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Kissinger não empanca na A11

Derrota à francesa

Kissinger não empanca na A11

Escreve quem sabe

2022-05-29 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Associo o que só por junto surge nas nossas experiências individuais. O Kissinger é esse e não outro, é o homem de estado americano que por estes dias ressurge na cimeira de Davos, descontando sabedorias. A A11 é esta que temos às portas de Braga, por onde nunca terá ele passado ou dela sabido.
De uma penada despacho as molezas da A11. O final de tarde de quinta-feira brindou os circulantes com mais de meia-hora de impaciências para ultrapassar a cabine de portagem. Cabine no singular, que se 5 ou 6 são, só uma estava disponível. Sendo a maior parte de auto-cobrança, um mistério fica: porque se estrangula numa, o que dividido pode ser por várias? Será contenção de custos com força de trabalho inerte? Terá sido a primeira vez? Ou, ao que julguemos, certo será que a concessionária não tenha cultura de serviço? E só me vem a espírito o quanto se fustiga o trabalhador português pela falta de produtividade.

Parar, como se diz, é morrer. No mínimo é perder de viver, é perder de fazer, é sair do fluxo do que se encadeia naturalmente, potenciando o capital criador das situações. Progredimos, quando as nossas metas são justas, quando a estratégia é adequada, quando mobilizamos assertivamente os recursos, o que, no seu conjunto, nem sempre é tão claro como isso.
Assim, quanto por imperativo racionalista não procuremos compor coerência a priori, na sua transparência revela-se ela a posteriori, quiçá ao arrepio do que nos é conveniente, do que elaboramos a partir de pressupostos que pela metade não estejam sob a nossa jurisdição. Encarniçamo-nos, porque não queremos dar-nos por perdedores, esperneamos caprichosamente, e só pioramos as coisas.

Nunca agimos exclusivamente em função do estabelecido no passado. Em passos nossos há sempre uma incógnita, um nunca experimentado, vale dizer, uma incerteza, uma falibilidade. Kissinger já está na História. Dizem-no um mestre da realpolitik, o que, definido por alto, equivale a afirmar que a acção política de um actor não materializa apenas o que ele queira, mas também aquilo com que terá que aquiescer por força das circunstâncias. Diga-se, por corolário, que a realpolitik impõe-se ao pequeno Estado e à grande potência, em quota distinta que seja, e nenhum Bem de nosso cálculo progride ao arrepio de todo o Bem adverso.
A Ucrânia de hoje é uma aflição vai para vinte anos. Zelensky afundava em popularidade nas vésperas da intervenção russa e sabe-se lá se esse factor não pesou na decisão. Pelo que intuímos, nem o juízo americano lhe era muito favorável. Teve artes para inverter a equação, e isso lhe seja creditado, mas no essencial já é tarde. Teria sido um protagonista se tivesse avançado com os acordos de Minsk: tê-lo-á querido e chocado contra a disposição contrária dos sectores ultranacionalistas? Não o fez, unicamente para não ser deposto? Será isso mesquinho?

Podemos dizer, em paralelo, que a Rússia é uma aflição desde os idos de 90. Sucumbiu e reinventou-se. Quis cadeira no primeiro balcão, e ninguém lhes pode negar a ambição, sobretudo quem meios não tem para a silenciar. Intemporal, a realpolitik diria que chegaríamos ao ponto em que estamos. Talvez Kissinger tenha feito uma longa sesta. Talvez o tenham recuperado, para que de sua boca saia o que tíbios noviços não se atrevem a verbalizar.
Desabafa, Putin, que o Ocidente não os quis ouvir. E continuamos a não querer, entrincheirados em princípios que beliscamos quando nos convém. No fundo, enguiçamos a circulação, qual concessionária a quem posto único arranja, porque o automobilista, coitado, não tenha como se desenredar.

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