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Invocar o nome do povo em vão!

O Movimento Escutista Mundial (IV)

Invocar o nome do povo em vão!

Ideias

2020-11-22 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

1. Frequentemente, ouvimos políticos ou comentadores a falar, abusivamente, claro está, em nome do povo português. “O povo português pensa isto”, “o povo português gosta ou não gosta daquilo”… Seguramente, ninguém pergunta aos 10 milhões de portugueses, em cada momento em que fala em seu nome, no que pensam ou não pensam a respeito de determinados assuntos.
Falar em nome do povo já vem de há séculos, por parte de reis, presidentes, governantes, ministros, autarcas.
Os partidos políticos, porventura, mais que nenhuma outra organização, pontuam a sua propaganda em torno desse conceito que já teve as mais diversas expressões ao longo da História, desde a Idade Média, em que era um dos três estratos sociais (clero, nobreza e povo) aos tempos mais recentes, em que se contrapunha à burguesia e aos capitalistas ou às elites económicas ou sociais. Os partidos comunistas passam a vida a falar em “povo”, sobretudo no sentido dos “trabalhadores”, os que laboram manualmente, os operários, os mecânicos, os pedreiros, os pintores, os camponeses. Em contraponto às profissões mais qualificadas, elitistas, que usam o cérebro ou o pensamento. As profissões do sector liberal: os médicos, os advogados, os professores, o funcionalismo, os escritores, os jornalistas, os artistas, os músicos. No fundo, naquela perspectiva, os malandros da sociedade e da economia. Porque os “trabalhadores” são os profissionais manuais. Ou eram. Pois, com o afã de chegar mais longe e englobar os trabalhadores em geral, o conceito foi-se alargando e os trabalhadores são, nas sociedades contemporâneas, afinal, quem vive do seu trabalho, do seu suor, do seu salário, no campo ou na cidade, em qualquer sector da sociedade e da economia. Em contraponto com o mais pérfido patronato. O trabalho de um lado, o capital do outro. Separados por uma barreira intransponível. Como se, no universo da economia, não fosse necessário haver trabalhadores para garantir a produção e empresários para investir o capital em matérias primas, em salários, em factores de produção.
A cada passo surgem no panorama partidário novos projectos políticos com a mania de que são “diferentes”, com “ideias novas” ou apenas recauchutadas. Sempre em nome do “povo” ou, mais recentemente, quando o “povo” tem outro nome, do “cidadão comum”, dos “portugueses comuns”. Se a avocação dos “trabalhadores” ou dos “operários” indicia um partido de esquerda, o que quer que isso seja, a referência aos “portugueses comuns” vai dar à direita, neste caso, à extrema direita.
Por exemplo, o partido de um demagogo como André Ventura, assume que “ninguém foi mais a voz dos que não têm voz”, do que ele, que é a “a voz dos portugueses comuns”. Sempre a tineta de que são diferentes dos outros, e muitas vezes são-no, de facto, mas para pior. Um partido pretensamente “anti-sistema” que medra aproveitando o sistema.
Afinal, Ventura disse a semana passada ao jornalista Miguel Sousa Tavares que é sobretudo explorador das queixas e revoltas dos profissionais e, por isso, não se coibiu de asseverar que estará sempre ao lado dos trabalhadores em todos os seus protestos, "sejam professores, enfermeiros ou técnicos de saúde", apesar de no programa eleitoral do Chega, para o qual foi eleito como deputado, o partido defender o fim do SNS e a privatização da escola pública.
Por conseguinte, mais um populista, além de xenófobo e extremista de direita, como é sabido e consabido. Tal como os demagogos maiores, ele proclama o que os eleitores querem ouvir. Procura capitalizar o descontentamento e a indignação de determinadas profissões ou grupos sociais face a medidas do governo ou de organizações. É contra o estado de emergência, porque os restaurantes e o comércio são contra, porque lhes interessa a economia e não a saúde e há que explorar a insatisfação que paira por aí, porque dá votos. Como dá votos aproveitar uma manifestação das forças policiais contra o governo, ou as tiradas racistas contra os ciganos.
Como bem disse por estes dias o líder do PSD, Rui Rio, “o Chega é uma federação de descontentes” e “existe pela negativa”, apresentando propostas que vão contra as conquistas civilizacionais de Portugal e do mundo ocidental, como a prisão perpétua ou a castração química, ideias absolutamente aberrantes no século XXI.
Sempre em nome dos “portugueses comuns” ou “a voz dos que não têm voz”, congrega saudosistas de várias espécies, descontentes dos outros partidos, franjas sociais que não cabem em forças mais democráticas. Claramente um perigo para a democracia portuguesa, conquanto seja um partido legalizado, concorra a eleições, tenha um deputado na Assembleia da República. A História ensina-nos que grandes ditadores são eleitos pelo povo em momentos de crise, como aconteceu com Hitler na Alemanha.




2. A pandemia continua a tolher o mundo e os portugueses. Estamos em pleno Estado de Emergência, que acaba de ser renovado por mais duas semanas e sê-lo-á as que forem precisas como garantiu o Presidente da República.
Actualmente, há 191 concelhos em risco elevado de contágio, submetidos a medidas duras que afectam cerca de 8 milhões de portugueses e que são obviamente uma faca de dois gumes: por um lado, visam minimizar os efeitos da pandemia, cortar cadeias de transmissão, de modo a libertar a pressão sobre os hospitais e os cuidados intensivos, mas, por outro, resultam num tsunami para o comércio, uma hecatombe para a restauração, a hotelaria e os espectáculos, entre outros sectores seriamente atingidos pelas medidas governamentais. Impopulares, mas necessárias, pesem as teorias de alguns nefelibatas para quem, afinal de contas, o melhor até era nem haver medidas nenhumas… Porque vão prejudicar, porque inibem as liberdades, porque são desequilibradas…. Danem-se os demagogos, a quem se augura a pena mínima de irem cair aos cuidados intensivos de algum hospital, para concluírem, com a própria experiência, que em primeiro lugar está a saúde individual e colectiva e que sem saúde não há economia.
De todo o modo, ninguém julgue que o governo ou as autoridades, por muito que decidam ou determinem, vão conseguir “achatar a curva”. Porque terão de ser todos e cada um dos cidadãos a fazê-lo, com o seu comportamento responsável, cumprindo as regras sanitárias amplamente divulgadas. O combate à pandemia começa e acaba numa responsabilidade individual e colectiva que nem sempre foi assumida e por isso atingiu as proporções de calamidade que estamos a atravessar, no país e na nossa região.
Enalteço profundamente o Governo de António Costa pela maneira empenhada, competente e frontal com que tem enfrentado a crise mais dramática das nossas vidas, ressumando a imbecilidade grande parte das críticas de partidos e comentadores com agendas bem encomendadas e que não representam, nem de perto nem de longe, o sentir dos portugueses. Nesta conjuntura, ninguém faria melhor, até porque ninguém apresenta sugestões ou propostas credíveis nesse sentido! Apenas críticas ressabiadas, oportunistas e incoerentes, sempre invocando o nome do povo em vão!

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