestão de condomínios. O seu profissionalismo era evidente e durante anos foi a sua ocupação. A vida ia correndo da melhor forma, muitas vezes com algumas crises devido à sua doença.

Talvez devido ao seu dinamismo (nunca estava parado), o seu problema de saúde foi-se agravando. Uma nova operação foi necessária, mas desta vez o risco era maior. Nos últimos meses, a inatividade e o sofrimento (a operação não tinha corrido como desejado), levaram-no a uma tristeza que começou a instalar-se no seu espirito. Quase como se sentisse que o seu tempo estava a chegar ao fim. Infelizmente após uma crise que o levou ao hospital, o fim chegou. Não consegui chegar a tempo de me despedir dele. A imagem do seu rosto angustiado, ficou gravado na minha memória. É essa imagem que hoje vejo na minha cabeça e no coração, que me angustia, me enche de tristeza, mas ao mesmo tempo me acalenta para mais um novo dia, pois sei que o meu irmão está, estará para sempre no meu coração.
Rezo uma oração por ele e por mim, para que os nossos espíritos estejam em comunhão.
Um dia nos encontraremos de novo. Recordaremos os bons momentos que vivemos juntos e em família.
Com este relato resumido, homenageio a memória do meu irmão, que nunca será esquecido.

Com muitas saudades.
Obrigado Zé!

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