Correio do Minho

Braga, sábado

“Em Roma, sê romano”

Mobilidade Sustentável

Ideias

2012-05-27 às 06h00

Carlos Pires

1. Maria terminou os seus estudos superiores há 2 anos. Tem procurado trabalho, mas não tem conseguido. As rotinas e o facto de continuar a ser sustentada pelos pais desgostam-na. O dia começa com o toque do despertador (‘Made in China’), após uma noite de sono envolta em lençóis de algodão (‘Made in Egypt’), seguida de um pequeno-almoço à base de leite e pão de forma industrial (‘produced in Spain’). Veste roupas práticas (‘Made in India’) e calçado de marca (‘Made in Italia’). A carteira (‘Made in Korea’) constitui acessório de que não prescinde. Antes de sair de casa ainda tem tempo de consultar a internet através do computador portátil (‘Made in Japan’). É no veículo do pai, de conhecida marca alemã, que se desloca, a fim de realizar contactos e entrevistas. A manhã passa rapidamente e a hora do almoço é passada em loja de cadeia ‘fast-food’, onde come um hamburger (“produced in USA”), na companhia de uma amiga com quem combinou o encontro através do telemóvel (‘Made in Finland’) e com quem partilha as frustrações e as dificuldades. No final do dia, já em casa, refastela-se no sofá (‘Ma-de in Sweden’), enquanto o pai lhe serve um copo de vinho (‘produced in Chile’). O tema da conversa é o habitual: porque é que não se consegue encontrar um trabalho em Portugal?
A ficção que vos apresento é paradigmática do muito que se tem falado em relação aos problemas económicos que o país atravessa, materializados, de forma assustadora, na crescente taxa de desemprego e que afecta, sobretudo, as camadas mais jovens.
Este alarido, embora não desprovido de fundamento, tem servido os ‘fait-divers’ da política nacional, produzindo-se teses e discursos contraditórios e confusos para o comum dos portugueses. No entanto, ao contrário do que acontece com muitos outros temas, cada um de nós pode fazer alguma coisa para inverter esta situação. Basta que nos preocupemos em consumir produtos com origem portuguesa!

2. Dou-vos o meu exemplo pessoal: criei o hábito, quando vou ao supermercado, de escolher maçãs, legumes, carne, leite, queijo, etc., de origem portuguesa. Existem ainda produtos não alimentares portugueses (vestuário, calçado, tecnologia) de excelente qualidade. Reparo cuidadosamente no código de barras - tem que iniciar com o número ‘560’!
E a verdade é que isto não constituirá nenhum esforço pois “o que é nacional é bom”, fruto das tecnologias avançadas que são utilizadas em algumas empresas nacionais, que apostam na qualidade, com uma organização eficiente e que empregam muitos trabalhadores. Sabia que Portugal tem uns sabonetes com mais de 120 anos de história e que são tão conceituados internacionalmente que foram mesmo referenciados por uma das mais conhecidas e influentes apresentadoras americanas, a Oprah? Sabia que um dos nossos azeites é considerado dos melhores do mundo? E que temos uma marca que foi pioneira na criação de rolos de papel higiénico coloridos, decorando as casas de banho de locais turísticos como o Museu do Louvre? Há sapatilhas (‘Sanjo’) e uma marca de acessórios (“Parfois”) com um crescente sucesso internacional e que a maioria das pessoas desconhece que são portuguesas.

3. Quer ajudar o nossos país? Quer que aconteça um milagre económico? Então, à revelia do que muitos economistas possam cegamente afiançar, torne-se mais “protecionista”. Um comportamento responsável exige que assuma-mos esse compromisso com o nosso país, valorizando a produção nacional, a criatividade, o empreendedorismo, o trabalho e a determinação, mobilizando empresários e trabalhadores para produzirem melhor e acreditarem que podem vencer o desafio da globalização.
Comprando o que é nacional, cada um de nós contribui para que a economia cresça, criando assim postos de trabalho, em Portugal. Este simples acto, multiplicado por milhões de pessoas, 365 dias por ano, pode fazer a diferença. O ditado popular ensina-nos: “Em Roma, sê romano”, ou seja, devemos respeitar os hábitos, valores e costumes locais. Estamos em Portugal, somos portugueses, porque não privilegiarmos o que é nacional?
Este fim-de-semana a capital do Minho está ao rubro, com a edição de 2012 da “Braga Romana”. A deliciosa mistura de cheiros, cor e pessoas recomenda uma visita. Para além dos cortejos e espectáculos de rua, não vai faltar o mercado romano, repleto de bons produtos nacionais, desde as cerejas aos enchidos, dos queijos ao pão e ao vinho. E já sabe, se decidir adquirir alguns desses produtos estará a ajudar portugueses, estará a ajudar Portugal.

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