Correio do Minho

Braga, terça-feira

“Vem aí o FMI!”

Combater a DPOC

Ideias

2010-11-14 às 06h00

Carlos Pires

1. Vou falar-vos de um filme cujo título e “remake” há muito são apregoados nos vários circuitos internacionais da especialidade: “Vem aí o FMI!”.
A acção do filme passa-se num país, de brandos costumes e clima ameno, situado no sul do Reino Europeu e que há algum tempo, fruto da desconfiança dos seus credores, é conotado ou alvejado com siglas - PIGS, PEC, TGV, SCUT -, cujo significado a maior parte dos seus residentes não conhece, mas que invariavelmente tem-se traduzido numa onda de pessimismo generalizado, com reflexos negativos na “carteira” de todos.
O último acrónimo lançado contra o país é o do “FMI”. Os juros da dívida do país ultrapassaram, na passada quinta-feira, os 7%, o tecto imposto pelo Senhor Ministro residente para uma intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Sob a batuta da Rainha Merkel, que receia que país não pague a conta, tudo se prepara para a intervenção do FMI. O povo encolhe-se e aguarda a chegada de seres ou de armadas que virão varrer o país “à chicotada”, traduzida em novos e crescentes “apertos”. Será que resistiremos? Uma imagem apocalíptica paira no olhar descrente de muitos. Na verdade, andaram a convencê-los de que o acordo para a aprovação do Orçamento seria fulcral para apaziguar as forças exteriores, mas, uma vez mais, o prometido esfumou-se.

2. Quem estiver atento ao “filme” apercebe-se que o país retratado é um país com duas faces. Por um lado, é o país que exporta nacionais seus, cérebros de ciência, em áreas como a física, biologia ou medicina para entidades como a NASA, para Universidades e empresas de topo a nível mundial. É o país que tem nacionais seus em cargos de referência internacional, quer na área política - Presidente da Comissão do Reino Europeu -, quer na área da Gestão - Presidente do Lloyds Bank -, quer em organizações internacionais - Alto Comissário da ONU para os Refugiados -, quer ainda no futebol - o Treinador, “The Special One” -, na moda - Director Criativo da Lacoste - ou na música - Directora Musical da prestigiada Orquestra Sinfónica de Berkeley, América. É o país onde têm sede empresas que são líderes mundiais de tecnologia, tais como: a que patenteou e comercializa um revolucionário medicamento anti-epiléptico, a que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça ou a que produz fatos usados na Fórmula 1 e por astronautas. É um país avançado na produção de energia através das ondas do mar e do vento. É o país que produz vinhos e queijos que ganham concursos internacionais. É o país que possui uma cozinha diversificada, com restaurantes estrelados pela Michelin, ou que são considerados os melhores em termos de design, ou ainda com as “tascas”, garantes de boa comida e acessíveis. É o país de pintores representados em museus de todo o mundo e de uma nova geração de artistas plásticos. É o país do fado e com história.

3. Então, questionar-se-á qualquer espectador do “filme”, é este o país que integra um conjunto de países débeis, maus pagadores, com baixa produção, conhecido pela pouco honrosa sigla PIGS? Qual a causa para este lamaçal colectivo?
O “filme” dá-nos a resposta, uma vez que nos mostra a outra face do país. Durante décadas o país viveu acima das suas possibilidades. O aparelho do Estado foi mau gestor dos dinheiros públicos. A palavra de ordem foi esbanjar. Esbanjou-se em obras e construções desnecessárias - veja-se os estádios, algumas auto-estradas e vias rápidas -, fomentando-se perniciosas relações entre políticos e empresas de construção civil. Esbanjou-se em salários principescos e outras benesses remuneratórias para os “boys” dos partidos, de todos os partidos. A gestão de sectores públicos cruciais, como a educação e a justiça, foram sendo alvo de “experiências”, a bel-prazer daqueles que, rotativamente, foram assumindo as rédeas do poder, todos sempre mais preocupados com os “números e as estatísticas” do que com a efectiva qualidade. O sector empresarial privado esteve a reboque do Estado; esbanjou muito dinheiro que era destinado à formação ou à renovação de equipamentos, optando, em muitos casos, pela remodelação da frota automóvel ou pela realização de viagens, amiúde, para “resorts” paradisíacos. Os particulares não ficaram atrás. O recurso ao crédito bancário destinou-se a um consumo desenfreado; não em cultura ou em algo verdadeiramente enriquecedor, mas antes em carros, casas, decorações e viagens para destinos exóticos, enfim, tudo o que, face aos critérios de toda uma sociedade assim corrompida, justificasse a ascensão social. Desinteressaram-se pela política - as lojas e as praias enchiam-se; os locais de voto mostravam-se vazios.
O país tinha (e ainda tem) tanto e faltou-lhe a “ética”. Esta é a grande lição a tirar do “filme”. O sofrimento que o país vive, com os actuais autores, pode vir a revelar-se em vão. Por isso, o país não deve olhar para FMI como um “bicho-papão”. Vai doer, e muito, mas ao menos todos poderão acreditar que, dentro de critérios de maior transparência, as metas poderão ser alcançadas. Este é um filme a estrear, brevemente, julgo, algures perto de si.

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