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Humanismo tecnológico?

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Humanismo tecnológico?

Ideias

2021-04-03 às 06h00

Pedro Madeira Froufe Pedro Madeira Froufe

Páscoa é tempo de passagem. Numa cosmovisão cristã, significa o “nascimento” de um Homem novo, enfim, um “virar de página”.
Diria que desde há, pelo menos, um ano, vivemos tempos que nos obrigam a fazer ou a pensar fazer, inevitavelmente, Páscoa. Quer queiramos quer não, o contexto pandémico, a consequente crise global ímpar, o confronto com a impotência humana (impotência face à natureza, face à preservação da nossa saúde, impotência científica e económica, individual e coletiva) adicionam-se às mutações que já vínhamos sentido na ordem de vida estabelecida. A globalização e a digitalização revelavam mudanças mais ou menos visíveis no nosso quotidiano. Realçavam uma cada vez mais notória falta de tempo - entenda-se, um crescente imediatismo no modo como vivíamos, consumíamos, pensávamos e mesmo como nos íamos relacionando (cada vez mais, sem tempo). Só que a pandemia tornou, abrupta e gritantemente, mais visíveis, tais sinais de mudança. Grande parte das atividades que, agora, por força das circunstâncias, se “teledesenvolveram”, dificilmente voltarão a ser o que eram, antes de termos experimentado essa dimensão “on line”. Por exemplo, continuaremos a viajar, sobretudo, por razões pessoais, de lazer, de eventual necessidade familiar, mas - creio – muitíssimo menos por razões profissionais…

A digitalização já provocava mudanças e desconfortos. Doravante, tais desconfortos, sentir-se-ão, em certos domínios, mais rapidamente. A educação/formação é seguramente um deles. Com efeito, temos vivido os últimos tempos de um modelo e de uma cosmovisão de educação muito estribados no “fordismo”, na necessidade de preparar as pessoas (os jovens) para o desempenho de funções ultra especializadas, nos vários processos produtivos. A própria riqueza coletiva está ancorada na competitividade produtiva. A “reforma de Bolonha” acabou, há uns anos, por assumir e institucionalizar, no ensino superior, uma tendência que, pelo menos no centro da Europa, já era cultivada desde há, pelo menos, 30 ou 40 anos: formações de “banda estreita” (estreitíssima), com o intuito de produzir “especialistas diplomados” com vinte e pouco anos e - confundindo-se o plano profissional com o académico – já prontos a, de imediato, ingressarem no contingente produtivo-especializado. Temos realmente, hoje, as gerações (talvez) mais bem formadas de sempre, mas mais bem formadas (micro) especializadamente; porém, talvez das menos conhecedoras da realidade (ou menos dotadas de instrumentos intelectuais para a poderem conhecer). Desvaloriza-se, desde logo por falta de tempo, o exercício do sentido crítico. Corremos o risco de não sabermos pensar e, por via disso mesmo, sermos presas fáceis para todo o tipo de oportunismo político (autoritário e espoliador da nossa liberdade individual, inclusivamente). O imediatismo associado à digitalização das nossas vidas, estimula uma comunicação pobre, sem narrativas mais extensas ou complexas do que uma frase, uma palavra, um “emoji”! Favorece a nossa iliteracia geral e o nosso “enclausuramento” em nós próprios (“A expulsão do Outro”, de BYUNG-CHUL HAN, Ed. Relógio D’Água, 2018). Não nos podemos queixar muito dos nossos políticos e da respetiva (eventual) falta de aptidão para o bom e eficiente desempenho dos mandatos. No fundo, eles, tal como nós (tal como a generalidade da população) são já o fruto de tal visão norteadora da educação; uma educação/formação sem conhecimento de História (ou com a História mal-ensinada), sem tempo para privilegiar a importância da escrita e do pensamento crítico, sem apetência para se compreender a realidade global, a “big picture”!

Ora, vem isto a propósito de algumas iniciativas, relativamente experimentais, que têm sido ensaiadas em Espanha e a partir, nomeadamente, da Universidade de Deusto. Tais iniciativas – como “ “oficinas tecnológicas” e “laboratórios” educativos - têm tentado implementar reflexões produzidas, sobretudo, por alguns estudiosos do fenómeno da digitalização e que apontam para a necessidade de ser desenvolvido um novo modelo de educação, caracterizado por um “humanismo tecnológico”. Como? Começando por aprender a conhecermo-nos a nós próprios, não nos esquecendo, porventura distraídos pelo brilho imediato da tecnologia, do que somos e do que somos também enquanto cidadãos. O “El Mundo” (30 de março) relatava que um especialista em tecnologia, tendo sido questionado sobre o que se deveria fazer/aprender para se tentar ter trabalho em 2040, terá, elucidativamente, respondido: “Há que aprender filosofia e ler Dylan Thomas*”!
*Dylan Thomas – poeta galês, considerado um exímio conhecedor da língua inglesa. 1914 - 1953

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