Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Inanidades

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2014-06-17 às 06h00

Jorge Cruz

As recentes comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas trouxeram para a ribalta, principalmente política, mas não só, um léxico, não direi novo, mas pouco conhecido do cidadão comum. A “reacção vagal” de que foi vítima Cavaco Silva, eventualmente um incidente simples decorrente da activação inapropriada do nervo vago, passou a ser a notícia do dia relegando para segundo plano quer as celebrações quer outros assuntos de inegável relevância.

De facto, a pré-síncope do presidente da República, um episódio que até já tinha ocorrido num outro momento de grande tensão, quando Cavaco assistia à posse de António Guterres, seu sucessor como primeiro-ministro, teve uma sobrevalorização mediática nada condizente com a sua situação clínica. Ou seja, o exagero criou apreensões desnecessárias e, de certa forma, lançou a dúvida sobre eventuais debilidades de saúde, que ninguém deseja e que felizmente não se confirmam, do primeiro magistrado da nação.

Dito isto, e assumindo com total clareza que todos almejam boa saúde - e quando se trata de sanidade o ser humano nem costuma ser egoísta, ou seja, não a deseja só para si -, mudemos a agulha para a política, isto é, para a actuação do político Aníbal Cavaco Silva.
Creio existir um consenso bastante alargado sobre as enormes responsabilidades que decorrem da sua acção, quer enquanto primeiro-ministro quer como presidente da República. São sobejamente conhecidas as opções que tem vindo a assumir desde a década de oitenta do século passado e, principalmente, as consequências, frequentemente dramáticas, para o país e a esmagadora maioria dos portugueses.

Muitos se recordarão dos milhares de milhões que foram autenticamente despejados em Portugal quando ele desempenhava funções de chefe do executivo. Acontece que foi precisamente nesse tempo áureo da entrada de dinheiros da então Comunidade Europeia que o Estado começou o seu crescimento desmesurado até atingir uma dimensão monstruosa, como de resto viria mais tarde a ser denominado pelo próprio criador do monstro.

Não serão necessários grandes exercícios de memória para nos lembrarmos dos sucessivos e por vezes quase criminosos desmantelamentos de sectores de produção que ocorreram nesses anos. Não nos esquecemos das obras de fachada cujo préstimo maior, em muitos casos, foi a sua inauguração em períodos pré-eleitorais.

E que dizer, por exemplo, dos esquemas que então medraram em torno da formação profissional? E as famigeradas elites que então se formaram à sombra do chamado cavaquismo? Como se sabe, muitos desses amigos e companheiros de percurso tornaram-se bem conhecidos dos portugueses, embora pelos piores motivos. Alguns deles são frequentadores assíduos dos corredores e salas de audiência dos tribunais. A classe de malfeitores nascida à sua sombra abalou os alicerces da democracia e contribuiu grandemente para a degradação a que se chegou sob o ponto de vista político, social e económico.

Agora, na recta final de uma prolongada passagem por Belém, parece consensual a opinião de que não vai deixar saudades aos portugueses, tal como já sucedera aquando do seu também dilatado trânsito por S. Bento.

O papel de árbitro que é suposto pertencer a um titular do alto cargo que ocupa dificilmente é compaginável com o desempenho parcial em favor da manutenção no poder de uma direita que, reconhecidamente, tem causado graves danos ao país e aos portugueses e afronta deliberadamente os pilares das instituições democráticas, como tem sucedido em relação ao Tribunal Constitucional.

Aliás, uma das características do seu primeiro mandato presidencial foi o clima bélico contra o governo socialista de então numa manobra que, face à crise internacional que se começou a viver, tentava esconder o falhanço das políticas que adoptara enquanto primeiro-ministro e, em simultâneo, servia claramente os interesses da sua família política.

Neste segundo e derradeiro mandato a tónica tem sido completamente diferente: alinhamento quase incondicional com as práticas políticas do governo de direita, fazendo-se de morto sempre que as condições políticas reclamam uma intervenção enérgica do mais alto magistrado da nação. E tem sido assim mesmo quando a coligação de direita ultrapassa os limites que a Constituição impõe e se coloca completamente à margem do próprio Estado de direito.

Aliás, ao invés de, no mínimo, chamar o governo à razão, Cavaco Silva opta por chantagear o PS, tentando comprometer o principal partido da oposição com as políticas desastrosas da direita e, mais grave ainda, com um governo que viola reiteradamente a Constituição. Percebe-se a intenção: a corresponsabilização do PS com as terríveis medidas de austeridade resultaria na sua penalização nas urnas.

Com esta estratégia, já experimentada anteriormente, quando até foram oferecidas eleições antecipadas a troco de um vago compromisso, parece pretender evitar-se a normal e desejada alternância do poder, um dos principais pilares dos regimes democráticos. E dessa forma obtusa impedir aquilo que aparentemente não pode ser evitado, isto é, que o próximo primeiro-ministro seja um socialista. Com a curiosa agravante, ironia das ironias, de poder ser um dos mais próximos de José Sócrates. Ou seja, potencialmente um momento para novo chilique de Cavaco Silva.

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