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Hora de mudanças!

Decisões que marcam

Hora de mudanças!

Ideias

2020-05-19 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

Em consciência, não me incluo no grupo de pessoas que creem que a pandemia que nos tem atingido vai transformar profundamente a natureza humana. E não faço parte desse conjunto de optimistas, não por considerar desnecessária tal metamorfose, que aliás reputo de essencial, mas porque conhecendo como julgo conhecer a espécie humana, me custa a acreditar que a vontade colectiva evolua nesse sentido.
Admito que nada vai ficar como dantes. A normalidade a que nos habituamos, e que de resto tem uma relevante quota-parte de responsabilidade na situação em que nos encontramos, vai seguramente dar lugar a um novo estilo de vida, a uma nova vivência, bastante diferente, dominada por medos até agora inexistentes e – espero – com a consciência de que urge parar para pensar.
Pensar sobre a forma como temos estado a tratar a natureza, como insistimos na exploração dos recursos naturais, agindo como se eles fossem infinitos e, portanto, sem ponderar nem acautelar o seu inevitável esgotamento. Na prática, diria, sem a consciência da insustentabilidade que esta forma de actuação representa.

Claro que pouco pode ser feito se não existir uma efectiva mudança de mentalidades. Todos sabemos da acomodação ao actual estilo de vida. Mas também não podemos ignorar, bem pelo contrário, que essa forma de vida está a conduzir a humanidade para o abismo. Os grandes decisores, aqueles que se encontram nas áreas política ou económica, naturalmente também se adaptaram aos confortos da sociedade actual e vivem focados quase em exclusivo no crescimento económico, pouco ou nada se preocupando com questões ambientais e com os direitos e a dignidade humana.
É certo que nos últimos anos a consciência cívica cresceu consideravelmente, organizando-se em movimentos cívicos que têm desempenhado um papel de relevo na denúncia de muitas das ambições desmedidas de alguns poderes fáctuos. Infelizmente, porém, os sucessivos alertas para a perigosidade que representa a continuidade de muitas das opções não lograram despertar consciências e, assim, não conseguiram anular o percurso em direcção à insustentabilidade da Natureza.

Aqui chegados, a uma situação de crise sanitária como aquela em que nos encontramos desde há meses, será porventura a própria natureza que nos vai obrigar a repensar a nossa forma de vida, que nos vai impor um conjunto de restrições que voluntariamente nunca assumiríamos, enfim, que vai finalmente priorizar conceitos e alterar substancialmente o nosso estilo de vida e a forma como encaramos o futuro.
Temos que libertar-nos de certas atitudes egocêntricas e colocar mais ênfase nas questões que influenciam a comunidade, o que passará, inevitavelmente, por uma maior consciencialização das problemáticas da Natureza e, em particular, pelos temas ambientais.

Os cientistas, que naturalmente serão as vozes mais autorizadas, estão cansados de alertar para os perigos que nos esperam se, atempadamente, não forem adoptadas as medidas correctivas que possam inverter o rumo que tem vindo a ser seguido. A poluição é uma realidade com a qual infelizmente nos habituamos a conviver. As alterações climáticas estão aí, a provocar enormes desastres naturais, com as consequentes perdas de vidas humanas. Mas a verdade é que as catástrofes que se têm registado um pouco por todo o mundo não são uma inevitabilidade. Passarão a ser a normalidade se os hábitos colectivos não forem minimamente alterados, ou seja, se continuarmos a manter uma atitude refractária à mudança necessária.

Esta será, porventura, a última grande ocasião para modificarmos o nosso modelo de desenvolvimento. Agora que a fragilidade do sistema que construímos está a dar de si, entrando em colapso, é chegado o momento de reflectir e avançar para a construção de uma sociedade mais justa, uma sociedade mais sustentável, objectivo que só será alcançado com a adopção de reformas profundas. A começar, desde logo, pela globalização que, embora em si mesma até possa nada ter de mal, tem vindo a ser desenvolvida segundo conceitos neoliberais que a transformam numa fonte de problemas e não de soluções. Ainda há dias Noam Chomsky dizia que, tal como está, a globalização “tem enriquecido os mais ricos” e coloca “um enorme poder nas mãos de corporações e monopólios”, levando a “uma forma muito frágil de economia”. Para o pensador norte-americano, a primeira lição a retirar desta crise pandémica é que “estamos diante de outra falha em massa e colossal da versão neoliberal do capitalismo”. E adverte: “Se não aprendemos isso, a próxima vez que acontecer algo parecido vai ser pior”. Para Chomsky, após o que ocorreu depois da epidemia do SARS, em 2003, “os cientistas sabiam que viriam outras pandemias, provavelmente da variedade do coronavírus”, e teria sido possível tomar medidas “mas não se fez”. No entanto, acrescenta, “as empresas farmacêuticas tinham recursos e são milionárias, mas não o fazem porque os mercados dizem que não há lucros” com esse tipo de actuação preventiva.

As conclusões do filósofo e fundador da linguística contemporânea, também um dos grandes impulsores da Internacional Progressista, são de certa forma corroborada pelos analistas da Goldman Sachs no relatório “A revolução do genoma”, apresentado há dias. Nesse documento dirigido à indústria farmacêutica, e que analisa a rentabilidade económica de curar doenças, a Golman Sachs começa por perguntar se “curar doentes é um modelo de negócio sustentável“, para responder taxativamente: “Não”. Serão precisas mais palavras?

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