Correio do Minho

Braga, terça-feira

Karol Wojtyla, o Santo

Tancos: falta saber quase tudo

Ideias

2014-04-27 às 06h00

Carlos Pires

Estou em Roma, com familiares próximos. Aproveitámos o fim de semana prolongado para revisitar a “cidade eterna”, mas, desta vez, com o propósito de coincidir com a cerimónia de canonização de João Paulo II, que ocorre hoje, na Praça de São Pedro, no Vaticano. Roma está envolta em alegria. Milhares de pessoas vivem a festa da canonização com entusiasmo, certas de que se trata do primeiro Santo cujo exemplo de vida puderam testemunhar, sem recorrerem à História.

Karol Wojtyla passa a ser “Santo” aos olhos da Igreja, que o reconhece como di-gno de culto público universal e de ser dado aos fiéis como modelo de santidade. Aos meus olhos, e aos de muitas outras pessoas, ele há muito é considerado “Santo”. E sempre o seria, mesmo que a ciência eclesiástica não tivesse validado qualquer (exigido) “milagre”, porque o que verdadeiramente importa é o que fez e o que disse em vida.

Eu tinha 9 anos de idade quando João Paulo II foi eleito Papa, pelo que o seu longo pontificado (27 anos) acompanhou as mais importantes fases do meu crescimento, permitindo-me concluir que “convivi” com um Santo. Recordo pois as visitas que efetuou ao nosso país, em 1982 e 1991; recordo aquele homem vestido de branco e a multidão de jovens que arrastava consigo, presos ao magnetismo dos seus gestos, do seu olhar e do seu sorriso.

Para quem não é católico será sempre complicado entender o significado da palavra “Santo”. Na “mística popular” ela esté relacionada com uma perfeição idealista, que não equivale ao verdadeiro significado de santidade cristã. Ser “Santo” não é o mesmo que não ter pecados (até S.Pedro, o primeiro Papa da Igreja Católica, pecou, ao negar por três vezes conhecer Jesus). O “Santo” é pois alguém que, inspirado na sua fé, procurou o melhor para o seu povo e para o seu tempo, transformando-se num exemplo para os outros cristãos.

Há quem tenha reagido contra a canonização, argumentando que João Paulo II não entendeu as exigências dos novos tempos, que deveria ter sido mais aberto em relação aos direitos da mulher na Igreja, que não compreendeu questões vitais e fundamentais para o mundo - como a questão da sexualidade (contracetivos) -, ou que não reagiu às notícias sobre o abuso de crianças por parte de alguns padres católicos.

Quero, na minha humilde e porventura menos esclarecida opinião, usar do mesmo direito de reação e declarar que, ao contrário, eu vejo um “Santo” na pessoa de João Paulo II. Realço a sua capacidade de perdoar (foi alvejado e perdoou a quem o tentou matar, visitando-o na prisão) e de pedir perdão (fê-lo às outras religiões e ao mundo pelos erros da Igreja); a sua incansável luta pela paz (elevou a voz contra o terror e contra a guerra - em particular, a forte oposição que deduziu à Guerra do Iraque, em 2003). Viajou por todo o mundo a fim de veicular a sua mensagem, convertendo-se numa das figuras mais influentes do século XX, mas sem nunca ter perdido traços únicos de simplicidade e humanidade.

Depois, inevitavelmente, o seu testemunho pessoal de sofrimento. Num mundo em que as imperfeições, a fragilidade e a velhice são escondidas, João Paulo II, ao contrário, nunca se coibiu em revelar toda a deterioração da sua saúde e do seu corpo. Morreu crucificado na enfermidade, após testemunhar o valor da vida na doença.

Na nossa vida, inúmeras pessoas passam, mas apenas algumas permanecem presentes, mesmo não estando fisicamente próximas, inspirando-nos.
Pois bem, na minha vida, São Karol Wojtyła, o Papa João Paulo II, mesmo após a sua morte, é uma dessas “presenças”, que provoca em mim um sentimento interior bom, de paz, de alegria e de esperança. E, hoje em particular, de uma enorme felicidade.

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