Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

Investimento público para a recuperação económica

A recuperação das aprendizagens

Investimento público para a recuperação económica

Ideias

2021-02-13 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

Assiste-se em todo o mundo a adoção pelas governações de medidas extraordinárias de combate ao agravamento da crise pandémica e económica. Para isso, torna-se necessário que as governações, por um lado, encontrarem uma resposta imediata (de curto prazo) a emergência sanitária e a prestação de alívio de famílias e empresas e, por outro, criem as condições para a recuperação económica (de médio e longo prazo, ou seja, alavancando a produção (PIB), o rendimento e o emprego. A propósito, regista-se um recente relatório “Monitor Fiscal” (FMI, outubro de 2020) que refere como sendo estratégico em termos de recuperação económica a realização de mais investimento público (de qualidade). Mais, o citado relatório usando dados estatísticos a nível mundial preconiza que o aumento do investimento público pode gerar diretamente no curto prazo milhões de empregos e outros tantos indiretamente a médio e longo prazo. Quer dizer, funcionaria desta forma o fenómeno (keunesiano) designado por “multiplicador orçamental”: um aumento da despesa em investimento público pode produzir efeitos expansionistas sobre o consumo das famílias e o investimento das empresas e, como tal, sobre a produção (PIB), o rendimento e o emprego. Em concreto, refere que um acréscimo de 1% do PIB de investimento público ao elevar a confiança dos agentes económicos, permitiria aumentos do PIB em 2,7%, do investimento privado em 10% e do emprego em 1,2%.
E esta é uma boa ocasião para fazer crescer o investimento público devido a implementação de políticas de alívio monetário (“quantitative easing”) por parte do BCE e, logo, de existência de máxima liquidez nos mercados financeiros e de taxas de juro negativas. Afora isso, atente-se também a existência de níveis de poupança das famílias elevados na atualidade tornando-a numa fonte importante de recursos para financiamento do investimento interno (público e privado).
A aposta no investimento público resulta também de no presente o investimento privado se encontrar retraído em função do clima de grande incerteza quanto ao futuro da pandemia e as perspetivas económicas. O aumento de investimento público deve dirigir-se a projetos prioritários, tais como, obras públicas, equipa- mentos, investigação e desenvolvimento, saúde, educação, energia verde e prédios eficientes, tendo em conta o atual contexto de financiamento por empréstimos de baixo custo.
E o que se tem vindo a passar em Portugal quanto ao investimento público?
Qual o papel do investimento público na recuperação económica portuguesa pós-pandemia?
Desde logo, observa-se que Portugal tem vindo a investir pouco (desde a entrada no Euro) e também abaixo da média da União Europeia. Em resultado disso, o “investimento público líquido negativo” tem sido uma constante no caso português. Por “investimento público líquido negativo” entende-se sempre que a despesa pública em investimento anual (“formação bruta de capital fixo”) se situe abaixo do valor do desgaste/obsolescência do “stock de capital fixo público” acumulado, ou seja, quando os milhões de euros anuais investidos pelo Estado não permite sequer compensar o valor do desgaste/obsolescência das infraestruturas, máquinas e equipamentos acumulados, etc., tendo como resultado disso uma perda de “stock de capital fixo público” acumulado, afetando negativamente o crescimento económico e a prestação de me- lhores serviços públicos: escolas, hospitais, meios de transporte, vias de comunicação, etc...
Ora, segundo o Eurostat em Portugal o valor do investimento público (valores em % do PIB) foi de 5,3% em 2010 e apenas 1,9% em 2019, comparando com 3,6% em 2010 e 3,0% em 2019 da média da União Europeia. Essa baixa do investimento público ficou-se a dever a política portuguesa (desde a intervenção da “troika”) de redução a todo o custo do défice orçamental. Sendo assim, o “investimento público líquido” português passou de 2,5% do PIB positivo em 1999 para 1% negativo em 2019!
Concluindo, Portugal registou uma queda acentuada da taxa do PIB para 7,6% negativo em 2020 devido a emergência pandémica e ao novo confinamento. Desta forma, é expetável que a recuperação económica em 2021 seja pior do que a inicialmente foi prevista e, como tal, será necessário contrariar tal tendência relançar o investimento público e, assim, pelo seu efeito multiplicador, fazer crescer a produção (PIB), o rendimento e o emprego. Para isso, pode aproveitar a oportunidade única de financiamento por dívida pública a juro negativo, passando Portugal a registar um “investimento público líquido positivo” anual e aproximar-se da média da União Europeia.
Se assim for, o “investimento público bruto” anual em Portugal para além de compensar o valor do desgaste/obsolescência do “stock de capital público fixo” acumulado cria mais “investimento público líquido positivo” ou “novo investimento público”, ou “adição líquida de stock de capital fixo público”, condição indispensável para uma sólida recuperação económica pós-pandemia.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho