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Instantâneo pessimista

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Instantâneo pessimista

Voz aos Escritores

2020-01-17 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

O ar que se respira vai gradualmente tornando-se pesado. Os ombros, resistentes e retos, vão-se arredondando, arqueando, tombando. Entre o espanto, o impensável e a pergunta inevitável: o que fazer com isto?
A justiça é lenta e onerosa. Às vezes com pouco de justa e de isenta. Vivemos num país onde o Estado propõe a criação de um gabinete de segurança no SNS à semelhança do projeto Escola Segura, que pelos vistos segura pouca coisa uma vez que os incidentes perpetuam-se numa escalada que não parece querer abrandar. Os médicos querem cursos de defesa pessoal ante as últimas cenas de violência - caricaturas de uma sociedade que deixa, aos poucos, de ser civil -, com porte de meios de defesa e botões de pânico. Parecemos caminhar para uma certa distopia coletiva, quando investir na justiça, pôr tribunais específicos para lidar com casos de violência e agressão física (não só a doméstica) a funcionar 24h e fazer uma legislação que seja eficaz parece uma miragem.

O caso dos professores e funcionários das escolas nacionais parece ser ainda mais caricato. Se um professor que agride um aluno é suspenso de imediato, e bem!, por que não ficam os agressores, sejam eles pais ou alunos, impedidos de entrar no recinto escolar a partir do mesmo momento? Já no caso de uma juíza e de uma procuradora agredidas na passada 4ª feira, em Matosinhos, a polícia teve ação imediata e prendeu a agressora. A lei não deveria ser igual para todos? A atuação das forças policiais também.

Somos bons a disfarçar o sol com a peneira ou a varrer o que não interessa para debaixo do tapete. Andamos a fazer isso há várias legislaturas, atendendo às emergências económicas e desvalorizando as profissões que, entre outras, são fundamentais para o nosso país e futuro. Há alguns anos que se fala, sem grandes holofotes, na falta que vai haver de professores. Ora tendo a profissão sido denegrida por vários agentes sociais, não há muitos alunos nos cursos de ensino, até porque para ser nómada e ver os projetos pessoais - como ter filhos - adiados até aos 40 ou mais anos é preciso um certo espírito missionário. Diria até masoquista. As universidades lá se foram amanhando e fundindo cursos de ensino com nucleares e cadeiras comuns de um lado e as várias vertentes nas diferentes áreas específicas a escolher ao longo do mesmo.
Só que agora já há zonas com falta de professores, nomeadamente a Português, Inglês, Geografia e Informática, tal como se pode ler na nota informativa sobre necessidades temporárias no site da DGAE. Temporárias que se vão manter permanentes e estruturantes.

Entre as várias soluções de tapar o sol com a peneira, está o colocar professores com formação profissional para lecionarem no 2º Ciclo a darem aulas também no 3º Ciclo ou secundário, desde que possuam habilitação ou formação para isso. O inverso não será, no meu ponto de vista, prejudicial para os alunos. Agora neste caso, a formação e o domínio das línguas não é, de todo, o mesmo. Mas espreitem, que há lá mais coisas giras para ver.
Pergunto-me quais serão as soluções a pôr em cima da mesa daqui a 4, 5 ou 6 anos, quando mais de 50% dos quadros das nossas escolas se reformarem.
Se olhar para a linha evolutiva de uma sociedade, parece-me claro de onde vem a sensação de estar a andar para trás. Erguemos uma torre de Babel, onde falamos sem comunicarmos, vemos sem alcançarmos e, por fim, tapamos o sol com a peneira por falta de visão, mas somos caricatos nos soluções apresentadas porque não olhámos para os problemas de frente nem vamos ao fundo dos mesmos.
Desculpem, caros leitores, o instantâneo pessimista logo no início de um ano ainda pouco impuro, mas não podia deixar-me encandear.

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