Correio do Minho

Braga, segunda-feira

“Rotina”

Como sonhar um negócio

Conta o Leitor

2014-08-29 às 06h00

Escritor

ANA C. NUNES

Ele olhou para o relógio no monitor e reparou que já passavam cinco minutos das treze horas. Desligou o monitor agarrou o casaco e levantou-se para sair o escritório.
“Vou almoçar.”

Não aguardou a resposta do seu chefe que estava concentrado no trabalho e se limitou a acenar com a cabeça. Saiu para o corredor e desceu pelo elevador, juntamente com outras cinco ou seis pessoas que ele não reconhecia, apesar de trabalharem no mesmo andar que ele.

Como era já costume, atravessou o parque a pé e dirigiu-se a um pequeno restaurante que todos os dias lhe servia o almoço. Entrou silencioso e dirigiu-se ao fundo do salão. A sua mesa estava vaga, como aliás sempre acontecia, encostada à parede bege e sobrevoada por uma grande pintura a óleo que retratava a cidade no século anterior.

Sentou-se de forma a ficar de frente para a entrada e abriu o menu na primeira página onde as diárias estavam escritas num chamativo post-it amarelo. Foi recebido com um sorriso pela empregada de mesa.
- “O que vai ser hoje, senhor?”
- “Peixe, por favor!”
- “E para beber?”
- “Vinho tinto.”
- “Sopa antes, certo?”
- “Sim.”
- “Trago já de seguida.”

Já há uns meses que visitava de segunda a sexta-feira aquele restaurante, mas nunca chegara a saber qual o nome de nenhum dos funcionários, assim como tinha a certeza que eles não sabiam o seu.
Reparou que um dos homens que descera consigo no elevador estava sentado numa das mesas perto da entrada, conversando animadamente com mais dois homens e três mulheres. Não sabia ao certo se os outros também tinham descido consigo, mas também não quis pensar demasiado nisso.
A empregada de mesa trouxe-lhe um prato de sopa de legumes e pousou-o delicadamente na mesa, desejando-lhe um bom apetite. Enquanto elevava a primeira colherada à boca, o seu olhar recaiu cobre uma outra jovem que se sentava na mesa em frente à sua. Ela também tinha o seu lugar do costume.

Às catorze e vinte horas ele saiu do restaurante e regressou ao escritório.

No dia seguinte, à mesma hora, voltou a sair para almoçar. Mais uma vez não reparou quem seguia no elevador consigo e, ao chegar ao restaurante, deu por si, novamente, a pensar se os outros cinco elementos da mesa mais vivaz trabalhavam no mesmo prédio que ele. Pensamento esse que rapidamente esvaneceu, como sempre, para o canto das insignificâncias do seu cérebro.
A sopa foi servida com o sorriso de sempre e ele saboreou lentamente cada colherada. Quando, minutos depois, a empregada levantou o prato vazio e lhe serviu o prato principal, ele deu por si a sentir a falta de algo, sem saber exactamente o que era.
Terminou a refeição e olhou para a mesa à sua frente.
Vazia.

Parou por instantes, com o garfo a caminho da boca, fixando a cadeira, esperando que a jovem do costume se materializasse, como que por magia.

O relógio apontava as catorze horas e vinte minutos quando ele saiu.
Nos dias seguintes, estranhou a ausência da jovem que desde sempre se sentara à sua frente, mas com quem raramente cruzara olhares e nunca trocara mais do que um simples “Boa tarde”. Era-lhe bastante incomodativo sentar-se só no canto mais recôndito do restaurante. Sentia-se só, apesar de ela nunca lhe ter feito companhia.

O fim-de-semana chegou sem que a jovem regressasse.
Na segunda-feira ele deu por si a ansiar pela hora do almoço.
Já dentro do elevador, falhou em perceber, uma vez mais, quem lá circulava, embora as suas vozes enchessem o pequeno cubículo descendente.
Entrou no restaurante, mais apressado do que habitualmente, sentou-se e deu uma olhada rápida no menu. Não tinha vontade de comer nada do exposto no cardápio e o seu estômago dava voltas e voltas, deixando-o com uma sensação estranha.
- “Boa tarde! O que vai desejar hoje?”

A simpática empregada loira, usava hoje um batom vermelho que fazia sobressair os seus lábios finos.
- “Hoje vai ser só sopa. Não estou muito bem disposto!”
- “Mas o que o aflige? Precisa que lhe traga algo especial?”
- “Não obrigada! A sopa deve fazer-me sentir melhor.”
Ela pareceu genuinamente preocupada enquanto virava costas e pedia ao cozinheiro uma sopa “super-caprichada”.
Cinco minutos depois tinha o prato à sua frente, mas não conseguiu sequer pegar na colher. O seu olhar estava fixo na mesa da frente, ansiosamente aguardando a chegada da sua mais fiel ocupante.

Ele não entendia o que se passava consigo. Não era como se eles fossem amigos, colegas ou sequer conhecidos. Não sabia o nome dela, a sua idade, onde trabalhava, o que fazia, do que gostava - à excepção de ler, porque trazia sempre um livro consigo - mas sabia que se não a visse rapidamente a sua vida não voltaria a ser a mesma. Ela tinha quebrado o ciclo. A rotina. A mecânica da sua vida. A sua roda tinha parado de girar. Ele precisava desesperadamente que essa roda girasse na direcção certa novamente e isso só aconteceria quando ela voltasse a sentar-se ali!

O seu coração pareceu saltar dentro do peito quando o vulto reconhecível da jovem se aproximou e ocupou o seu lugar. Ela parecia fraca e doente mas olhou-o e carinhosamente sorriu na sua direcção.
- “Boa tarde!”
Senti a sua falta … Era o que ele queria dizer, mas ao invés continuou a olhá-la, comeu a sua sopa, e depois acabou por pedir algo mais para aplacar o seu estômago, subitamente famigerado. Os nervos remoíam-lhe as entranhas e a comida nada fez para o acalmar.
O relógio já marcava as catorze e vinte, mas ele não estava a prestar atenção. Tentava não se fixar a jovem à sua frente, não notar as suas mãos a tremerem, ou o sorriso que vestia enquanto lia o livro de capa dura.
- “Esteve doente?” - A pergunta percorreu o espaço que os separava, antes mesmo de ele perceber o que tinha feito.
Ela desviou a atenção das páginas.
- “Estou com um aspecto miserável, não?”
- “Não era isso que queria dizer.” - Sentiu a cor queimar-lhe a pele.
A jovem respondeu-lhe com uma gargalhada. - “Sim, estive de cama com gripe, mas estava mortinha por voltar ao trabalho.” - Dobrou-se sobre a mesa, pondo uma mão ao lado da boca, sussurrando. - “Na verdade estava era cansada de estar em casa o dia todo. A minha mãe não me largava! Mas não diga nada a ninguém.” - Voltou a recostar-se na cadeira e sorriu.
Ele nunca se sentira tão contagiado por um movimento dos lábios, mas a verdade é que a estava a imitar sem se aperceber.

“Não direi.”

E foi assim, com uma troca de palavras apenas, que ela passou a ocupar permanentemente um dos lugares vazios no coração dele.

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