Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Jeremias

O mito do roubo de trabalho

Conta o Leitor

2016-07-10 às 06h00

Escritor

Maria Júlia Guimarães

Jeremias limpou as lágrimas que lhe humedeciam a córnea vindas das profundezas do saco lacrimal, impedindo-as de borbotarem da conjuntiva e continuarem a deslizar pela face a sulcar e a transbordar rugas feitas margens de antes estreitos, secos leitos.
As imagens, naquele pouco a pouco que o escorrer dos anos não permite no imediato perceber, que as metáforas não são para aqui chamadas, tinham perdido a nitidez em formas e cores e esboroavam-se, agora, já desbotadas e confusas naquela duplicidade de contornos e sombras que o afligiam. Paisagens, rostos, objectos... mais aquelas e estes do que as faces que essas ainda percebia, apesar de, pela razão da idade das que lhe eram dadas observar, lhes estranhar mais e mais o agreste da pele e aí, sim, o desbotado e a névoa em alguns olhos; objetos que se formavam na retina, se endireitavam mas só fugazmente se fixavam a recortar-se mais nítidos de um fundo qualquer, quando contraía os músculos sem nome mas que adivinhava existirem, pois se tanto os sentia, em esforçado semi-cerrar de olhos, que os fazia mais pequeninos e momentaneamente lhe emprestava a ele aspecto compenetrado e reflexivo.
Três meses de espera pela consulta de oftalmologia para, no surdo secretismo das paredes imaculadas, resistentes à insistência simples de Jeremias de que lhe doíam os olhos e estava a ver mal, salvaguardadas, talvez, na religiosa orçamentação contra despesismos, ou no acalentar de egoística fonte de lucro, elevada da profundeza dos tempos, ouvir a proficiência da doutora:
- Não lhe receito nada, quando estiver pior volte cá...
Jeremias cruzara a porta do consultório ainda atordoado, sem receita, sem óculos, sem nada, e voltara. Apressara-se mesmo a voltar, a tentar em outra consulta, em outro médico, a receita que lhe aliviasse os males. Que sim, doutor, que também sentia os olhos esquisitos, que lhe parecia mesmo, às vezes, que qualquer coisa lhe tinha entrado para as vistas e lhe picava e magoava os olhos...sim, doutor, sentia isso desde há uns tempos... Assim uns picos...umas picadelas... E ouviu a proficiência do doutor:
- Lave-os com água da torneira.
Jeremias, incrédulo, repetiu logo ali a frase que em proficiência proferida acabava de escutar e, de novo, ouviu a proficiência do doutor:
- Não passo receita para isso e não precisa dela para nada...lave-os com água da torneira...
Dessa vez, ao fechar atrás de si a porta do consultório, sem óculos, sem colírio e sem saber o que colírio era, desconhecendo, pois, tudo quanto lhe pudesse aliviar o mal- estar, Jeremias sentiu algumas lágrimas a assomarem-lhe aos olhos que lhe atenuaram por um momento aquele desconforto nas vistas.
Volveu-se a outro médico. Desta vez, um clínico geral que, entre a auscultação de rotina e o medir das tensões, achando-o triste, calhou de lhe perguntar se lhe parecia que a vida já não tinha o mesmo brilho. Incomodado com a falta de nitidez com que as coisas aos seus olhos assomavam, Jeremias, incauto e desalentado, respondeu que sim, isto é, que não:
- Não. Não têm o mesmo brilho.
E fora, então, que munido de uma carta fechada se viu núncio, entre um e outro, em consulta de psiquiatria:
- Está triste...Sente-se triste...Vive sozinho...Não tem filhos?
Jeremias mergulhava já em passado revivalista, tornado ponto obrigatório de partida, a tudo respondendo como podia e sabia. Obedientemente: que sim; que sim; que sim e que sim... Mas tomou, ainda, de empréstimo as palavras do outro, julgando-as aptas a esclarecer os seus males e lá foi dizendo que aquilo que no momento o preocupava mesmo eram os olhos que já não tinham o brilho do costume, que as coisas tinham perdido o brilho, se é que o doutor o estava a entender...
- Tem razão...tem razão...a crise tem tocado a todos...
E Jeremias cruzara a porta do consultório que sobre si fechara, abandonando paredes imersas em, também, surdo mutismo, com uma receita para aviar na farmácia. Frascos que obedientemente comprou e que religiosamente, em tomas calendarizadas e no respeito de horário rigoroso, esvaziou. Seria estulto dizer que os seus olhos não reganharam brilho; e tanto, que o seu cérebro, temporariamente toldado em esquecimento obediente, foi esquecendo a necessidade dos óculos, do colírio, de outra consulta de oftalmologia.
Jeremias deixou cair os braços sobre o tampo da mesa, a perpetuar a duplicidade de contornos e sombras, imagens borradas, esquecido já de que semicerrava os olhos, o que lhe dava aquele ar reflexivo e concentrado, para poder fixar, com dificuldade crescente, as linhas que delineando os objetos lhes recortavam a forma:
- Tem sempre de haver um idiota...
Amargo. Contestava, apenas para si mesmo, o país pequenino, parolo e antiquado, que revolução nenhuma tinha sido capaz de fazer implodir.
Jeremias morreu. Jeremias que ou não era, ou era, suficientemente burguês, que não era nobre, salvo de alma, que não era, ou era, suficientemente pobre e que, seguramente, nos cartapácios que tabelavam idades, não podia sofrer de presbiopia nem de outras médicas designações mais acuradas. Jeremias que sabia não ser nada nem ninguém. Jeremias. Morreu. Sem óculos e sem colírio que até era de venda livre na farmácia.

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