Correio do Minho

Braga, terça-feira

Imbecilidades

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2011-11-29 às 06h00

Jorge Cruz

Numa sessão partidária realizada há dias em Braga, o coordenador autárquico nacional do CDS classificou de “gentalha da esquerda” todos aqueles que discordam da proposta de Reforma da Administração Local. Curiosamente, as palavras de Domingos Doutel foram proferidas na mesma sessão em que o vice-presidente do seu partido, Nuno Melo, contestou as medidas recomendadas no chamado ‘Livro Verde’, documento que se encontra em discussão pública.

Claro que o confronto de ideias, a troca de argumentos em defesa dos pontos de vista de cada um, é perfeitamente salutar, além de constituir um ponto de honra de qualquer regime democrático. As limitações a esse sadio exercício devem prender-se apenas com a forma de expressão e, essencialmente, com o seu conteúdo. Ou seja, os argumentos de cada um têm forçosamente que valer por si próprios, pelo que significam ou representam, nunca pela insinuação ou pelo insulto, como agora aconteceu.

Neste caso infeliz, o coordenador autárquico do CDS não se limitou a injuriar o vice-presidente do seu partido - o que por si só já seria extremamente grave. Não, talvez embalado pela intervenção de Miguel Relvas, a quem curiosamente tratou por ministro, embora se tratasse de um encontro promovido pelas distritais do PSD e do CDS, o responsável centrista entendeu lançar o opróbrio a todos quantos, de diversos quadrantes políticos e em variados pontos do país, discordam das propostas governamentais.

Acontece que, ao contrário de Nuno Melo que de uma forma civilizada aduziu argumentos para se demarcar das posições oficiais, Domingos Doutel assumiu-se mais papista que o papa, arvorou-se em mandatário sem qualquer mandato para falar em nome da maioria da população, de quem garantiu conhecer a posição sobre o ‘Livro Verde’ e passou à ofensiva, ultrajando todos quantos discordam da proposta governamental. A democracia dispensa gente desta!

O curioso é que este responsável partidário que agora se mostra tão preocupado com os custos da Administração Local é a mesma pessoa que em 2005, nas eleições para a Câmara de Mirandela, apresentou uma extensa Carta de Compromissos que, a ser cumprida, teria representado um enorme acréscimo de despesa pública.

O problema das imbecilidades como a que se verificou neste encontro das distritais de Braga do PSD e do CDS é que se replicam com extraordinária facilidade, não olhando a cores partidárias nem poupando instituições.

De facto, na semana passada o secretariado concelhio de Barcelos do PS denunciou a alegada falsificação de centenas de fichas para inscrição de novos militantes no partido, naquilo que Eusébio Silva, coordenador da secção, considerou um “esquema” para “destruir politicamente” o líder da concelhia e o presidente da Câmara. Assim, solicitou à direcção nacional do partido a instauração de procedimento disciplinar a dois socialistas locais, proponentes de centenas de candidatos a militantes do partido.

Na base da denúncia estarão, alegadamente, irregularidades na recolha e falsificações das fichas de novos candidatos a militantes, numa acção que terá sido coordenada por um elemento externo ao PS, razão porque também pretendem que o caso seja participado ao Ministério Público.

O que na realidade se terá passado em todo este processo será eventualmente apurado após investigação de quem de direito mas, entretanto, já vieram a público os habituais desmentidos: do alegado coordenador desta trapalhada e de um dos proponentes, que contra-ataca acusando os actuais elementos da concelhia de terem medo de perder o poder no partido.

Não é minha intenção, evidentemente, tomar partido nesta triste contenda. Se estamos ou não perante uma tentativa de chapelada, semelhante a tantas que ciclicamente vão ocorrendo aqui e além, só as averiguações poderão concluir com um mínimo de certeza. Não posso é deixar de me surpreender pelo facto de pelo menos um dos envolvidos ser uma pessoa com enorme experiência política que, por essa razão e pelas funções que ocupa, deveria tomar mais cautelas.

Com efeito, Alfredo Cardoso, é dele que falo, defendeu-se das acusações que lhe foram dirigidas afirmando que foi proponente no pressuposto de que estava tudo “dentro da lei”, ga-rantindo que exigirá responsabilidades a quem lhe apresentou as largas centenas de fichas alegadamente falsificadas. “Foi um grupo de pessoas, umas militantes do PS, outras não” (sublinhado meu), referiu à Lusa escusando-se contudo a revelar identidades.

Acontece que Alfredo Cardoso, chefe de gabinete do presidente da Câmara de Braga, é um homem com um enorme e variado percurso político, com intervenções activas e empenhadas no movimento sindical, com participações em IPSS’s e outros movimentos sociais. Em suma, um homem para quem os meandros da política não têm segredos e que sabe como ninguém que em algumas dessas organizações as traições dificilmente têm perdão. Não ignora que nesses meios é usual dizer-se que cá se fazem cá se pagam.

O que terá então acontecido ou o que estará em causa para que este homem experiente, moldado na antiga escola comunista, tenha baixado a guarda, acabando por se deixar envolver num processo nebuloso? Não creio que tenha sido mera idiotice.

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