Correio do Minho

Braga, terça-feira

Indignai-vos!

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2011-10-23 às 06h00

Carlos Pires

“A minha longa vida deu-me uma série de motivos para me indignar”. 
Esta frase é da autoria de Stéphane Hessel, de 93 anos, herói da Resistência francesa, sobrevivente dos campos de concentração nazis e um dos redactores da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
É com a autoridade moral que lhe advém de uma experiência de vida marcada pela luta que Hessel lançou o livro “Indignai-vos!”, um manifesto reduzido (são menos de trinta páginas), mas que já é apontado como a grande influência dos protestos pacíficos das últimas semanas.
No sábado, dia 15 de Outubro, milhões de pessoas, em várias partes do mundo, incluindo a nossa cidade de “Braga”, saíram às ruas para protestarem contra a austeridade, contra as desigualdades económicas e a avidez da alta finança. As opiniões dividiram-se: houve quem considerasse estes movimentos muito positivos, com elevado potencial pedagógico, mas também houve quem, tal como o filósofo José Gil, os caracterizasse como “expressões patéticas e utópicas”, como grupos que “estão a brincar às revoluções”.
Há algo, contudo, que todos devemos concluir: as manifestações cristalizam o espírito de uma época, as sociedades estão cansadas e desmotivadas, fruto da “montanha-russa” em que se converteram as decisões dos que mandam, na política e na economia.
A indignação é por si só um valor? Penso que não. Como convertê-la em responsabilidades? Esta sim constitui a verdadeira reflexão, sob pena de tudo se reduzir a um “espectáculo das emoções”, verdadeiramente estéril.
Estive atento ao teor dos cartazes empunhados por muitos dos que aderiram ao movimento “indignados”. Concordo genericamente com tudo o que se escreveu. Mas, confesso, “soube-me a pouco”. Muitas exigências. Nenhum compromisso. O que me levou a recordar, uma vez mais, a célebre frase de John F. Kennedy: “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta o que podes fazer pelo teu país”. É que ser cidadão dá trabalho. Eu, você, caro(a) leitor(a), todos nós cidadãos, temos o direito a reivindicar do país, mas também temos o dever de contribuir para o país.
Pergunto, será que no seio dos manifestantes estavam alguns daqueles que, nos últimos actos eleitorais, preferiram o sol e a praia em detrimento do exercício do dever de votar? Pergunto, será que no seio dos manifestantes estavam alguns daqueles que auferem subsídios e prestações sociais e, ao mesmo tempo, exercem actividades remuneradas e não declaradas? Ou, ainda, perpetuam até ao limite o recebimento desses subsídios recusando ofertas de trabalho? Pergunto, será que alguns dos jovens que eu vi nas ruas beneficiam de bolsas de estudo, por alegadamente não poderem pagar propinas, mas no bolso ocultam telemóveis da última geração e não prescindem de frequentes e dispendiosas “noites de copos”?
A resposta é afirmativa? Nesse caso, então, permitam-me que eu desde já me indigne. Ou antes, permitam-me que eu amplie a minha indignação. Sim, eu indigno-me perante tais comportamentos por entender que são incorrectos e, por isso, peço a todos aqueles que de alguma forma se sentirem por mim identificados nas questões colocadas o favor de, numa próxima manifestação, procurarem palavras (e vivências!) que rimem com trabalho e responsabilidade. Só assim, por um lado, respeitam os muitos que verdadeiramente vivem momentos de dificuldades, no limite dos sacrifícios e sem soluções à vista. Só assim, por outro lado, respeitam o grupo dos que os sustenta e suporta a estrutura nacional - formado pelos que ainda se dedicam, pelos que ainda arriscam, pelos que ainda recusam o pessimismo e a lamúria como filosofia de vida.
A humanidade debate-se nos dias de hoje com problemas que ameaçam colocar em crise valores e princípios civilizacionais. O modelo europeu, em particular, vive um dos momentos mais difíceis da sua história. Portugal sofre as consequências de tudo o que se está a passar no mundo. Contudo, reconheçamos, o país, a par, padece de um outro problema, nosso apenas, de natureza cultural, moral ou ética, que urge corrigir. A ideia de que tudo é fácil e gratuito, alicerçada em alguma consciência colectiva, faz parte de um tempo que acabou. E há infelizmente quem ainda resista a essa (nossa) actualidade e dessa forma comprometa a esperança.
A esperança, a esperança de que melhores tempos virão, está assente em dois pilares: a indignação e a coragem. Um não basta sem o outro. A indignação ensina-nos a não aceitarmos as coisas como estão. A coragem ensina-nos a mudá-las.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

25 Setembro 2018

Traição, dizem eles!

25 Setembro 2018

As receitas do IVA

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.