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Idoso

Para um futuro melhor

Idoso

Escreve quem sabe

2020-09-29 às 06h00

Vítor Esperança Vítor Esperança

Ser idoso é sinal de longa vida. A velhice pode chegar precocemente, dependendo de muitos fatores, entre os quais a capacidade própria em manter-se ativo e, de boa saúde. Podemos até, estar fisicamente bem e mentalmente envelhecidos. Ninguém porém poe em dúvida que com a idade vemos diminuir as nossas capacidades, sobretudo as físicas mas, normalmente as duas sofrem retrocessos. A idade aumenta-nos as fragilidades e consequentemente a necessidade de recebermos apoios dos outros.
Todos queríamos ser eternamente jovens mas, o destino natural impõe-se á nossa vontade. Então, se todos caminhamos para o mesmo, se temos consciência que seremos mais frágeis no futuro, porque é que não damos maior atenção aos problemas que essa fase da vida nos trará?
Nunca a Humanidade teve tanta gente com idade tão avançada, condição possível pela melhoria da qualidade de vida em geral e avanço dos cuidados de saúde. Todavia, as condições sociais e culturais parecem não ter tido igual desenvolvimento, arrisco a dizer que há indicadores que apontam no sentido contrário, afastando das nossas rotinas de vida os mais velhos, deixando-os desamparados num momento das suas vidas, justamente aquele em que mais precisam de nós.
Por melhor compreensão que possamos ter das exigências impostas a todos por uma vida frenética, competitiva e, exigente a cada pessoa, a cada família e seus elementos de agregado, não podemos ignorar quem nos criou e amparou durante as primeiras dezenas de anos da nossa vida e, que fez de nós quem somos, beneficiando das ofertas da qualidade de vida que ajudaram a construir para nós.
Se o modelo económico vigente exige cada vez mais gente para a sua cadeia produtiva, se os valores da igualdade disponibilizam oportunidades a cada um independentemente do seu género, se cada um, individualmente ou em família continua a considerar o consumo como sinónimo de qualidade de vida e, se o gozo da vida apenas é pensado como proveito individual, dificilmente teremos tempo para a cidadania segundo valores humanistas. Criamos um modelo de produção continua que descarta o material usado para que outro novo imediatamente o subsitua; um modelo que perigosamente se aproxima das pessoas como elemento da mesma cadeia. Primeiro substituídas por outros mais jovens, brevemente substituídos por máquinas com Inteligência artificial. Não será necessário ser idoso para nos tornarmos obsoletos.
Arrepiemos caminho. Sem valores humanistas e civilizacionais seremos meros elos de uma cadeia maior. A vida não pode ser apenas o tempo usufruído na idade adulta, onde as faculdades, competências e resultados se apresentam maximizados. A vida merece igual dignidade desde a nascença à morte. A fase inicial tem merecido maior atenção nas últimas décadas, mais sentida na área da saúde (apoios na maternidade), na assistência social e educação (ensino pré-escolar, apoio à família em creches e jardins-de-infância, escola a tempo inteiro tendencionalmente gratuita). A esta atenção não é alheia a libertação de tempo para que todos sejam inseridos na cadeia de produção de riqueza – Trabalho – que naturalmente teremos que nos incluir porque o “dinheiro não cai do céu “.
Porém, não vejo a sociedade que somos todos nós, preocupar-se com a ultima fase das nossas vidas, aquela que esperamos viver com dignidade e qualidade, a não ser quando a desgraça acontece, como são hoje os exemplos da enorme mortalidade em espaços onde se confinam os mais velhos.
Sabemos que cada um de nós, se quiser viver uma vida longa, passará pela fase da vida em que as forças nos faltam e, os apoios são mais necessários. Porque não damos tanta atenção a isso?
O mercado encontra soluções a quem está disposto e pode pagar mas, bem sabemos que uma grande maioria dos cidadãos não tem capacidades de poupança que suporte no futuro esses serviços.
Em Democracia delegamos no Estado muitas das responsabilidades que nos cabem como cidadãos, permitindo-lhe criar mecanismos de arrecadação de riqueza (impostos, taxas, licenças, etc.) que aloca a diferentes obrigações de gestão do que é de todos.
Em Democracia o Estado suporta a legalidade do exercício do poder no voto. Seria por esta via que daríamos indicações do que queremos como prioridade. Infelizmente a representação indireta que damos aos partidos políticos não tem sido eficaz, porque cada vez ouvem menos os cidadãos. A desilusão dos cidadão reflete-se na abstenção, problema que não afeta em nada o acesso ao poder, pois tanto se ganha com cem votos, como com alguns milhão, basta que sejam superior em número ao do concorrente.
Não basta lamentarmo-nos. Não basta pedir ao Estado que dê respostas, é preciso ajuda-lo a tomar decisões e a priorizar opções. Em vez de exigirmos mais estradas; em vez de gastarmos o nosso rendimento em supérfluas coisas que usamos e deitamos fora; em vez de apenas pensarmos em nós no presente, com o lema de que “a vida são dois dias”, pensemos no nosso futuro, talvez afinal sejam “três ou quatro dias” mas, que sejam com qualidade de vida.
Para que a Democracia não morra, impõem-se deveres de cidadania, exercida em oportunidades diversas, desde que não seja em revolução. Temos que aproximar as políticas dos cidadãos. Temos que por na agenda problemas que afetam os mais idosos e nos afetarão a nós brevemente. Em tudo o que nos envolvermos com cidadãos ativos, em associações, em autarquias, no desempenho de profissões de projeção pública, saibamos dar indicações aos Governos sobre as nossas escolhas e prioridades.
Não me canso de repetir: A Pandemia trouxe para nossas casas, através da TV, o que todos sabem: a designada “terceira idade” está esquecida e desamparada. Triste fim, aquele que nos espera, se nada fizermos por mudar a situação.

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