Correio do Minho

Braga, sábado

“Dançando em cima de um vulcão”

Menina

Ideias

2016-11-25 às 06h00

Margarida Proença

O título desta breve crónica é uma citação - trata-se exatamente da designação dada a um dos capítulos de um livro muito interessante de Ian Kershaw , na edição de 2016 . O livro em causa, chamado À Beira do Abismo, analisa a história da Europa entre 1914 e 1949, assumindo quatro vetores explicativos fundamentais : o nacionalismo étnico-racista, as exigências territoriais, a luta de classes e a crise do capitalismo. Kershaw argumenta que a gravíssima crise económica que marcou as décadas de 20 e 30 não foi suficiente para explicar o que veio a seguir, tendo precisado de uma crise de legitimidade do Estado.

Por todo o mundo, continuam a debater-se os resultados eleitorais nos Estados Unidos, e que culminaram na eleição de um populista por excelência, com um fortíssimo discurso nacionalista e racista. As explicações mais frequentes andam pela crescente sensibilidade e aceitação de discursos xenófobos , e às questões da raça e da etnicidade. De uma forma cíclica, ao longo da história, são “os outros” os culpados dos problemas existentes - sejam judeus, ou negros, ou muçulmanos, ou hispânicos, ou ciganos, ou emigrantes, ou sabe-se lá quem - sempre , sempre “os outros”, com outras culturas e outras tradições.

Ao longo do século XVIII foram aparecendo teses naturalistas que dividiam a espécie humana com base em raças; definiam-se categorias com base na cor da pele, na conformação do crânio e do cabelo, a que se foram acrescentando conceitos antropológicos baseados na auto-identificação. Mas estava-se ainda num período inicial da ciência moderna, e usavam-se então classificações como se fora para vegetais ou animais ; aliás, um dos autores mais importantes então era Lineu, um botânico sueco, também médico, que criou a chamada nomenclatura binomial.

No final do séc. XIX foram aparecendo mesmo explicações pseudo-científicas que ofereciam explicações biológicas: dizia-se por exemplo que os judeus eram racialmente diferentes “no sangue”, “feras predadoras sob a forma humana” como lhes chamava Karl Lueger, que foi presidente da Câmara de Viena. Ainda no século XIX, o Conde de Gobineau escreveu um livro que se tornou muito conhecido, e onde defendia que a humanidade podia ser dividida em raças diferentes, que podiam ser organizadas numa base hierárquica. Estas teses foram exercendo o seu fascínio ; Kershaw cita Edmond Archdéacon, um francês que por 1902 afirmava “enquanto antissemita exijo que os 150.000 judeus e os seus lacaios, os 25.000 mações, deixem de oprimir e arruinar 38 milhões de franceses”. Esta semana, ouvi um discurso inflamado de um qualquer apoiante incondicional de Trump - não fixei o seu nome - que a certa altura afirmava que os democratas , ou a “esquerda em geral “, dificilmente se “podiam chamar de pessoas”.

São sempre os outros; conheci portugueses que nos Estados Unidos eram definidos como pertencendo não à “raça branca”, mas à “raça hispânica”. Os emigrantes portugueses contam histórias e histórias de humilhação, mesmo quando são apresentadas de forma bem-disposta. No século XIX, médicos franceses “explicavam” que os alemães eram diferentes dos franceses, porque “urinavam pelos pés”!

Há umas décadas atrás, era frequente ler nas ruas “Ianques go home”, assumindo que o mal do mundo era dos “americanos exploradores e imperialistas”, como antes tinha vindo dos comunistas. Em 1911 , conta ainda Kershaw, uma revista alemã lançou um concurso que se baseava nesta pergunta “Quanto custam os elementos inferiores à sociedade?” ; o resultado foi a presença cada vez mais importante das ideias da “esterilização dos inferiores”, incluindo aqui doentes e pessoas com deficiência.

Apesar do enorme desenvolvimento da biologia e da genética ter demonstrado a ausência de base científica para estas teses, e de todo um trabalho muito relevante em termos do etnocentrismo inerente à cultura, os preconceitos continuam a fazer o seu percurso, aliados a determinadas ideologias e traduzidos em discriminação, e que no fundo legitimam comportamentos que estão porventura no imaginário de muitos. È mais fácil culpar os outros dos nossos problemas, é gratificante o sentimento de superioridade.

Há quem entenda que não se corrigem ideologias através da educação. Será. Mas tenho para mim que pessoas inteligentes, conhecendo e compreendendo, fazem a diferença. Cabe às instituições de ensino, cabe aos media, cabe a todos discutir estas questões, e analisar as consequências, torna-las públicas e notórias e claras. Dançando em cima de um vulcão - já não é a primeira vez que o fazemos.

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