Correio do Minho

Braga, terça-feira

Identidade Católica do CNE: nos tempos da Revolução (1)

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Escreve quem sabe

2011-12-30 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

O escutismo católico conquistou o direito à existência aos sobreviver aos ataques ferozes de Afonso Costa com a Lei da Separação do Estado das Igrejas, e aos resistir ao canto de sereia do Ministro da Educação Nacional (2), Pacheco Pereira que pedira ao Cardeal Patriarca a extinção do CNE, sendo a resposta (3) enérgica e direta: “enquanto a Mocidade Portuguesa não desse aos seus filiados uma formação católica, o CNE não seria dissolvido”, mas também politica e irónica: “Já uma vez disse a V. Exª. que me interessavam menos os ‘escuteiros católicos’ do que o princípio da liberdade de associação. Se o Estado Novo não é totalitário neste departamento da educação nacional, deve-se, em grande parte, à possibilidade de existência de associações particulares que não contrariam o bem público. A existência dos escuteiros parece-me a mim que ainda interessa mais ao Estado do que à Igreja. É uma demonstração de que o Estado Português reconhece a justa liberdade individual.”

Marca a determinação para manter vivo este sonho da Igreja Católica e o que é verdade é que apesar da ameaça do ministro Carneiro Pacheco: “hei de dar tanta força à Mocidade que o escutismo há de morrer por asfixia” (4). Como todos sabemos foi a Mocidade que morreu, não por asfixia, mas por não poder (nem saber) respirar em liberdade e em democracia.

Com o alvorar dos anos 60 novo ciclo na vida da Igreja, pois no dia 25 de dezembro de 1961, o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II que inaugu-rou, no dia 11 de outubro de 1962, sendo realizado em 4 sessões, tendo terminado no dia 8 de dezembro de 1965, já sob o papado de Paulo VI que no dia 28 de outubro de 1965 publicou a declaração Gravissimum Educationis sobre a Educação Cristã onde está espelhada a importância e a atualidade da educação cristã bem como do papel dos cristãos e das instituições cristãs na educa-ção das crianças e dos jovens e na construção de um mundo mais justo e humano embebido no espírito de Cristo.

Por outro lado, em Portugal, a Revolução dos Cravos lança um novo espírito nas nossas vidas e na nossa sociedade: a liberdade e a democracia. Em qualquer dos casos é o apelo constante à participação e à afirmação de cada um de nós enquanto pessoa, portadora de direitos e deveres, mas tendo uma palavra a dizer no rumo do nosso pais e da nossa Igreja.

No Corpo Nacional de Escutas estas sementes caíram em terra produtiva e desde logo se iniciou um processo de mudança que passou por reformular estatutos e regulamentos para que estes instrumentos permitissem afirmar a participação democrática de todos nas tomadas de decisão e na escolha dos seus dirigentes, desde o nível local até ao nível nacional, sendo que todas as estruturas passaram a ser estruturas representativas das ‘bases’.

Neste processo não faltam histórias interessantíssimas que marcam a vontade participativa intensa. Naquela época uma grande tristeza nos invadiu a quase todos ao vermos muitos dos nossos dirigentes e cami-nheiros dedicarem-se a outros movimentos ou organizações: desde a atividade sindical, à estudantil, passando pela política e por outros movimentos mesmo da Igreja.

Hoje, com um olhar mais distante e até mais sabedor, percebemos que a final estes jovens, caminheiros ou dirigentes, tinham feito o seu percurso formativo e estavam em condições de assumir as suas missões de cidadãos, isto é, o CNE tinha desempenhado o seu papel.

Mas esta revolução organizacional em volta dos sistema de-mocrático foi acompanhada por uma ainda maior afirmação dos valores católicos na missão do Escutismo Católico Português, bem ao jeito do apelo de Paulo VI na declaração conciliar sobre a educação cristã. Mais ainda, marcou, de forma mais explicita, a ligação entre o CNE e a hierarquia da Igreja.

Para consubstanciar esta marca fez-se emergir o pólo educativo (5) da “Felicidade - a relação com Deus” e valorizou-se a Pedago-gia da Fé, também por esta altura foi criada a CICE - Conferência Internacional Católica do Escu-tismo de que já falamos em artigo anterior (6).

Como em qualquer sociedade, organização ou movimento, a democracia e a sua vivência fortalecem os valores que lhe dão forma e valorizam a pessoa humana, assim aconteceu no Escutismos Católico onde a Missão de ajudar os jovens a crescerem e a formarem-se enquanto cidadãos a luz do Evangelho saiu mais reforçada deste processo pois passou a emanar da vontade de cada um onde os adultos assumiram, como que respondendo ao apelo de Paulo VI, como educadores católicos.

PS: Votos de Boas Festas e de um Feliz Ano Novo.


1) Segundo artigo sobre esta temática dedicado à entrada na democracia, tendo o primeiro sido dedicado aos tempos iniciais e o terceiro dirá respeito aos tempos de hoje.

2) Sobre este tema, ver o artigo de Simon Kuin, A Mocidade Portuguesa nos anos 30: anteprojectos e instauração de uma organização paramilitar da juventude, Análise Social, Vol. XXVIII (3.º), 1993 (n.º 122), pp. 555-588.

3) Carta do cardeal-patriarca ao ministro da Educação Nacional, s. d. (provavelmente do verão de 1938), reprod. in José Geraldes Freire, Resistência Católica do Salazarismo-Marcelismo. Porto, 1976, pp. 209-213.

4) Reis, João Vasco, Corpo Nacional de Escutas, Uma História de Factos (Subsídios), CNE, Lisboa, 2007, p: 207.

5) Ver Bernard, Dominique, B-P Hoje, Edições do Corpo Nacional de Escutas.
6) Correio do Minho, edição de 02 de dezembro de 2011

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