Correio do Minho

Braga, quinta-feira

“Ser mãe é padecer num paraíso”

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2013-02-03 às 06h00

Carlos Pires

1. Dezembro de 2012, Alenquer: duas crianças, uma menina de um ano e um menino de três, foram encontradas mortas, fruto de um incêndio na habitação provocado pela própria mãe, que fugira. O quarto estava fechado, com a porta trancada e sem chave.
Janeiro de 2013, Oeiras: duas crianças, dois rapazes de12 e 13 anos, foram encontradas mortas no interior de um carro, tapadas com uma capa amarela. A mãe, que terá envenenado os filhos, suicidou-se.
Voltou a acontecer - uma mãe matou os próprios filhos. Uma história tão trágica, com alguns requintes de malvadez, que me deixou perplexo. Na verdade, o ato de uma mãe que decide matar os filhos é o mais contranatura que posso imaginar. O amor de mãe não é incondicional? O que levará uma mulher a ser capaz de matar frutos do seu próprio ventre?
Leio jornais e revistas, na busca de algo que me apazigue. A única certeza que consigo encontrar é que estes casos estão a aumentar; que só no ano passado morreram sete crianças, todas às mãos das respetivas mães; as notícias represtinam muitos outros casos, mais antigos: a mãe que se atirou da ponte D. Luís, no Porto, com o filho de 6 anos ao colo; a mãe que matou os dois filhos com uma faca elétrica, em Viseu, etc.
Afinal porque morrem tantas crianças vítimas de quem as deveria proteger? Conflitos na regulação do poder paternal, a situação de crise económica e social que o País atravessa, transtornos de personalidade ou perturbações psiquiátricas, mera vingança - são alguns dos fatores apontados pelos especialistas.  Poderá o desespero, um quadro em que as mães não conseguem “ver uma luz ao fundo do túnel”, justificar que matem um filho? Haverá o “homicídio altruísta”, isto é, segundo as palavras de alguns psicólogos, situações em que a mãe mata o próprio filho para evitar que este venha a sentir o mesmo sofrimento que ela tem no momento? Uma prova de amor… Que amor é esse? O amor (visceral) de mãe?
Sou advogado e já me passaram pelas mãos casos e situações limite de vida, experiências dramáticas, pelo que, já pouca coisa me surpreende, por um lado, e aprendi a não julgar à partida, que “cada caso é um caso”, por outro lado. Contudo, devo confessar-vos esta minha “limitação”, não consigo, não consigo perceber que se matem filhos porque se acha que não são felizes; não consigo perceber que se matem filhos para impedir o pai de ficar com eles; não consigo perceber que se matem filhos por vingança. Não consigo perceber. Será que estas mulheres, que mataram os filhos com as próprias mãos, algum dia sentiram verdadeiro amor de mãe?

2. Nos últimos dias discutiu-se, em muitos fóruns, desde a comunicação social às redes sociais, se, naquele caso em que a mãe se recusou a laquear as trompas após o nascimento do seu décimo filho, seria ou não justa a institucionalização das crianças. A reportagem da televisão indiciava que haveria condições para que os menores continuassem com a mãe, o que levou a que a maior parte das pessoas insistisse na injustiça da situação. Apesar do teor dos relatórios da segurança social - que atestavam não existirem condições de higiene, que as crianças estariam muitas vezes sozinhas e que a mãe se recusava a cumprir com os acordos que fazia de modo a promover a melhoria de vida das crianças.
As duas crianças que apareceram mortas em Oeiras estariam sinalizadas pela segurança social devido à violência familiar e à instabilidade psicológica da mãe. As fotografias que vimos revelam crianças aparentemente bem nutridas e vestidas, felizes junto à mãe. Em Portugal continua a dar-se muita importância ao “biológico”, dão-se demasiadas oportunidades aos pais (sobretudo àqueles que revelam condição social ou económica superiores, diga-se!) acarretando que uma grande maioria das crianças passe a sua vida institucionalizada ou que morra à mercê dos seus progenitores.
Na falta da certeza de que sempre se proferirá a melhor decisão para o caso concreto, o que é preferível? Que os tribunais pequem por excesso e retirem as crianças às famílias - mesmo que depois se apure que estas estão aptas para as receber de volta -, ou que pequem por defeito, dando sucessivas oportunidades aos pais - e depois as crianças apareçam mortas?

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