Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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“Kafkiano”

A saia comprida

“Kafkiano”

Ideias

2020-03-09 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Perplexidade talvez seja a palavra mais próxima do que sinto. Talvez perplexidade sobre o que acontece, sobre a evolução da realidade mas, sobretudo, perplexidade sobre as perguntas que surgem e as respostas que não aparecem.
E este “talvez”, talvez seja, hoje, a realidade mais difícil de enfrentar… Talvez não se trate já de saber responder às perguntas que surgem mas tão só (e já não será pouco) saber fazer as perguntas certas no momento certo…
Na verdade, o uso repetido da palavra talvez não será inocente. Este é o tempo do talvez, da incerteza e da flexibilidade, da insegurança e do desafio, da convicção e da resiliência. É tempo do talvez enquanto forma de entender a realidade: um talvez que não se deseja inibidor da resposta ou da validação, que não reflita adiamento ou espera mas, tão só, que represente espaço de descoberta e adaptação, de ajustamento às necessidades e desafios emergentes que o planeamento não consegue antecipar e que, nos dias de hoje, é quase tudo.

Recordando livremente citação “se é seguro, pode ser sim ou não. Se não há certeza, a melhor medida será o talvez… e acreditar em nós próprios para construir a solução!”.
Há muito que o planeamento se assumiu como forma de antecipar o futuro, de projetar o dia de amanhã como sequência e desenvolvimento lógico do dia de hoje e passado recente. Dir-se-á mesmo que o planeamento se constituía como cadeia de ações cíclica e previsível: uma leitura da realidade, interpretação das tendências, adoção de modelos, materialização em desenho, aplicação na prática, realidade. E, independentemente da sua abrangência e grau de profundidade, do seu carácter mais estratégico ou operativo, mais referenciador ou executivo, das suas escalas de trabalho e de abordagem, tudo desaguava na estabilidade e densidade da diversidade de planos, conformação e influência de infraestruturas e indução funcional, de carga polarizadora fomentada e da panóplia de parâmetros urbanísticos consensuais e por todos entendidos: volumes, área de construção, manchas, funções, rede viária, zonamento, urbanização, equipamentos e tantos outros.

Entretanto, tudo vem mudando, ou aparenta mudança: a evolução (ou revolução) tecnológica, a melhoria das condições de vida, a dissipação dos limites e barreiras, a facilitação de movimentos e acessos a bens e produtos, novas formas de trabalho e organização social, a liberalização e a transparência, o conhecimento técnico e administrativo, a gestão da qualidade “de todo o processo”, a globalização e a concorrência, a complexificação processual e administrativa. E, hoje, somos “invadidos” por “novas” palavras como sustentabilidade, estratégia, competitividade, operabilidade, conexão, agendas urbanas, transversalidade, integração, multidisciplinariedade, entre outras. E, hoje, falamos por acrónimos: PEDU, ARU, ORU, CCDRn, DRCN, PDM, PNPOT, RAN, PROT, UOPG, REN, RGEU, RMEU, RJUE, RERU, RJIGT, ELH, IGT, IP, RJRU, EBF, PROF, PMDFCI, ANPC, IMI, ZEP, POOC, REOT, e tantos outros, num processo cada vez mais descrito “simplificado, rápido e operativo” mas, na realidade, menos legível e mais confuso, menos dominável e mais difícil de concretizar.

Na realidade, ao longo do processo de planeamento, seja em que fase for – e à nossa escala, fixar-se-á o plano director municipal e o licenciamento urbanístico como aqueles momentos de maior significado e expressão – quando o mesmo parece estar a terminar, algo mais aparece: uma palavra nova, um acrónimo esquecido, uma regra escond- ida, … num rodopio administrativo e técnico que se afigura (ou aparenta afigurar) KAFKIANO, numa dispersão de conceitos, normas e figuras de planeamento que, muitos, poderão comparar com o próprio território regional: dito disperso e difuso, em mancha de óleo e sem limites legíveis, definidos e findáveis. Apenas com uma diferença: este modelo urbano é resultado cultural do Ser desta região e, directamente, diz respeito às pessoas e suas necessidades; (talvez pecando por exagero) aquela forma de planeamento é artifício administrativo e, regra geral, afasta-se do que mais precisam e anseiam as pessoas…

Talvez (novamente esta palavra) este texto seja pessimista e generalista, “simplista” e sensorial. Talvez! Mas, num momento em que tudo muda sem tempo para testar, num momento em que o grau de exigência se exponencia sem o proporcional crescimento da literacia no tema, num momento em que se persegue a comunicação para fomentar a transparência e a concertação, a percepção e a interpretação são fundamentais ao planeamento como veículos incontornáveis para identificar e perceber a mudança. E confiar que a técnica, o saber e a política façam o resto… melhor preparando-nos para o futuro.
Planeamento não precisa de ser KAFKIANO. É suficiente ajudar-nos a preparar e enfrentar melhor o dia seguinte.
Talvez seja este o caminho. Talvez…

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