Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Inocente ou culpada?

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2018-09-07 às 06h00

Joana Páris Rito

Inocente e culpada, Meritíssimo. Inocente por amá-lo. Culpada por matá-lo.
Era uma catraia com fome de amor e de mundo, menina de tranças pretas alindadas de violetas, rosas nas faces, amores-perfeitos na boca, menina quieta a florir mulher no esconso canteiro da casa paterna, o floreado do portão a obstruir-me o olhar romântico, sôfrego de andanças, o floreado do portão a apartar-nos, a sombreá-lo de cornucópias, corações, flores-de-lis, a gradear-nos os devaneios, os anseios, os receios. Via-o passar, o coração a pulsar, a pele a suar, as pernas a tremelicar. A mão dele a acenar promessas de amor, os lábios a sibilar beijos roubados, levados na brisa estival. O olhar dele, profundo, matreiro, escuro como a terra do canteiro, a insinuar frutos proibidos, apetecidos, a despir-me dos vestidos, a desnudar-me de pudores, ali plantada em éden fértil de amores.
Inocente por desejá-lo. Culpada por obcecá-lo.
A paixão é pano que tolda a visão, é sudário do coração, é agoiro de maldição.
Abri-lhe o portão, estendi-lhe a mão, apertei a dele, tábua macia, lisa de calos, de farpas, de nós, tábua de salvação, jangada da perdição. A terra do laranjal vizinho serviu-nos de colchão, enrolámos os corpos, árvores carnívoras retorcidas, enegrecidas de pó, a vasculharem águas, a saciarem sedes, a traçarem fugas de Ló. O sal dos olhos ficou-me na boca. Ainda o sinto. Petrificado. O cheiro a pecado dele conspurcou-me a pele. Ainda o sinto. Entranhado.
Inocente por dizer sim. Culpada por calar o não.
Diante do altar, ajoelhados, a flor de laranjeira encobria-me a impureza, o enjoo sublinhava a certeza da vida a crescer-me no ventre adolescente, o sorriso escancarado do nubente sustentava-me a firmeza, unidos por Deus até à morte, sim, quero. A boda e a mortalha no Céu se talha.
Curta lua de mel. Infinda lua de fel.
Os ciúmes eram o prato do dia, o suor do meu labor o pão do sustento. As mãos lisas de calos, de farpas, de nós, não foram moldadas para o trabalho. O ócio é padrasto dos vícios, das cismas, dos fantasmas da mente. Ciúmes do nosso filho, do meu patrão, dos meus colegas. Os ciúmes a remexerem-me a carteira, o telemóvel, as roupas, os cabelos, a farejarem-me, a procurarem vestígios de macho, restos de coitos ilícitos, imaginários, ordinários. As mãos lisas de calos, de farpas, de nós, a mancharem-me o corpo, a enegrecerem-me a alma, nódoas que escondia, humilhada, envergonhada, calada, explorada.
Inocente por permitir. Culpada por consentir.
Arrependia-se. Desculpava-se. Era por me amar tanto que desconfiava, que ameaçava, era por me querer tanto que conjecturava, dizia-me, de rojo, choroso, flor na mão, mão no coração, a boca a esbordar perdão, a prometer-me não, não aos insultos, às acusações, aos tumultos, às contusões. Eu acreditava. Aceitava. Perdoava. Voltava a lua de mel. Minguante. Curta.
Os ciúmes engrandeciam. As mãos lisas reincidiam. As autoridades proferiam calma, paciência, compreensão, logo passaria a agitação, arrufos casamenteiros, fogos-fátuos da união, pieguices de fêmea, que relevasse a confusão, entre marido e mulher ninguém mete a colher; burocrática, proverbial e perigosa conclusão. Voltava a lua de fel. Cheia. Infinda. Eu ficava. Aturava. Semanas. Meses. Anos que esqueci de contar.
Inocente por medo. Culpada por fraquejos de coragem.
Naquele dia os ciúmes esperavam-me. Amputaram-me as roupas caídas no chão, violaram-me as cuecas na sofreguidão, puta, porca, vaca, como explicas este lastro de podridão, cio de cobridor, sémen de montador a comprovar a traição? As mãos lisas de calos, de farpas, de nós, batiam-me, cegas, esmurravam-me, loucas, moucas aos gritos, ao choro, à rogação. O nosso filho empurrou-o, ele caiu, vociferou, bastardo, filho da puta, cabrão. Ergueu-se. As mãos lisas de calos, de farpas, de nós, espetadas no meu filho, mãos a desfazê-lo, mãos de besta, armas mortíferas. Crivei-lhe a faca nas costas. Ele de borco, esparramado no chão, a chafurdar os estertores no sangue imundo, pernas inertes, mãos espalmadas, vazias de ciúmes, do meu corpo, do meu filho, lisas de nós.
Inocente ou culpada? Cabe a si decidir, Meritíssimo, e a Deus julgar.

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