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Isto daria para um filme?

Ideias

2019-10-11 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Feitas as eleições, contados os votos, discutidos os resultados pelos comentadores do costume, alinhando pelas sempre pelas posições prévias, depois do impacto na fase final do período eleitoral, estamos de novo com Tancos, de novo Tancos no Parlamento. Tantas coisas fundamentais: e esta história do mais espantoso – e ridículo. Dará um filme? Uma série? Um livro policial? Não é fácil…
A história é, toda ela, rigorosamente indicadora da maior ineficiência, falta de profissionalismo, e da lusitana tendência para o desenrascanço na procura de soluções. Parece que a cultura é extensiva a todos os grupos profissionais.

Senão vejamos o que se passou, pelo menos com base nos dizeres que têm vindo a público, claro numa versão simplista: alguém com uma dívida ao fornecedor de haxixe, resolve cancelá-la passando uma informação interna sobre a facilidade de acesso a um local para roubar, um paiol em Tancos. O potencial ladrão, ex-fuzileiro, ou seja ex-homem da casa, decide avançar, depois de ter feito uma estimativa dos ganhos a obter, e sub contrata ajudantes, a quem se responsabiliza por pagar mais do que os ganhos. O Nando, o Caveirinha, o Laranjinha, o Fechaduras, o Pisca... O destino a dar ao produto do roubo logo se veria; uma das teses que agora circula por aí é que seria para trocar as armas por droga… Mas também parece que se pretendia vender as ditas armas à ETA, entretanto já desaparecida – enfim, estudos de mercado mal feitos! Um outro elemento, provavelmente mais sério no desempenho da sua profissão de pilha galinhas, após ponderar os riscos , acha tudo uma patetice, e sabendo da história resolve avisar quem de direito, não vá ser apanhado numa curva... Diz-se que avisou uma procuradora do DIAP do Porto, que por sua vez avisou um inspetor da PJ de Vila Real, mas parece que sem efeitos práticos; não faz parte da história divulgada saber onde parou a informação ou quem, ou porquê não resultou em trancas à porta. Mas também parece que o tal Fechaduras já se tinha esquecido onde seria o local do roubo, algures pelo centro do país, e foi considerado ser “demasiado vago”... Na verdade, lá se fez o assalto e concretiza-se o roubo, noite escura, com uma carrinha de caixa aberta para facilitar e carrinhos de mão, que sempre eram mais de 300 kg!. Tudo corre pelos conformes; na base militar, não havia câmaras de vídeo vigilância, a organização e o timing das rondas tem as suas dificuldades, enfim. Do ponto de vista logístico, o controlo de gestão tudo parece padecer do mesmo tipo de insuficiências e problemas que grande número de outras empresas e instituições. Culturalmente, não somos lá muito bons no capítulo da organização - aliás, nem gostamos. E escondem-se as armas no quintal da avó, onde estariam já armazenada uma quantidade significativa de fardos de droga. Coitada da avó!

A partir daí, entra-se na fase 2. O país, surpreendido, discute o assunto e a imprensa e os políticos aproveitam a oportunidade para fazer o seu trabalho. As polícias entram ao trabalho, e digladiam-se entre si para mostrar serviço. Sem resultados parece, até que o cérebro do assalto, reconhecendo porventura que o estudo de mercado para a colocação do produto roubado não tinha sido bem conduzido, ou que os riscos assumidos tinham sido mal calculados, sabe-se lá, resolveu arrepender-se e propor a entrega das coisas, em troca do perdão claro, que a vida está difícil para todos. E aí entra a capacidade lusitana de resolver os problemas, limpando a face. As armas voltavam, o país repunha a sua imagem nas instituições internacionais, as trancas poderiam ser agora colocadas à porta, evitando novos desaguisados! E no fundo, todos nós, vicia- dos em inúmeras séries policiais, assistimos já a muitas situações deste tipo, o papel dos informantes e dos arrependidos, o dilema dos prisioneiros no seu jogo. A salvação da face. A ineficiência e ineficácia das instituições envolvidas, a dificuldade evidenciada de trabalhar organizadamente e em conjunto, a ingenuidade na procura de soluções por parte de todos evidenciam-se numa história que parece quase anedótica e que sublinha traços de uma cultura própria. A judicialização ou a atribuição de passa culpas políticas não contribuirão para a solução.

Em qualquer caso, o resultado final sempre foi melhor do que a minha própria história. Anos atrás, por altura do Natal, fui assaltada. Roubaram-me computadores e a carteira, onde tinha todas as pens com o meu trabalho de muitos anos. Por aqueles dias, o mesmo aconteceu com outros colegas da universidade, provavelmente respondendo a um nicho de mercado larápio! O certo é que chamada a polícia, foi-nos dito de imediato que as características do roubo identificavam claramente o seu autor. E disseram-nos mesmo o seu nome. Lá fizeram os exames periciais habituais, ainda acreditei recuperar alguma coisa, mas claro, tempo depois fui informada que tinha sido tudo arquivado. Esquecido. E pronto. Nem soube quem tinha roubado, nem confirmei as suspeitas adiantadas pela polícia, nem recuperei nada. Perda total. ?

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