Correio do Minho

Braga, segunda-feira

“O ano que chega…”

Macron - Micron

Ideias

2018-01-03 às 06h00

Filipe Fontes

Desde há muito que o “ano novo” é tido como sinal de recomeço de um ciclo temporal entendido, por tantos, como uma oportunidade de tudo iniciar (como se por magia fosse possível fazer “reset” às coisas menos boas da vida e pudéssemos, de imediato, funcionar no modo desejado ou ideal), por outros como uma oportunidade de balanço e “ajuste de contas” com a vida e todos os seus mistérios.
Seja como for, o “ano novo” é um momento que se abre e que se fecha, encerrando uma contradição que tem tanto de insanável quanto de progressiva esperança: jamais conseguiremos apagar a véspera mas sempre poderemos imaginar e condicionar o amanhã…

Na cidade, a realidade não é diferente, antes pelo contrário. O reposicionar do calendário “no dia um do mês um” não é mais do que um simples gesto que não elimina, altera ou rompe com o quotidiano do suporte físico da nossa vida: o território.

Como tal, para 2018, o mais natural será voltar a ouvir, discutir e actuar sobre os temas que, ao longo dos últimos tempos, emergiram (e se afirmaram) como dominantes e mais prementes: a habitação (e de que forma se concretiza o direito de todos a uma habitação digna), o arrendamento (e de que modo se conjuga a necessidade de promover qualidade habitacional e preços acessíveis), a reabilitação urbana (e como acelerar a reversão da degradação dos centros urbanos sem a dependência e alavanca exclusiva da “habitação turística”), a mobilidade (no sentido da indução de alteração de modos e hábitos de vida que acomodem menos dependência automobilística), o turismo (evitando a disneysificação dos nossos principais pólos urbanos), a floresta (como sinal de riqueza e bem natural), a desertificação (e de que forma olhamos para o ordenamento e ocupação do nosso território), entre tantos outros. E continuaremos a ouvir, discutir e actuar sobre estes temas não porque fomos incapazes de o resolver (embora tenhamos ficado muito aquém), não porque não tenhamos talento e capacidade para o fazer (embora não usar os nossos méritos a favor de todos não seja sinal abonatório) mas, simplesmente, porque o território é assim: dinâmico e progressivo, mutável e instável.

Ou seja, com avanços e recuos, ganhos e perdas que perduram no nosso panorama e demoram a rentabilizar e/ou corrigir.
Na verdade, o tempo do território é um tempo lento, dir-se-á mesmo, demorado e massacrado por muitos primeiros dias de muitos primeiros meses de muitos anos. É um tempo porventura incompreensivelmente rígido à alteração programada e um tempo demoradamente rápido à adaptação. É um tempo singular que nos obriga “a correr atrás” para o entender. E nunca para o dominar.

Porque assim é, para o território, o “ano novo” não é tempo de mudança ou de magia. Mas, simplesmente de continuar. De continuar um caminho sem fim à vista ou começo conhecido. Mas que sabemos nos obriga a:
…Existir e coexistir, ou seja, a saber afirmar o nosso “eu” e a nossa singularidade e autonomia, simultaneamente, ao ajustamento e acomodação necessários e desejados a uma vida comunitária (como é toda a vida no território) saudável. Na prática, construindo uma sociedade verdadeiramente democrática;
…Assistir e consistir, ou seja a saber explicar o nosso pensamento e perseguir positivamente a compreensão do pensamento do outro. A saber construir em comunidade com o mérito de cada um, cultivando a partilha e a solidariedade;
…Persistir e insistir, ou seja defender e lutar pelo bem que entendemos razão de ser e consolidar acções e medidas que solidificam atitudes e opções, fomentando a ética e a cultura;
…Resistir e (não) desistir, ou seja, permanecer na luta e conquista, enfrentando adversidades como alimento para a progressão (e nunca para a imobilização), ou seja, possibilitando o desenvolvimento.

E , assim, continuando, o território constrói-se a si mesmo e suporta a nossa construção, numa interacção com todos nós que o faz parte indelével da nossa vida individual e comunitária.
Por isso, não há magia ou “reset” neste “virar de ano”. Há sim que continuar. E, se possível, e com desejo, continuar com esperança. Que significa acreditar que haverá sempre um amanhã capaz de ser melhor! Para todos, bom 2018!

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