Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Juventude e empreendedorismo

Reflexões abertas à sociedade portuguesa

Ideias

2010-04-20 às 06h00

Paulo R. Sousa Paulo R. Sousa

Na crónica anterior, abordei ao de leve o tema empreendedorismo e a necessidade de apoio e formação sobretudo aos jovens com veia empreendedora. Parece uma matéria fácil, porém, na sociedade em que sobrevivemos, é de extrema complexidade, devido a um conjunto de variáveis, geralmente extrínsecas à capacidade e vontade do indivíduo em empreender, que as condicionam. Hoje, vou referir-me a alguns desses constrangimentos.

Ora bem: sou dos que pensam que todos nascemos empreendedores, pois, de uma forma ou de outra, num ou noutro aspecto, somos criadores, o que constitui a base ou essência do empreender. Uma criança a brincar com legos, fazendo construção de algo, está a ser criativa; outra, ao escrever, desenhar ou pintar, também está a criar e a inovar. Poderíamos apontar muitos mais exemplos, mas julgo que a ideia ficou nítida.

Com efeito, ao longo do percurso educativo e formativo que os jovens vão trilhando, continuam no caminho da criação e empreendem: organizam debates, seminários e exposições; utilizam conhecimentos científicos adquiridos para produzir tecnologia; promovem actividades desportivas, recreativas e culturais; enfim, desenvolvem imensas iniciativas que constituem empreendimentos. Desta forma, aprendem ou desenvolvem as bases do empreendedorismo, só que o fazem sem fins lucrativos, sem a forma empresarial no sentido da obtenção de lucro. Mas o bicho e a essência do perfume estão lá, de uma forma ou de outra, em todos eles e elas, nas mais diversas áreas.

Então, por que razão nos lamentamos, dizendo que o país está fortemente carenciado de empreendedores? Ou que continuamos a ter uma elevada “taxa de mortalidade empresarial”, com muitas empresas, uma boa parte delas ainda jovens, a encerrar a actividade? A justificação mais frequentemente apresentada é que há pouca ou mesmo nenhuma formação em empreendedorismo.

Pois bem: este pode ser um factor que contribui para o panorama referido, porque um empreendedor necessita, para além da vontade ou apetência pelo risco, de alguma formação ou preparação para conduzir com sucesso o negócio escolhido. Mas julgo que não será este o único factor crítico do sucesso, pois há outros mais determinantes na obtenção da viabilidade dos projectos e que fazem parte do contexto envolvente.

Refiro-me, por exemplo, aos apoios existentes e disponibilizados a projectos que têm potencial suficiente para se transformarem em negócios que, além de rentáveis, preenchem múltiplas necessidades, a começar pela criação de emprego e riqueza, passando pela disponibilização de bens ou serviços socialmente procurados, e culminando com a redução de importações (diminuindo o défice comercial) e do endividamento externo.

Porém, tais apoios são manifestamente insuficientes em escala ou dimensão, ou desadequados em género a uma boa parte dos projectos empresariais. E, como sabemos, sem capital (dinheiro), em maior ou menor volume, não há projecto nenhum que se possa implementar e desenvolver. O que significa que, se os candidatos a empreendedores não dispuserem de capital próprio, têm duas alternativas: ou desistem da ideia, por muito boa que ela seja, ou recorrem a capitais alheios (empréstimos), no todo ou em parte da necessidade.

E, chegados aqui, entra o papel e a função das instituições financeiras, em particular dos bancos, cuja actividade principal é emprestar dinheiro a quem precisa, cobrando os correspondentes juros que lhes permitem obter lucros.

Ora, todos constatamos que, ano após ano, os bancos apresentam vultosos lucros, enquanto muitas empresas (parte delas ainda no início de actividade), que até seriam viáveis se obtivessem apoio financeiro condizente, são encerradas com as consequências daí advenientes (desemprego, dívidas a fornecedores, etc.). O mesmo acontece com novos projectos que se pretendem empresarializar, alguns resultantes de excelentes ideias, a cujos candidatos a empreendedores são colocadas variadas dificuldades na obtenção de capital.

Assim, não tenho pejo em afirmar que, na maior parte dos casos, o risco do negócio tem que ser totalmente assumido pelo potencial empreendedor, não se dispondo a Banca a repartir esse risco, embora sujeitando-se a reduzir a margem de lucro. A isto chamo parasitagem do sistema económico pelo sistema financeiro, porque emprestar a um preço alto e com todas as garantias e mais algumas qualquer um faz. Para fazer equilibrismo com a rede por baixo não é preciso ser artista de circo! Um outro olhar da Banca sobre as sinergias empreendedoras do país só lhe ficava bem…

E já que o sistema bancário não desempenha, na extensão e na forma, o papel que lhe compete, incentivando mais jovens ao empreendedorismo, têm que se encontrar alternativas. Neste campo, a EPB - Escola Profissional de Braga está a prestar já o seu contributo, com a implementação de um modelo conhecido por toda a comunidade escolar e já em funcionamento. E tenho a certeza que vai fabricar alguns e bons empreendedores.

Entretanto, como é óbvio, não vou divulgar todos os seus pormenores. Tenho que fazer como o cozinheiro que, para preservar a titularidade da receita, guarda para si alguns segredos. Mas sempre direi que a base do mesmo assenta nos recursos humanos da EPB. E nem poderia ser de outro modo, pois, em tempo de contenção de despesas, há que aproveitar o saudável vício empreendedor dos nossos quadros, amplamente demonstrado em variadíssimas situações, que os coloca na rota das boas práticas de empreendedorismo. Como aconteceu ainda recentemente, no lançamento da “Rede de Educação de Adultos e Jovens de Braga” (REAJ) e na apresentação da “Plataforma Digital Novas Oportunidades em Braga”, onde os profissionais da EPB estiveram à altura, assegurando brilhantemente toda a logística daquele evento. Uma “oferta da casa” que poderá ter desenvolvimentos no futuro, pois “no aproveitar é que está o ganho!”

Para terminar, quero expressar as minhas felicitações à juventude de Braga que conseguiu que esta cidade fosse eleita a Capital Europeia da Juventude, em 2012. O que me apraz registar, pois, apontando-se como prioridades as iniciativas de emprego para os jovens e o empreendedorismo, isso poderá gerar, ainda, excelentes oportunidades de negócio, sobretudo entre os jovens empreendedores. Parabéns.

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