Correio do Minho

Braga,

Informação e manipulação

Transtorno obsessivo compulsivo por compras: Oniomania

Ideias

2017-01-17 às 06h00

Jorge Cruz

O ano que terminou há pouco mais de duas semanas ficou indiscutivelmente marcado pela manipulação. Creio mesmo poder afiançar, sem o menor receio de ser desmentido, que 2016 terá sido o ano em que a manipulação assumiu um papel preponderante em grande parte dos acontecimentos mais marcantes.

No plano mundial, aquele que mais se reflecte no quotidiano dos cidadãos, são inúmeros os exemplos que nos demonstram que a mentira e a adulteração de factos dominaram os principais acontecimentos. E não me estou a referir exclusivamente às controversas questões que rodearam as eleições americanas, algumas das quais, aliás, ainda não se encontram cabalmente esclarecidas. Não, aludo também a factos que ocorreram um pouco por todo o mundo, da Turquia à Venezuela e da Síria de Alepo à Inglaterra do “Brexit”, para só referir alguns dos mais notórios e escandalosos.

Em comum, nestes e em outros casos que me dispenso de enunciar, o facto de uma boa parte das “notícias” publicadas assentarem na nova “filosofia” que dá pelo nome de pós-verdade e que, afinal, não passa daquilo que desde tempos imemoriais sempre foi conhecido por mentira, por falsidade, por embuste ou por outro qualquer vocábulo com o mesmo significado.

“Claramente, estamos no início de uma nova era”, explica a propósito David Held, professor de Política e Relações Internacionais da Universidade de Durham, no Reino Unido, e autor de inúmeros livros e artigos sobre democracia e globalização. Segundo este especialista, “é uma época marcada pelo triunfo do medo e da raiva, por um descarado desrespeito à verdade, pela xenofobia, pelo enfraquecimento das ideias liberais e pela rejeição dos benefícios da globalização económica.”

As consequências, como comprovamos em diversos países ocidentais, são bastante perigosas porque a manipulação de eleitores descontentes conduz frequentemente a situações extremas as quais, no limite, até podem colocar em risco a própria democracia. Aliás, a eleição de Trump resultou precisamente da conjugação de factores iminentemente explosivos: a mentira, o embuste, a impostura cavalgaram o descontentamento de certos sectores da população, precisamente aqueles mais receptivos ou vulneráveis a esse tipo de manobras, e o resultado está à vista. O problema é tanto mais grave quanto é certo que o fenómeno tem tido réplicas na Europa, através de líderes políticos improváveis, como Nigel Farage, em Inglaterra, Beppe Grillo, em Itália, Marine Le Pen, em França, ou Norbert Hofer, na Áustria.

De facto, não nos podemos esquecer da humilhante derrota, e consequente demissão, do primeiro-ministro italiano Matteo Renzi no referendo para reformar o sistema político. Obviamente, a direita liderada por Beppe Grilo acabou por sair revigorada, como já havia sucedido em Inglaterra com o Brexit. De comum, o discurso populista contra o sistema. Por outro lado, e na mesma linha discursiva, quer na França quer na Alemanha, os movimentos populistas de extrema-direita de Marine Le Pen e da Alternativa para a Alemanha (AFD) dilataram as suas bases de apoio, enquanto na Áustria o candidato presidencial Norbert Hofer, ao perder por uma pequena diferença, deixou claro que a força política que representa está em ascensão.

Os desafios que se colocam à Europa são imensos e o clima de manipulação noticiosa apenas os torna mais difíceis de enfrentar. Desafios que se prendem não apenas com o futuro da União Europeia mas com a própria democracia, tal como a conhecemos, ou seja, sem o domínio de tendências autoritárias. E desse ponto de vista, creio que os desfechos das próximas eleições em França e na Alemanha terão necessariamente grande influência no rumo político futuro.

Os tempos não estão fáceis, tanto mais que a onda de notícias falsas não pára de crescer, muito à boleia das redes sociais e da capacidade de expansão vírica que elas proporcionam. E, como tem sido largamente comprovado, esse crescimento da manipulação noticiosa potencia desmedidamente os populismos e, de uma forma geral, as ideias de extrema-direita. E todos sabemos que os eleitores flutuantes, afinal aqueles que engordam a massa de indecisos, podem decidir uma eleição e que são eles quem tem vindo a assumir um papel mais relevante.

É do aproveitamento desse caldo que emergem os “homens-fortes”, os “salvadores da pátria”, aqueles que surfam as ondas de descontentamento popular para prometerem mundos e fundos, para prometerem os impossíveis em troca dos votos. Chegam ao absurdo de invocar Deus parecendo não ter consciência do ridículo. E nós conhecemos bem, demasiado bem até, muitos deles. E não é preciso sequer sair de Braga.

O problema, hoje em dia, não tem pois a ver com falta de informação, como sucedia há alguns anos, mas com desinformação, com informação falsa ou viciada, enfim, com manipulação. E a experiência comprova que a responsabilidade nem sempre é dos jornalistas. Também eles são frequentemente vítimas de poderosas máquinas alimentadas por interesses políticos e/ou económicos cuja principal missão é precisamente tentar manipular os jornalistas e, através deles, os eleitores. Esta é pois uma questão que ganha cada dia maior pertinência, na medida em que o poder dessas centrais também cresce desmesuradamente, o que nos obriga, por um lado, ao difícil desafio de separar o trigo do joio e, por outro, ao sempre saudável exercício de reflexão em ordem a repensar e descobrir os caminhos que melhor sirvam toda a comunidade.

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