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Infâncias Roubadas

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Infâncias Roubadas

Voz aos Escritores

2021-06-25 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

José tem oito anos, é catador de lixo no Rio de Janeiro, no Brasil. Zoku tem dez anos, é mineiro nas minas de cobalto no Congo. Natti tem sete anos, é criada doméstica numa casa de fazendeiros no Uganda. Noruh tem seis anos, é costureira numa fábrica têxtil em Daca, no Bangladesh. Nirih tem cinco anos, é catador de cajus numa plantação da Guiné-Bissau. Yoku tem seis anos, é carregador de metais numa metalurgia em Pequim, na China. Joaquim tem doze anos, é guerrilheiro na província de Cabo Delgado, em Moçambique. Jorge tem dez anos, é assentador de tijolos nas obras em Caracas, na Venezuela. Nacy tem treze anos, desde os sete forçaram-na a ser escrava sexual em Banguecoque, na Tailândia, e não é somente o proxeneta que lucra com a sua escravidão, também lucram os taxistas que lhe levam os clientes, os polícias corruptos e outros coniventes. Josué tem onze anos, é pedinte, ladrão e traficante de estupefacientes desde os cinco em São Paulo, tem nacionalidade brasileira como o José e como a Nacy é explorado sexualmente pelas redes que operam nos tráfegos ilícitos.
Se pudessem olhar para uma fotografia de cada uma destas crianças, diriam que nenhuma aparenta ter mais de quatro anos de idade. São franzinas, ossudas, rostos tristes, olhos encovados, tombados, rostos de sorrisos apagados, sorrir de quê, sorrir para quem, sorrir para quê, bocas que se abrem somente para tragar as escassas vitualhas, corpos que laboram somente para comer e para as famílias suster, crianças extenuadas a labutar sem parar, sem tempo para brincar, sem escolas onde estudar. Crianças sem tempo para serem crianças.

Se pudessem olhar em redor delas, notariam a miséria que as circunda e por detrás dessa miséria, num vislumbre mais atento, numa sombra difusa, deparar-se-iam com os adultos que as exploram, abutres insaciáveis alimentados a carne tenra. Alguns fazem-no por ganância e maldade atroz, adultos sem alma sem piedade sem escrúpulos. Outros por considerarem o trabalho infantil benéfico para as crianças, o trabalho molda-lhes o carácter, afasta-os da vagabundagem, faz deles futuros adultos sem manhas de calaceiros e de malandrice, homens e mulheres capazes de ganhar o sustento. Um sustento paupérrimo, num ciclo que não os deixa sair da penúria, que os aferra à pobreza de posses e de espírito. Crianças sem instrução serão adultos sem formação e os filhos que procriarem seguirão o mesmo padrão.
Na miséria que circunda essas crianças, veriam algumas estropiadas, dedos, mãos, pernas decepadas, outras pelas doenças laborais afectadas. As condições em que estas crianças trabalham são precárias, perigosas, pesadas, desproporcionadas à sua compleição subnutrida. O trabalho atrofia-lhes o crescimento e danifica-lhes a saúde. A maioria não é vacinada nem aufere de cuidados médicos e sanitários. As feridas físicas e emocionais das infâncias roubadas acompanhá-las-ão até à morte num finar tantas vezes precoce, um finar de violência, de injustiça, de doença.

No cenário dessa miséria, no lugar de bonecas e respectivas roupinhas, carrinhos telecomandados, cubos de madeira pintados, bicicletas, livros ilustrados, smartphones e computadores portáteis, veriam trapos rasgados, facas afiadas, pistolas e metralhadoras obtidas pelos cabecinhas no chorudo mercado negro das armas, carrinhos de mão ferrugentos, tijolos quebrados, andaimes coxos, papéis sujos e amarfalhados, bidons de água insalubre, pechisbeques e caixinhas de maquilhagens incapazes de transformar crianças em adultos a fingir, crianças cuja inocência perdida nos meandros do infortúnio é pelos predadores procurada.

Apesar da proclamação da Declaração Universal dos Direitos das Crianças pela O.N.U. em 1959 e dos esforços da Organização Internacional do Trabalho, o flagelo da exploração infantil persiste em todo o Mundo. Aos meninos cujos nomes são aqui mencionados, somam-se mais 160 milhões. A pandemia do Covid 19 aumentou os índices de pobreza e o número de meninos e meninas obrigadas a trabalhar voltou a subir. Uma em cada dez crianças sobrevive nesta situação. A globalização incrementou a mão-de-obra barata nos países subdesenvolvidos, um chamariz para as empresas que buscam maiores lucros pela redução dos custos. Essa globalização é responsável por milhões de postos de trabalho infantil. Todos nós, ao consumirmos esses produtos, não ajudamos nenhuma criança. Contribuímos para a sua pobreza e o prolongamento da sua exploração. Num paradoxo incompreensível, o Mundo defende a urgência da ecologia, mas esquece o rasto de poluição deixado pelo transporte dessas mercadorias produzidas com mão-de-obra explorada, e esquece também, numa amnésia calculista, a escravatura das crianças nas minas de cobalto que alimenta as baterias de ião-lítio pseudoecológicas dos telemóveis, dos computadores e dos carros eléctricos.

Este ano de 2021 é o ano para a Eliminação do Trabalho Infantil. Num ano em que no Mundo se luta contra a pandemia, onde está a humanidade de grupo? As instituições internacionais e os governos de cada país têm a urgente obrigação de acabar com a chocante realidade do trabalho infantil. Prevê-se que em 2025 os objectivos desta erradicação estejam cumpridos. No final do primeiro quarto deste século, na Terra não mais haverá infâncias roubadas. Que assim seja.

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