Correio do Minho

Braga, terça-feira

Identidade Católica do CNE: na fundação(1

Tancos: falta saber quase tudo

Escreve quem sabe

2011-12-16 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

O facto de ter sido criado por vontade e ação de D. Manuel Vieira de Matos, Arcebispo Primaz de Braga, e inspirado numa manifestação católica: o Congresso Eucarístico Internacional, realizada em Roma, em 1922, conjugado com o facto deste prelado ter sido um grande reorganizador na arquidiocese, no que respeita à dinâmica pastoral e às organizações que lhe davam suporte, cria o ambiente propício para que esta comunhão Igreja e Corpo Nacional de Escutas (na sua designação atual) enforme a ideia de movimento ao serviço da ação educativa e evangelizadora da Igreja Católica junto dos jovens.

Esta opção católica que hoje se afirma foi uma constante desde a sua génese que monsenhor Avelino Gonçalves - o Homem forte, o operacional - a quem D. Manuel Vieira de Matos incumbiu de dar ‘Alma’ ao seu Movimento, vem ao encontro das ideias de Baden-Powell “O homem de pouco vale, se não acreditar em Deus e obedecer às suas leis, Por isso todo o escuteiro deve ter a sua religião. A religião parece coisa bem simples: Primeiro - amar e servir a Deus, Segundo - Amar e servir o próximo”(2

Na seu pragmatismo, D. Manuel Vieira de Matos reuniu uma pequena mas sólida equipa de onze pessoas(3 para dar vida ao sonho e assim, a 24 de maio de 1923, realizou-se a reunião que havia de criar o “Corpo de Souts Católicos Portugueses”. Como homens de ação que eram, três dias depois, viram publicados, por alvará do Governador Civil de Braga, os estatutos que fixam a natureza católica do movimento. O dia 27 de maio de 1923, foi considerado como sendo a data de nascimento do Escutismo Católico Português.

A marca ‘escutismo católico’ não advém só pelo facto da sua paternidade estar intimamente ligada à ação do Prelado bracarense e da sua igreja (padres e leigos), nem apenas pela designação de desde logo adotou: scouts católicos, mas sobretudo pela sua missão de movimento para a formação de cidadãos católicos, dada pelos estatutos ao longo de todos os tempos.

Desde logo, nos estatutos aprovados pelo Decreto nº 9729, de 26 de maio de 1924, onde a referencia expressa à origem e à ligação dos Scouts Católicos à Igreja Católica, quer no plano dos princípios quer plano organizacional, é uma constante, apesar da Lei da Separação do Estado das Igrejas (Decreto de 20 de abril de 1911 - Afonso Costa preconizava que, com esta lei, no espaço de duas ou três gerações o Catolicismo estaria irradiado completamente do País, sendo secundado por outras figuras republicanas)(4, veja-se que, nos trinta e sete artigos dos estatutos, esta referência é feita cinco dezenas de vezes.

Este início do escutismo católico não foi fácil, pois em plena sala do Senado, no dia 12 de julho de 1923, logo nos princípios do escutismos católico “Corpo de Scouts Católicos Portugueses (C.S.C.P.)”, para o ataque violento do senhor Pereira Osório ao movimento da Igreja recentemente criado sobretudo quanto aos seus “fins um pouco tenebrosos”. Tendo o Mgr. Dias de Andrade, também no Senado, feito a defesa do C.S.C.P.(5

Esta polémica estalou na sociedade e a comunicação social comprometida com ambas as partes em contenda defendia cada uma o seu ponto de vista, “Eis senão quando ... A exploração jacobina do momento assaz confuso e o espírito menos escutista de certos Escuteiros de então (vid. Novidades de 19-6-1924, 14-6-1924 e Diário do Minho de 18-6-1924; a Época de 114-6-1924, etc), conseguiram que o Ministro Sá Cardoso, em 12 de junho de 1924, conseguisse a invalidação dos documentos acima citados e que eram a garantia jurídica do Escutismo Católico nascente.”(6

Mas a relação de comunhão da Igreja e do fundador com o escutismo era tão forte que, ao se constar-se que os Escuteiros iam ser presos, o Prelado exclamou “deem-me uma farda, que eu também quero ser preso”(7. Situação esta que não eram nova pois D. Manuel Vieira de Matos fora já perseguido enquanto Bispo da Guarda por causa da Lei de Separação da Igreja e do Estado.(8
Esta dialética Igreja e anti-igreja é tão antiga como a própria Igreja de Cristo, e as instituições criadas no seu seio são objeto desta ação dialética, o Escutismo Católico Português, nas suas origens também não escapou a estes contratempos.


(1 Procuraremos abordar esta temática ao longo de três artigos, dedicando este primeiro aos tempos iniciais, o segundo à entrada na democracia e o terceiro aos tempos de hoje.

(2 Baden-Powell, Escutismo para Rapazes, 3ª edução, Edições Flor de Lis, Barcelos, 1968, (Palestra de Bivaque nº 22), p:256.

(3 Salgado, Padre Benjamim, Radiosa Floração, Edição da Junta Central do CNE, Braga, 1948, p: 12.

(4 In, http://www.infopedia.pt/$separacao-da-igreja-e-do-estado-em-portugal.

(5 Salgado, Padre Benjamim, Radiosa Floração, Edição da Junta Central do CNE, Braga, 1948, p: 14.

(6 Salgado, Padre Benjamim, Radiosa Floração, Edição da Junta Central do CNE, Braga, 1948, p: 15.

(7 In, http://www.cne escutismo.pt/Escutismo/CorpoNacionaldeEscutas-/Hist%c3%b3riadoCNE/FigurasHist%c3%b3ricas/DManuelVieiradeMatos/tabid/428/Defaultaspx

(8 In, http://www.infopedia.pt/$separacao-da-igreja-e-do-estado-em-portugal.

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