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Jardim à vista

A honra de servir...

Jardim à vista

Voz aos Escritores

2021-10-01 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Braga tem jardins bonitos, que contam histórias de transformações, crescimentos e até de mudanças de estilo. Gostos discutem-se, sim, há suficientes publicações pelas redes sociais a provar isso mesmo. E não, não gosto das ditas couves. Venham as flores! Mas ainda assim hoje escolhi escrever sobre um jardim especial, um jardim onde cresci e onde tenho o privilégio de quase diariamente pousar os olhos.
Inicialmente acompanhada, depois simplesmente vigiada e mais tarde em encontros com outras pré-adolescentes como eu, o jardim da Senhora-à-Branca fez parte do meu imaginário construído em mundos gigantescos a descobrir e à espera para serem explorados.

Era um jardim mais bojudo. Os arbustos erguiam paredes entre os corredores, as heras trepavam à volta dos arcos de ferro, pendiam de lá também algumas flores e o lago tinha água. Alguma, às vezes verde e com girinos. Havia um jardineiro constantemente por aqui que protegia as suas rosas e outras flores contra as nossas demandas por tesouros enterrados, esconderijos entre arbustos, onde, inadvertidamente, os nossos pés danificavam o resultado do seu labor. Tinha-lhe medo. Tínhamos. Varríamos o recinto com o olhar antes de qualquer intenção colocada em aventura. Era um estado vigilante constante e, ao mínimo sinal, por passe de mágica, éramos meninas de coro, bem comportadas, sentadas nos bancos que ainda hoje lá estão, à espera de uso.

Mais tarde o encontro já não era feito do lado do jardim e do lago, mas antes nas escadas, na outra parte, onde nos sentávamos a conversar sobre bandas e lembro-me do grande êxito dos Wham! e de estarmos para ali a dançar como se não houvesse mais ninguém na rua. E se houvesse, nós não sabíamos, não sentíamos. Éramos só nós naquele jardim, naquela febre pela partilha do que nos inundava de energia. Naquele jardim frondoso que nos protegia da rua, dos carros e das pessoas.
A nós e aos casais de namorados que muitas vezes por ali procuravam alguma privacidade.

Por lá rompi uma bota Botilde, lilás, que ficou sem sola de tanto raspar o chão circularmente. Rompi palavras, raspei afectos. Rotinas que se perdem com mudanças de casa, crescimentos imperativos e elasticidades do tempo.
Longe, muito longe de imaginar o país que me acolhia o futuro, muito antes de ir perdendo alguma miopia e ver que este país continua a permitir que os crimes de colarinho branco e de corrupção banqueira se reformem precocemente no Belize à custa de quem trabalhou o seu sustento. Sem ver que as grandes instituições, pagas com os impostos dos trabalhadores, se perdem em burocracias caracolentas, deixando a sua missão urgente enevoada de irresponsabilidades, seja nestes casos, seja nos casos de violência doméstica e de proteção das crianças.

Mas estamos bem na fotografia da vacinação e a nação deve um eterno obrigada ao Vice-Almirante Gouveia e Melo e à sua equipa. E lateja por aqui, como um eco ainda da bota Botilde a bater no chão a cada volta, a ideia de ter uma equipa destas em cada Ministério. Afinal, trabalharam com os mesmos funcionários públicos de sempre e, tirando uma ou outra excepção, tudo correu afinado, o que me leva a concluir que em Portugal há um problema grave de chefias e de comunicação ministerial. De discursos camuflados e falta de foco e objectividade. Falta de consciência efectiva do que estão lá para fazer. Um desleixo contaminado, porque, afinal, o exemplo vem sempre de cima.
E sempre que por aqui passo, neste jardim agora mais livre de folhagem cabelosa, ainda sinto o sabor das laranjas arrancadas às árvores em tardes de preguiça quente.
Mas agora cheias de acidez, cheias de presente.

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