Correio do Minho

Braga, terça-feira

Ingratidão

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Conta o Leitor

2018-08-31 às 06h00

Escritor

Autor: Manuel C. Correia

AA vontade de ter filhos, de sentir o amor vindo das entranhas. Uma criança que nasce sem que alguém lhe peça para nascer, cai nos braços de uma mãe cheia de orgulho, disposta a dar todo o seu amor, fazer todo o tipo de sacrifício sem condicionalismos.
Luísa era uma mulher dócil, de cabelo ruivo, tinha descendência Escocesa. As pessoas costumavam brincar com ela, dizendo que era uma cenourinha. O aspecto robusto e de pele clara dava lhe o privilégio de ser única no meio de mulheres de pele morena, como se fosse uma intrusa. 
O trabalho no campo é duro. O sol queima sem piedade, o movimento do corpo curvado sobre a terra de sachola na mão e todo o grupo a cantar, a rir com uma vontade contagiante. Gentes que vivem da terra, que não aspiram a serem ricas. Aspiram a serem felizes, sem o luxo desmesurado, sem a fútil ganancia. Gentes que fazem da sua maior virtude: a simplicidade!

Quando o pão era posto na mesa do lavrador, na hora da merenda, um pedaço ia para o bolso do avental. Luísa comia o necessário e guardava para os seus seis filhos um pedaço de pão. Quando chegava a casa tirava o pão para a mesa e ia dividindo por cada um dos filhos, comendo as migalhas que ficavam no fundo do bolso do avental. Por vezes distribuía as migalhas também! Migalhas! Sim migalhas, nem as migalhas se perdiam! Em contraste o menino rico cortava metade do bife, reclamando que era gordura!
A vida de mãe é feita de muitos sacrifícios. Carrega um filho durante nove meses, alimenta-o com o seu próprio leite, ensina-o a falar, andar, leva-o à escola, faz das tripas coração para que nada de essencial lhes falte! Mãe é assim: mesmo com os filhos ao seu lado, o seu coração nunca está sessegado!

Depois os filhos foram crescendo, e a mesa era pequena para tanta gente crescida, apertados num espaço reduzido, mas mesmo assim a felicidade de estarem todos juntos suplantava a falta de espaço. Luísa era mãe galinha e uma companheira carinhosa, com um coração do tamanho do mundo, tinha sempre um sorriso no rosto.
Os anos foram passando e as dificuldades foram diminuindo à medida que os filhos iam trabalhando e contribuindo para o orçamento da casa. Já havia dinheiro para comprar uma televisão às prestações, uma roupa melhor, mas tudo bem controlado, o passado da crise pairava sempre como um fantasma!

Os filhos mais velhos foram casando e a casa começava a ter mais espaço, e no coração de Luísa ficava a alegria de ver os seus filhos a seguirem o seu destino, mas também sentia um aperto no seu peito pela sua ausência, e, o domingo era o dia da família, a casa voltava a ser pequena para tanta gente, com genros noras e netos a solução era comer ao ar livre no verão, porque no inverno era uns na cozinha e outros na pequena sala de jantar, mas tudo numa alegria contagiante.
Um dia tudo mudou, o marido de Luísa morreu e ela ficou com uma filha a mais nova que viria a casar passado seis meses. Os filhos estavam agora noutra etapa das suas vidas. Continuavam a vir ao domingo e faziam o convívio como sempre, mas a crise levou quatro dos seis filhos a imigrarem e os outros dois viviam na mesma freguesia. A casa que já foi pequena era agora grande demais para Luísa. Com o passar dos anos foi ficando cada vez mais só, os filhos foram a visitando cada vez menos, ocupados nas suas vidas iam se esquecendo de quem tanto se sacrificou por eles.

 Muitas vezes Luísa caía na lucidez e chorava a ausência dos filhos, mas nunca deixou de os amar, mesmo que por breves momentos pensasse aonde errou como mãe?
O mais estranho e natural, é saber que quando se nasce a mãe faz tudo pelos filhos e quando a mãe chega ao outro estremo que é a velhice ou a doença os filhos não têm a mesma consistência de esforço e dedicação, existe uma ausência de valores, um egoísmo, e uma total falta de gratidão. Mas Luísa mesmo doente numa cama, nunca sentiu a ingratidão dos filhos, preferiu sentir o amor de mãe e recordava o quanto foi feliz naquela casa cheia de filhos. Para ela eles nunca saíram de casa, viviam lado a lado, ouvia as vozes, sentia o cheiro de cada um. A casa estava cheia de novo, o quarto de Luísa era pequeno mas estavam todos lá. A morte chegou só e levou Luísa para outra dimensão, o quarto ficou vazio com um corpo sem batimentos, cada vez mais frio. Os filhos só passado um mês a foram visitar mas já era tarde. O choro foi apenas um lavar de água salgada.

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